A ideia de Maria Fernanda era desacelerar em 2017, quando se mudou para a capital francesa com o marido Petrit Spahija e os filhos. Mas a vida tinha outros planos para seu projeto de calmaria. Logo que chegou ao país, foi convidada para estrelar o filme “O Traidor”, de Marco Bellocchio, em Roma. Foi o longa que a levou pela primeira vez para o Festival de Cannes, já em 2019. Depois, filmou “Animais Fantásticos e Onde Habitam” (2022), da franquia de Harry Potter, em Londres. Trabalhou também com a cineasta francesa Lisa Azuelos, no filme “La Chambre des Merveilles”, de 2023. Segundo ela, para equilibrar sua parte artista com o genuíno desejo de estar presente em casa, o princípio é fazer o que esteja em sintonia com o seu interior. “Se não for assim, eu fico burocrática. Seria mais um filme, mais uma peça. Nunca me portei assim em relação ao trabalho”, afirma, categórica.
Seguindo essa premissa, a atriz brasileira, que tem chamado a atenção do mundo nas premières do filme “O Agente Secreto”, garante que a agenda atribulada não interfere na rotina em casa. “A verdade é que sou muito próxima dos meus filhos. Eu gosto de fazer isso, é algo que é importante para mim. Não acho que todo mundo precise vivenciar a maternidade como vivo, obviamente. Mas eu sempre quis ser mãe e, apesar de não ser uma tarefa fácil, adoro exercer essa função. O tempo inteiro faço escolhas, mas acho que consegui um bom equilíbrio”, diz. É assim que encaixa as coisas, abrindo mão de algo muito importante (acompanhar a família de perto) para fazer algo que também é essencial (trabalhar em projetos que façam sentido).
Quando você encontra o amor, você encontra o bem. O teatro celebra isso. Nós nos encontramos ali ritualisticamente para celebrar a existência, o fato de estarmos aqui vivos, dividindo esse momento único que nunca vai se repetir.
Se a escolha dos trabalhos é baseada em ter coerência com o seu interior, não é por acaso que grande parte de sua obra recente se confunda com a literatura brasileira. Era ela a Capitu de Machado de Assis na versão “Dom”, longa dirigido por Moacyr Góes, em 2003. Voltou a interpretar a personagem na série de TV “Capitu”, em 2008. Viveu ainda a protagonista de Clarice Lispector que ingere a barata na “Paixão segundo G.H.”, de Luiz Fernando Carvalho, em 2023. Desde 2020, interpreta textos autobiográficos da própria escritora na França e no Brasil. Ela explica essa relação consistente: “Meu perfil, a minha personalidade, os meus interesses, as coisas que se afinam comigo e estão no meu campo de visão são essas [obras que remetem à arte em geral]. É isso que me atrai, me inspira, me instiga e me move”.
Assim, sua família reconhece a importância desses projetos artísticos como partes integrantes do seu ser. “Há uma parceria entre todos porque eles estão vendo que estou longe, mas estou feliz, fazendo algo importante para a cultura do nosso país e para este tempo que a gente vive. E eles também se sentem participantes assim, de alguma maneira”.
Gosto de criar meus filhos e educar com toda a parte gostosa e com toda a parte trabalhosa que isso envolve. Nessas quase duas décadas de maternidade, eu nunca deixei de tentar encontrar equilíbrio entre esses papéis, de mãe e de artista.
A paixão segundo Clarice
São muitos projetos intercontinentais no audiovisual, mas foi no palco, interpretando textos de Clarice Lispector na peça “Balada Acima do Abismo” que Maria Fernanda passou mais tempo. A montagem começou como um recital dramático em comemoração ao centenário de Clarice, em 2020, na Embaixada Brasileira na França. Ali, Maria Fernanda lia os textos em francês ao lado do piano. Em 2024, a atriz decidiu encerrar esse período de leituras e transformar aquele embrião em um espetáculo teatral em português. O projeto estreou em São Paulo, em 2025, com equipe técnica brasileira. Em cena, Maria contracena com as paredes, com a luz de Caetano Vilela, com o piano de Sonia Rubinsky e, claro, com o público. “A montagem tem um aspecto diáfano com a direção de Gonzaga Pedrosa, que faz um trabalho muito sensível e poético. É de muita delicadeza — gosto muito dessa palavra, eu acho que se aplica para essa imagem”, ela diz.
No abismo de Clarice, Maria Fernanda fala, se debate, rompe barreiras palco/plateia e silencia às vezes, de modo quase incômodo, como na pontuação do texto da autora. “Sempre conecto o meu fazer a algo maior, que extrapole as minhas bordas, os meus limites de indivíduo. Acho que aí fica clara minha relação com a literatura, com a cultura brasileira, com a cultura de outros países também, porque eu tenho feito trabalhos aqui na Europa que também seguem esses critérios”. A peça foi um sucesso no Brasil, com apresentações esgotadas em janeiro e julho de 2025.
Paralelamente a isso, ela foi trabalhando na montagem francesa da peça “Ballade au dessus de l’abîme”, com direção de Maurice Durozier, que estreou em junho de 2025 em Paris. Com duas versões do mesmo texto correndo simultaneamente, Maria se vê com os dois lados de uma moeda na mão. A montagem de Pedrosa, até por ser brasileiro, capta a luminosidade da obra de Clarice, segundo Maria. A do diretor francês, entretanto, enxerga o lado sombrio dos textos, o que torna a concepção mais encarnada na personagem, diante da angústia que a obra dela causa. O desafio de, como atriz, interpretar duas montagens com tantas nuances chamou a atenção da dramaturga Ariane Mnouchkine — movimento que levou o espetáculo a ser encenado no Théâtre du Soleil, uma das companhias teatrais mais importantes do mundo, em janeiro.
Para entender a dimensão desse fato, é preciso voltar décadas na história. Ariane, hoje com 97 anos, montou o Théâtre du Soleil em 1964. Na década de 1970, a companhia se instalou no galpão abandonado de uma fábrica de munição, a la cartoucherie, dentro do Bois de Vincennes, um espaço amplo e arborizado no 12º Distrito parisiense. Hoje, mais de cinco décadas depois, virou um expoente da cena teatral mundial, emoldurado pelo Jardim Botânico de Paris e o Parc Floral, com suas paisagens que lembram pinturas impressionistas. “É um acontecimento muito importante na minha existência enquanto artista ter sido recebida pelo Soleil, que cedeu salas de ensaio e cenário”, conta Maria Fernanda. E está todo mundo em casa, já que Durozier, diretor da versão francesa de “Balada Acima do Abismo”, é o ator mais antigo do Théâtre du Soleil. Maria Fernanda confessa se emocionar toda vez que fala sobre o assunto. Não é para menos. A união de potências como Clarice e Ariane é de fazer chorar mesmo.
Em francês e português
Clarice Lispector morreu no dia 9 de dezembro de 1977, véspera de seu aniversário de 57 anos. Carlos Drummond de Andrade, seu grande amigo, escreveu um poema sobre a coincidência fúnebre, do qual parte o texto da peça, escrito por Catarina Brandão. “Ele diz que ela veio de um mistério e partiu para outro. Ela mesmo fala que foi preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. J’étais préparée à être mise au monde d’une belle…”, Maria Fernanda confunde os idiomas em que atua, diferentemente de Clarice, que dizia não querer aprender outros idiomas para que seu português fosse límpido.
Recentemente, circulou pelas redes um vídeo em que Maria Fernanda se mostra orgulhosa ao ver Wagner Moura se arriscar no francês nas premières do filme que representa o Brasil no Oscar. Ela não poupa elogios para o colega e afirma que a parceria é um dos pilares de sua carreira. “A minha natureza é muito voltada para o outro. Tenho fascínio pelas pessoas desde quando estava estudando [ela cursou terapia ocupacional na USP]. Também me sinto assim quando estou fazendo uma personagem, lendo uma peça, estudando um roteiro. O outro é tudo que a gente tem, né?”, filosofa.
O que ela chama de verdade interior também se manifesta na facilidade de viver o agora. Ela jura que não tem esse “pezinho no daqui a pouco” em tempos em que todo mundo foi consumido pela ansiedade digital. Usa o Instagram como agenda de trabalho e não interage com comentários (“O público nem espera isso de mim”). Maria se reclina no sofá de seu apartamento parisiense, respira profundamente e afirma que prefere mesmo estar presente: “Sou dessas”.
Quando você atua com aquilo que de fato ressoa em você, as coisas tendem a ser fluidas. Sempre tive essa clareza de caminhar realmente por onde eu encontro aquilo que faz sentido para mim.
Semanas depois dessa conversa, em meio aos ensaios para a estreia da peça, a atriz posa para as fotos que ilustram essa edição de Velvet no L’aventure, um clube situado exatamente em frente ao suntuoso Arco do Triunfo. O local foi projetado pelo arquiteto sueco Martin Brudnizki com veludos profundos e mosaicos mitológicos. A decoração do espaço, onde funciona um restaurante e um hotel, se transforma todas as noites, garantem os proprietários.
Maria Fernanda também está aberta às transformações, sentindo profundamente os personagens que escolhe viver, seja na ditadura militar ou no texto de uma grande escritora no palco. À luz de Ariane, para quem o ator tem o direito de experimentar tudo — “não qualquer coisa, mas tudo” —, Maria Fernanda segue provando sua verdade. Viver a deixa tão impressionada quanto deixava a própria Clarice.
DIREÇÃO CRIATIVA E EDIÇÃO DE MODA: LUCIO FONSECA
PRODUÇÃO EXECUTIVA: LF OFFICE PARIS
ASSISTENTE DE FOTO: MATEI FOCS
TRATAMENTO DE IMAGEM: MARCELA DINI
MAQUIAGEM: LLOYD SIMMONDS
CABELO: MICHAEL BUI
PRODUÇÃO: ELLEN BAROKHEL
VÍDEO: FATIMA ARANTES
AGRADECIMENTOS (LOCAÇÃO): L’AVENTURE PARIS @LAVENTUREHOTEL