"Quando eu não trabalho, parece que eu estou fora da vida”, define Matheus Nachtergaele. “Na minha história, eu não coloquei o amor, a família, a amizade, nada em primeiro lugar. O que mais me atravessa é a arte.”
Aos 57 anos e com um longo currículo de sucesso na TV, no teatro e especialmente no cinema, ele conta que parou tudo o que estava fazendo quando surgiu o convite para interpretar Poliana, na novela “Vale Tudo” (Globo), que terminou em outubro. “Estava cansado, mas foi uma proposta inegável. Para mim, era uma novela marcante, de dramaturgia inesquecível. O convite já era uma honraria deliciosa”, conta ele, que diz ter a trama original (Globo, 1988-1989) viva na memória. Foi a última novela a qual assistiu antes de entrar para o teatro, no CPT (Centro de Pesquisa Teatral), do Antunes Filho, o sonho de quase todo ator paulistano jovem, em 1988.
Matheus vinha há meses emendando um trabalho no outro. Passou 2024 no ar como Norberto, na novela “Renascer” (Globo), e, em dezembro, lançou nos cinemas “O Auto da Compadecida 2”, no qual reviveu o célebre João Grilo. O filme querido do público brasileiro foi visto por mais de 4 milhões de espectadores.
Nesse meio tempo, filmou outra sequência: a segunda temporada da série “Cidade de Deus — A Luta Não Para” (HBO Max, sem previsão de estreia) e já ia começar as gravações do filme “Cabra da Peste 2” (Netflix) quando recebeu o convite para “Vale Tudo”. Procurou a produção do longa-metragem e pediu para adiar o projeto, que agora será rodado em janeiro e fevereiro de 2026. Não antes de tirar dois meses e meio de férias — durante as quais, ele garante, ninguém vai vê-lo. É descansar mesmo.
Tem televisão na aldeia, tem televisão no quilombo, tem televisão na favela. As senhoras estão assistindo, as crianças também. Tenho que fazer bonito. A TV abre a cortina para o Brasil inteiro.
O tema delicado da assexualidade
A suavidade de Poliana, um personagem simpático, querido, amigo, porém solitário, não foi necessariamente simples de transpor para a tela. E a questão da assexualidade, inserida na atualização da história pela autora Manuela Dias, trouxe um tema tão delicado quanto atual para o debate.
“Me surpreendeu ela ter conseguido acrescentar essa questão de maneira suave, inteligente, sem estrondos e representando uma figura da nossa bandeira do amor que é pouco conhecida — a letra A da sigla LGBTQIA+. Foi um desafio para mim também, pois não queria fazer isso de maneira irresponsável”, conta Matheus.
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Ele diz que não é otimista para tudo, mas no aspecto da liberdade sexual vê o futuro com bons olhos.
Dedicado, Matheus diz que tem como hábito assistir a todos os capítulos das novelas em que atua e afirma que se sente mais vivo como ator quando está no ar na TV aberta. “Ainda faço como os antigos”, diverte-se. “Vejo os capítulos, decoro meu texto, penso antes em cada cena. Eu tenho um plano de voo. Quando estou fazendo novela, meu senso de responsabilidade fica aumentado”, reflete. Ali, afirma estar trabalhando para o Brasil com S, para todo mundo ver.
"A sigla LGBTQIA+ é temporária. É para irmos nos acostumando com a liberdade que o amor sempre teve, libertando as consciências, abrindo espaço para as formas de amar, que são infinitas. Em breve, provavelmente o H de heterossexual estará acrescentado à sigla e, em algum momento, não vamos mais precisar dos nomes. A bandeira do arco-íris será simplesmente a bandeira do amor.”
Consertar-se no palco
Apesar disso, Matheus se define como um ator de cinema primordialmente e carrega no coração um amor puro pelo teatro. “Fiz espetáculos muito lindos. Toda minha obra teatral eu considero preciosa”, conta. E, no meio dessa obra, está o espetáculo que considera uma das coisas mais bonitas de sua vida: “Processo de Conscerto do Desejo”, que o ator interpreta há 10 anos e reúne poemas escritos por sua mãe. O “sc” na palavra não é erro de digitação, e sim uma tentativa de unir os significados de conserto e concerto em um neologismo.
“Minha mãe cometeu suicídio em 1968, quando eu tinha 3 meses de idade, mas eu só fiquei sabendo da maneira como ela havia morrido aos 16 anos, quando meu pai me contou”, afirma. A informação veio com 27 poemas escritos à máquina por sua mãe, um presente do pai, cuja leitura trouxe um entendimento sobre a vida e a poesia. “Eu virei um leitor voraz por causa da mamãe. A relação de mãe e filho é muito forte, não há morte que resolva. E eu sou um filho amoroso, eu amo demais a Maria Cecília”, diz.
“Fui me tornando artista também por conta dela”, avalia o ator, criado pelo pai, engenheiro e músico, que costumava tocar para ele as canções favoritas de Maria Cecília. Depois de tanto ler e exibir os poemas, Matheus decidiu transformar os escritos em um espetáculo. Quando o apresentou pela primeira vez, entendeu a força daquela poesia. “É o meu trabalho mais bonito de todos. É a peça em que eu meio que sou minha mãe e, ao mesmo tempo, um ator em catarse de cerimônia do adeus.”
O desejo, incluído no título, ele associa àquilo que o move, que o faz querer viver. E, aos 57 anos, ainda quer muito mais. Faz análise desde a adolescência e parou de beber álcool há 12 anos. Embora não se considere esportista, gosta de nadar e costuma caminhar na companhia dos cachorros. Hoje, vem estranhando a chegada da idade porque, segundo ele, o corpo vai apresentando os sintomas do final. Garante que tem se cuidado para viver mais e “envelhecer gostosinho” e considera estar com um corpinho de 47 aos 57 anos. Quer ainda parar de fumar para chegar à velhice com mais saúde.
Para ele, o esplendor da vida reúne a maturidade e a importância de uma formação cultural bonita. “Nunca desejei vida eterna, mas talvez eu não acreditasse tão claramente que a vida termina. Agora eu entendo. Não sei a quem agradecer, meu Deus não está fixado em nenhuma religião. Mas eu agradeço por viver, acho uma experiência tocante”, diz. Enquanto isso, toca milhares de pessoas com a arte.
Se o ápice é amadurecer com cultura, Matheus tem gabaritado nesses quesitos.