O Banco Central deu início a um aguardado ciclo de corte de juros ao reduzir nesta quarta-feira a Selic em 0,25 ponto percentual, a 14,75% ao ano, defendendo cautela para passos futuros da calibração da taxa básica ao destacar "forte aumento da incerteza" em meio ao acirramento dos conflitos no Oriente Médio.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC afirmou que avalia em particular o impacto dos conflitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam a inflação no Brasil, e enfatizou que suas projeções para a alta de preços se afastaram da meta de 3%.
"O Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços", afirmou.
O primeiro corte na taxa básica de juros desde maio de 2024 -- e o primeiro feito sob a presidência de Gabriel Galípolo -- vem após cinco reuniões consecutivas com manutenção da Selic em 15% ao ano, maior nível em quase duas décadas.
No documento, o BC disse que julgou ser apropriado dar início ao ciclo de calibração da política monetária, já que o período prolongado dos juros em nível contracionista trouxe evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica.
Para a autarquia, esse cenário criou "condições para que ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta".
Em janeiro, ao manter a taxa em 15%, o BC havia indicado que iniciaria um ciclo de corte de juros neste mês, mas apostas de mercado vinham migrando nos últimos dias para um afrouxamento menos intenso na política monetária sob risco de pressões inflacionárias geradas pelo conflito no Irã, que elevou preços do petróleo. Algumas casas de grande porte, como a XP e BGC Liquidez, já estavam prevendo, inclusive, uma manutenção na Selic nesta quarta.
Em pesquisa da Reuters, 30 dos 44 economistas entrevistados entre 9 e 13 de março projetaram que o BC cortaria a Selic em 0,50 ponto neste mês, mas, em meio às tensões no Oriente Médio, a maior parte das previsões coletadas no último dia da pesquisa já apontava para uma redução de 0,25 ponto.
CAUTELA
Para o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, a decisão do BC mostra um início cauteloso do afrouxamento monetário diante de incertezas geopolíticas, com ênfase na dependência de dados para as próximas reuniões do Copom.
"A gente imagina que é possível mais um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião e depois, superadas as incertezas do conflito, ele aumenta o ritmo para 0,50 ponto e encerra 2026 com uma taxa de juros 12%", afirmou.
Na visão do estrategista-chefe da GCB Investimentos, Lucas Constantino, ainda que o início do ciclo de cortes tenha sido confirmado, a comunicação do Copom sugere menor espaço para reduções mais intensas no curto prazo. Para ele, o ciclo deve prosseguir, mas em ritmo "bem gradual".
O BC afirmou no comunicado que os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, "que já se encontravam mais elevados do que o usual", se intensificaram após o início dos conflitos militares.
Nesta quarta, a autarquia piorou sua projeção de inflação para 2026 em relação a janeiro, de 3,4% para 3,9%, considerando o cenário de referência, que segue projeções de mercado para os juros. Em relação ao terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, a expectativa subiu para 3,3%, contra previsão anterior de 3,2%.
Para fazer as projeções do cenário de referência, o Copom considerou uma taxa de câmbio que parte de R$5,20, ante patamar de R$5,35 usado na última reunião.
O BC ressaltou que a incerteza acerca dessas projeções "foi elevada consideravelmente" em razão da falta de clareza sobre a duração dos conflitos militares e de seus efeitos sobre indicadores econômicos.
A decisão do Copom foi tomada de forma unânime pelo colegiado, que pela segunda reunião seguida contou com apenas sete dos nove membros, após a saída de Diogo Guillen da diretoria de Política Econômica e de Renato Gomes da diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução em dezembro. O governo ainda não indicou novos nomes para os cargos e dificuldades no Senado podem manter o desfalque por mais reuniões.
Mais cedo nesta quarta, o Federal Reserve manteve as taxas de juros dos Estados Unidos estáveis e projetou uma inflação mais alta, desemprego estável e um único corte nos juros para o ano, em sua primeira reunião de política monetária desde a eclosão da guerra de EUA e Israel com o Irã.