Com os reservatórios em apenas 50% da capacidade devido aos altos preços globais e a conflitos no Oriente Médio, a Alemanha enfrenta dificuldades para reabastecer seu estoque de gás antes do inverno. Especialistas alertam que a meta governamental de armazenamento é quase inalcançável, pois empresas privadas adiam compras apostando em futuras quedas de preços. Embora o governo afirme que o abastecimento está seguro via GNL, o cenário traz riscos de escassez e aumento nas contas de energia.
Reservatórios estão nos níveis mais baixos para esta época em vários anos, enquanto a alta dos preços e a guerra envolvendo o Irã dificultam o reabastecimento antes da chegada da estação fria na Europa.A Alemanha chega ao fim do verão com seus reservatórios de gás nos níveis mais baixos para esta época do ano desde a crise energética provocada pela guerra na Ucrânia. Com pouco mais de 50% da capacidade ocupada, os estoques estão bem abaixo dos registrados nos últimos anos, em meio à disparada dos preços do gás causada pelo conflito envolvendo o Irã. Embora o governo garanta que o abastecimento esteja seguro, especialistas alertam para dificuldades em cumprir as metas de armazenamento para o inverno e para o risco de novos aumentos nas contas de energia.
A seguir, a DW responde cinco perguntas sobre o tema.
1. Quão cheios estão os reservatórios de gás da Alemanha?
Os mais de 40 centros de armazenamento de gás da Alemanha estão com pouco mais da metade da capacidade, principalmente devido ao fechamento contínuo do Estreito de Ormuz, atualmente considerado o gargalo energético mais importante do mundo por causa da guerra envolvendo o Irã.
Segundo a associação europeia Gas Infrastructure Europe, que representa operadores de redes de gás no continente, as reservas subterrâneas de gás natural da Alemanha estavam em 50,14% da capacidade na quarta-feira (19/08), o nível mais baixo para meados de agosto em vários anos.
O armazenamento está cerca de 25% abaixo do registrado na mesma data do ano passado e mais de 45% abaixo dos níveis observados em 2023 e 2024, quando o país adotou medidas robustas de precaução devido à guerra da Rússia contra a Ucrânia.
Esse conflito levou a Alemanha, assim como o restante da Europa, a reduzir sua dependência da energia russa. A diversificação ocorreu principalmente por meio de maiores importações de gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos e do Catar, além de mais fornecimento por gasodutos vindos da Noruega.
Nos anos seguintes ao início da guerra, as autoridades priorizaram aumentar os estoques de gás antes do inverno e orientar famílias e empresas a reduzir o consumo.
2. Por que os níveis dos reservatórios estão tão baixos?
Normalmente, comerciantes compram gás no verão, quando os preços costumam ser mais baixos, para armazená-lo e revendê-lo no inverno, quando os preços são mais altos. Essa prática é conhecida como "diferença sazonal de preços".
Neste ano, porém, há pouco incentivo para encher os reservatórios antecipadamente devido aos preços elevados do gás natural e do GNL nos mercados globais, pressionados pelas interrupções causadas pela guerra com o Irã.
Os preços no mercado atacadista europeu continuam muito acima dos níveis anteriores à guerra da Ucrânia. Na quinta-feira, o índice de referência holandês TTF estava em cerca de 65 euros por megawatt-hora, aproximadamente o dobro do valor registrado no mesmo período do ano passado.
Nas últimas duas semanas, esse índice subiu quase 25%, após a retomada dos confrontos entre os Estados Unidos e o Irã.
Diferentemente de muitos países europeus, onde os governos compram gás ou utilizam reservas estratégicas para abastecer os depósitos, a Alemanha depende fortemente de empresas privadas de comercialização de energia.
Essas empresas apostam em uma queda dos preços do gás nos próximos meses caso a guerra com o Irã termine, permitindo compras mais baratas posteriormente.
No caso do GNL, a Europa precisa competir com a Ásia pelas mesmas cargas limitadas, e compradores asiáticos frequentemente estão dispostos a pagar mais.
Políticos alemães acusam os comerciantes de especular com a segurança energética do país. O deputado Jörg Cezanne, do partido A Esquerda, classificou essa estratégia como uma "aposta".
Na quarta-feira, um porta-voz do Ministério da Economia alemão informou que o governo está "instando os comerciantes a aumentar os níveis de armazenamento".
3. Como os estoques alemães se comparam aos do restante da Europa?
A Alemanha não é o único país europeu com reservas abaixo da média. Os depósitos de gás de Holanda, Bélgica, Eslováquia, Suécia e Letônia também estão abaixo de 50%.
Na quarta-feira, a média dos países da União Europeia era de 61%, quase 17% inferior à do ano passado e cerca de um terço abaixo dos níveis observados em 2023 e 2024.
Por outro lado, entre os países da UE com situação mais confortável estão Espanha, Itália, Dinamarca e Polônia.
4. A Alemanha ainda conseguirá armazenar gás suficiente para o inverno?
A associação alemã dos operadores de redes de transporte de gás, FNB Gas, alertou na quarta-feira que a meta do governo de atingir uma média de 71% de armazenamento até 1º de novembro é agora "praticamente inalcançável".
Em publicação no LinkedIn, a entidade afirmou que os estoques atualmente aumentam cerca de 0,5 terawatt-hora por dia. Mesmo que esse ritmo subisse para 1,2 terawatt-hora por dia, os níveis de armazenamento continuariam "significativamente abaixo da meta".
A entidade também advertiu que baixas importações de GNL, ondas de frio tardias ou prolongadas e falhas de infraestrutura podem comprometer o abastecimento de gás no próximo inverno.
Apesar disso, o Ministério da Economia da Alemanha tem reiterado que o fornecimento permanece seguro, destacando as novas fontes de GNL criadas após a crise energética de 2022/23.
Nos últimos anos, a Alemanha construiu rapidamente vários terminais flutuantes e terrestres de GNL nas costas do Mar do Norte e do Mar Báltico, permitindo receber cargas de gás provenientes do mercado global.
5. O que a escassez de gás pode significar para os preços no inverno?
Organizações de defesa do consumidor já alertam para possíveis aumentos nas tarifas de gás durante o próximo inverno.
"Estamos monitorando os níveis de armazenamento muito de perto e vemos desafios potenciais para o inverno que se aproxima", afirmou Ramona Pop, diretora da Federação das Organizações de Consumidores da Alemanha (VZBV), ao jornal Rheinische Post.
Ela aconselhou os consumidores a verificar se seus contratos incluem preços fixos válidos durante o inverno, o que poderia oferecer alguma proteção contra aumentos.
O portal de comparação de preços Verivox alertou que os novos contratos de gás para consumidores já ficaram significativamente mais caros desde o início de março e que os clientes atuais também poderão sentir os impactos.
Segundo a empresa, para uma casa unifamiliar com consumo anual de 20 mil kWh, isso representaria custos adicionais de aproximadamente 400 euros (R$ 2,4 mil) por ano.
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