"É muito importante a gente voltar a ouvir quem pensa diferente", reflete Maria Prata

A jornalista já traduziu as passarelas, mas hoje fala com um público amplo sobre negócios e inovação

Maria Prata ri ao se reconhecer como uma “nepo baby”. O neologismo é usado, geralmente em tom pejorativo, para descrever filhos e netos de famosos que se destacam em suas áreas sob influência dos familiares. Para ela, isso não é uma crise. O humor, inclusive, é uma das heranças do pai, o divertido escritor Mario Prata, como ela contou em um bate-papo com a jornalista Joyce Pascowitch, na Casa Vivo.

Escritores realmente estão por todos os lados da família. Maria é irmã de Antonio Prata e casada com Pedro Bial. Sua mãe é a roteirista e dramaturga Marta Góes e seu padrasto era o escritor Nirlando Beirão, falecido em 2020. Ela, no entanto, tomou um caminho próprio até se destacar no audiovisual, área na qual hoje, aos 46 anos, atua.

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Formada em Moda — uma forma de comunicação, na definição dela —, foi editora em publicações como a Vogue, o canal Fashion TV e a revista Harper’s Bazaar, da qual foi também diretora. Na GloboNews, atuou como âncora do programa Mundo S/A de 2007 a 2018. Ali, desenvolveu o olhar para os negócios e para a inovação no universo corporativo, área em que segue até hoje.

Nos últimos anos, entendeu as mudanças do mundo e soube se reinventar como produtora de conteúdo nos portais de notícias e também nas redes sociais, sempre contestando a influência dos algoritmos em nossas vidas.

É importante para a democracia de um país que a gente possa equilibrar os desejos e saber quando é nossa vez e quando é a vez do outro.

HUMOR E SENSIBILIDADE COMO HERANÇA; LITERATURA NÃO

Sarcasmo pode até ser coisa de família, mas quem trabalha com Maria garante que ela é séria no ambiente profissional. Fugindo da expectativa de escrever livros, como os familiares, mantém-se firme no audiovisual e prepara um documentário para discutir a dificuldade de comunicação nos dias atuais.

Quando minha filha Laura tinha dois anos, na pandemia, meu pai foi em casa e almoçou conosco. Quando foi embora, ela me disse: ‘ele é engraçado’. Foi a primeira frase que ela falou sobre meu pai. Meus amigos falam que sou muito séria trabalhando e poucos sabem que sou tão engraçada porque, para mim, é difícil passar o humor para o trabalho. Já o meu irmão [Antonio Prata] faz o trabalho dele a partir de um olhar muito divertido sobre a vida. Foi meu pai quem passou isso pra gente. Perdi as contas de quantas vezes a gente gargalhou com ele até doer a barriga. Da minha mãe [a dramaturga e roteirista Marta Góes], peguei a sensibilidade. Ela é muito centrada e diz coisas simples e razoáveis, muito verdadeiras. Mas tem algo que não faço como eles: eu travo na hora de escrever um livro. Freud explica totalmente. Na falta de uma obra literária, decidi fazer um documentário. O mundo hoje é muito audiovisual e é mais fácil trabalhar com a imagem e o texto juntos. No filme que estou dirigindo, falo da minha relação com o mundo depois que as minhas filhas nasceram. Busco entender a forma como as pessoas estão, ou talvez nem estejam, compreendendo o mundo. Por que não estão mudando o comportamento? É uma reportagem, em que escuto pessoas como [o pesquisador] Ronaldo Lemos e [o cineasta] Fernando Meirelles. Não sou cineasta, sou uma jornalista fazendo um filme.

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INFLUÊNCIA NA MODA E O PÉ NA PUBLICIDADE

Maria Prata na Casa Vivo
Maria Prata na Casa Vivo
Foto: Vans Bumbeers / Velvet

Apontada como uma das 500 pessoas mais influentes da moda global, em 2016, pelo site “The Business of Fashion”, hoje Maria é sócia e integrante do conselho consultivo da Out Of Office (OOO). A agência de produção de conteúdo fundada em 2020 é responsável por campanhas de grande repercussão. Uma delas, para o lançamento de uma nova linha de produtos capilares, reuniu Sabrina Sato e Maria Bethânia para falar sobre a força do cabelo natural e volumoso, um match que deu muito certo.

Quando comecei a fazer moda, a função dos jornalistas era traduzir a passarela. Com as redes sociais, isso mudou bastante e o mercado de luxo está aprendendo a se posicionar sobre as questões climáticas. A expertise das marcas é criar desejo, e é possível almejar o desenvolvimento sustentável. Enquanto a moda passava por essa transformação, comecei a trabalhar na GloboNews, que me deu visão de negócios e inovação. Comecei, então, a olhar a moda como business. Na agência, atualmente, a minha função é abrir portas, trazer clientes. Trabalho com pessoas de menos de 30 anos, todos brilhantes e muito conectados. Foi assim que surgiu a ideia de trabalhar uma campanha com a Maria Bethânia: a partir do meme ‘acordei meio Bethânia’ [em referência aos cabelos com frizz]. Uma colaboradora sugeriu convidá-la e todo mundo duvidou, mas a própria Bethânia gostou. A ideia era que ela estivesse muito à vontade e tivesse liberdade de rir de si mesma. Funcionou.

A MISSÃO DE DRIBLAR ALGORITMO

Veio do jornalismo, segundo ela, a capacidade de falar sobre temas diversos sem necessariamente se especializar em um assunto só. Só que, no Instagram, plataforma em que soma 170 mil seguidores, o desafio é outro: comunicar para um público que pode acabar induzido a aderir a fenômenos efêmeros.

É impossível se aprofundar em alguma coisa em um minuto e meio [referência à duração comum de vídeos verticais nas redes sociais]. O mundo virou o que virou porque ninguém pode se aprofundar em nada. Tudo ficou raso. É muito importante a gente voltar a ouvir quem pensa diferente, não apenas bloquear e achar que o mundo é o dos seus algoritmos e referências. Outra questão relevante é que o acaso também está morrendo e a gente não tem mais encontros ou ideias inesperadas. Tudo é programado e a comunicação acontece em áudios que podem ser refeitos ou textos que são editados. E o acaso é tão importante para a vida, para a inovação! Temos de ficar atentos se estamos fazendo escolhas porque fomos bombardeados com muita informação e pelo puro desespero de precisar ter porque todo mundo tem. Será que ainda existe escolha própria?”.

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Maria Prata e Joyce Pascowitch na Casa Vivo
Foto: Vans Bumbeers / Velvet

DIGITAL É CAMINHO SEM VOLTA

Mãe de Dora, de 5 anos, e Laura, de 7, com Pedro Bial, Maria afirma que educar é complicado em tempos de vida digital e inteligência artificial. Mas apesar do próprio ceticismo com as redes, acha possível descobrir referências e conexões com a internet. E destaca a importância de criar experiências offline também.

Quando começou a conversa sobre IA, achei que ia conseguir me proteger. Eu uso, porque profissionalmente preciso e porque tenho interesse, mas achava que seria só quando quisesse. Porém, não temos mais escolhas. Todos os produtos que a gente consome hoje em dia de informação digital têm IA. O Whatsapp transcreve os áudios automaticamente pra mim, sem que eu tenha pedido! Uma das coisas que a IA vai fazer é tornar fronteiras de livre arbítrio cada vez menores. Você não vai saber se está usando ou não. Nós, como mães e avós, temos responsabilidade de levar filhos, netos e bisnetos (e mães, avós e bisavós) para o mato, para o silêncio, para um lugar em que a gente lembre que o mundo ainda é mundo. Em casa eu falo ‘não’ para as telas e tento explicar as razões. A minha filha de 7 anos volta da casa da amiga com referências de tiktokers. Eu achava que estava protegida, mas é o mundo em que elas vivem.

Toda vez que a gente conseguir fugir do algoritmo vai ser bom. A criatividade está em um lugar fundamental. As artes e a música vão ter papel de resistência nisso tudo e vão nos ajudar a encontrar caminhos sem essa tecnologia.

A IMPORTÂNCIA DO POSICIONAMENTO

Uma das missões mais urgentes para Maria hoje é acompanhar ações governamentais e cobrar o poder público no campo da sustentabilidade. Um problema de todos, ela diz. O mesmo vale para o universo da moda, que só agora começa a entender e se posicionar sobre temas globais.

Não dá mais pra gente achar que sustentabilidade é um problema dos outros. Não significa usar ecobags e sacolas de papel ou se sentir culpado porque esqueceu a sua no dia de fazer supermercado. Não vamos salvar o mundo enquanto estiverem explorando petróleo a torto e a direito. Não sou bióloga, ativista ou climatologista. Mas entendo que o pensamento de cuidado com o ambiente tem de estar em tudo o que a gente faz, inclusive para cobrar quem tem de propor soluções. A cobrança é o que faz mais diferença, principalmente sobre o poder público. Quando a população diz ‘chega’, eles [os governantes] mudam.

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Maria Prata e Joyce Pascowitch na Casa Vivo
Foto: Vans Bumbeers / Velvet

INFLUENCERS QUE MARIA PRATA INDICA

“Thais Farage (@thaisfarage) é maravilhosa, brilhante, entende muito de estilo e olha pra moda como uma coisa comportamental. Ninguém fala de moda hoje com tamanha lucidez quanto ela.”

“O Ezra Klein (@ezraklein) (do podcast ‘The Ezra Klein Show’, do New York Times) é brilhante. Ele é jovem, inteligente, e entra com profundidade em diversos assuntos.

“Ronaldo Lemos (@lemos_ronaldo), que fala muito de tecnologia, tem um podcast, com a Patrícia Campos Mello (na Folha de S.Paulo), que mistura política com tecnologia, e eu adoro.

Fonte: Velvet Conteúdos da revista Velvet
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