Encarar as mudanças da vida, mesmo quando elas não são fáceis, é uma das características de Gabriela Prioli, 39 anos. Com fala firme e objetiva, os cortes que circulam nas redes sociais com suas opiniões progressistas causam alvoroço.
Não poderia ser diferente: sua história de vida começou com um desafio enorme, aos 6 anos de idade, quando perdeu o pai em um acidente de trânsito. Criada na Vila Mangalot, na periferia de São Paulo, foi bolsista de um colégio particular. Mais tarde, cursou Direito no Mackenzie, e emendou os estudos com um mestrado na USP. Em 2016, pouco depois de completar 30 anos, conheceu seu marido, Thiago Mansur.
A carreira em grandes escritórios de advocacia acabou gerando convites para a TV — primeiro na Record e depois na CNN, quando ganhou destaque nacional ao protagonizar o quadro “O Grande Debate”. A partir daí lançou livros, esteve entre as participantes do “Saia Justa”, do GNT, e em 2022, tornou-se mãe com a chegada de sua filha Ava. Em um constante caminho para um relacionamento melhor consigo e com o outro, ela foi a convidada da Casa Vivo para bater um papo sobre relacionamento com a coach de vida e carreira Ana Raia.
Se você nunca ouviu a palavra ‘angústia’, você não consegue sentir o que isso traz. Os limites da palavra são os limites do meu mundo. Se eu não tenho um nome para aquilo, não consigo viver a plenitude.
Quebrar paradigmas e se reinventar são constantes na vida de Gabriela. Mas, apesar de se propor a isso, reconhece que não é fácil e está sempre se revendo.
Viver dentro da minha pele é doloroso. Eu acho importante dizer isso porque, de uns tempos para cá, tenho refletido muito sobre a minha presença e a forma como eu sou vista, principalmente por outras mulheres. Tenho receio de ser compreendida como alguém que faz e enfrenta tudo o que faz sem nenhum tipo de machucado. E isso é mentira. Me sinto pressionada para me adequar a um padrão de feminilidade que nos é cobrado o tempo inteiro, ou seja, docilidade, mais subserviência, menos embate. Mas eu construí tanto para mostrar para a menina que eu fui que poderia ser diferente e existem momentos em que eu penso que eu vou ter que chegar para ela no fim da vida e falar: ‘Não deu. O mundo venceu, porque eu não aguento mais’. Mas aí eu acordo no dia seguinte e penso que eu preciso fazer isso, porque esta sou eu. Pode ser que eu chegue ao fim da vida e veja que realmente não deu para eu conquistar tudo que eu queria, mas não vou morrer vivendo e eu não vou viver pela metade. A única alternativa para mim é existir desse jeito. É doloroso, mas tem satisfação.
RELACIONAMENTOS
Deixar de lado o “eu” e abraçar o “nós” para a construção de relacionamentos saudáveis é uma bandeira importante para ela.
Se relacionar é difícil e sempre será. E será tão mais complicado quanto mais as pessoas forem livres para ser quem são. Um relacionamento hierárquico, seja entre dois adultos, seja entre pais e filhos, de uma maneira profundamente autoritária, é mais fácil porque é a imposição da vontade de um ou de um pequeno grupo sobre outras pessoas. Impor é sempre mais fácil do que conciliar. Porque esta última pressupõe olhar para o outro, de fato se relacionar. E aí talvez a dificuldade seja um campo mais amplo de possibilidades e individualidades — associado a isso, um discurso muito centrado no ‘eu’. É importante para se permitir, se compreender, legitimar. Mas a individualidade, quando exacerbada, deixa de se apoiar em um princípio de liberdade: eu ser quem sou. E passa a se escorar de novo em um princípio de autoritarismo, se sobrepor a todos os demais. O que eu quero de uma relação? Não importa, importa o que nós queremos. E o amor é também a capacidade de enfrentar o difícil, conversas difíceis, porque não existe intimidade sem atravessar essa ponte. E, muitas vezes, colocamos na caixa do ‘não falamos sobre isso’ tudo aquilo que nos causa algum tipo de desconforto. E assim acaba a possibilidade de desenvolvimento como casal.
MATERNIDADE
Com o nascimento de Ava, Prioli precisou se libertar da culpa para poder viver em plenitude a maternidade sem se deixar de lado.
Ser mãe é padecer no paraíso, ou seja, um sofrimento redentor, mentalidade religiosa, que leva para o céu. Então, a medida do amor é a medida da dor? Eu não quero. Minha mãe ficou viúva muito jovem e eu achava o máximo dizer que ela almoçava no carro para poder levar os dois filhos para a escola em horários distintos. De repente eu me dei conta de que isso é um absurdo. Uma moça de 33 anos parou de viver! O ideal de maternidade está nesse lugar do sofrimento e, quando você pensa que não queria que a vida acabasse, vem a culpa. Quando tive a Ava, me disseram que ia esquecer da Gabriela que fui, que não ia nem lembrar de mim. Eu falei para uma plateia grande que, apesar da maternidade, ainda me lembrava de quem era. Parecia que isso me tornava uma pessoa horrível, egoísta, mas é preciso que nos lembremos de nós mesmas. Uma pessoa vazia não tem nada para entregar para o outro. Eu preciso me preencher para ser alguém para minha filha, para ter algo para entregar para ela. Não existe peso maior para um filho do que a vida não vivida de um pai.
VOCABULÁRIO DE SENTIMENTOS
Como encontrar um caminho para ter relações mais saudáveis? Nomear e não negar o que sente, criando uma ponte de confiança, é uma das ferramentas exercidas pela apresentadora.
A gente precisa conseguir trazer a racionalidade para a equação, mas sabendo que o sentimento é fundamental para que a gente tome boas decisões. E qual é o nosso vocabulário de sentimentos? O quanto lemos e falamos sobre o sentimento, o quanto o nosso repertório gramatical é vasto para entendermos o que estamos sentindo? Outro ponto é não se falar do sentimento que é considerado ruim. Vamos falar sobre, entender o que isso revela, ter uma conversa difícil. Não é bom se calar. Quando isso acontece, fica um monte de gente se iludindo permanentemente.
VOCÊ E O OUTRO
Para Gabriela, entender que somos o centro apenas do nosso mundo é libertador para uma relação plena conosco e com o outro.
Quando digo que todo mundo deve se sentir livre para satisfazer os próprios desejos e para buscar a própria satisfação, isso pressupõe a convicção de que o outro pode fazer a mesma coisa. Ele é tão livre quanto eu. Só existe tranquilidade na coerência. Se eu acho que eu posso, mas que o outro deve me servir, acabou. Porque você não consegue sequer estabelecer os seus próprios limites, a incoerência cobra esse preço. É muito difícil compreender que o outro é um outro. A gente nasce achando que somos o centro do mundo e que o mundo somos nós. O aprendizado mais difícil é entender que cada um é o centro do próprio mundo. É libertador, porque a gente vai se dar conta de que as pessoas estão menos preocupadas do que a gente imagina. Não somos tão especiais.
ABISMO
Tirar a pressão e a culpa de si mesma é um norte para conseguir encontrar o que busca.
Um discurso que eu detesto é que a pessoa certa está ali, é só se amar primeiro. Não sei se está. Talvez não tenha esse alguém, talvez a gente não encontre e seja uma trajetória que a gente vai precisar desenvolver sozinha, amorosamente falando. Eu falo para as minhas amigas que dizem querer ter filhos e estão procurando um cara certo. Minha mãe encontrou esse cara e meu pai morreu. Não há certeza. É importante gostar de quem você é. Aprender artifícios para se sentir bem sozinha, que é a solitude. Encontrar maneiras de conviver com grupos que nos deixem mais felizes, mais confortáveis. Mas é importante parar de ter esse foco único, acreditando que se deve aprender a se amar para estar pronta para alguém. Aí, se esse alguém não vem, você se frustra e acha que todo seu trabalho foi em vão. É cruel. Tem uma frase de Blaise Pascal que eu amo: ‘corremos despreocupados em direção ao precipício depois de haver colocado algo diante de nós para impedir que o vejamos’. Essa venda é a tentativa de controle do futuro.
Eu acho que o que a gente vai se tornar depende das coisas que consumiu ou viu, dos discursos que escutou, do que leu. É a cultura que molda o nosso comportamento.