“A capoeira está em dia e também tem um pouco do bombeiro que eu já fui aqui", confessa entre gargalhadas Dalton Paula, em uma freada que faz com que se desequilibre no carrinho de transporte em Inhotim. Momentos depois, ele está com um conjunto nude bordado de branco, sorridente, recebendo os primeiros convidados que chegam para visitar a mostra “Dupla Cura”, no Inhotim.
A abertura da exposição é o começo das celebrações pelos 20 anos da instituição e reúne inúmeros trabalhos de diferentes momentos da carreira do artista goiano, como esculturas, pinturas e videoinstalações, na Galeria Mata, com curadoria de Bia Lemos. Dalton, artista, capoeirista e ex-bombeiro, impressiona em muitas outras funções.
Ele caminha em Inhotim cumprimentando pessoas o tempo todo, carismático. “A placa da minha exposição!", comemora. O sorriso de quem está em volta comprova que a alegria é um pouco contagiosa. “É o artista que mais gostei de ver aqui em Inhotim”, confessa uma funcionária empolgada. Não é só por lá que a presença magnética conquista o público. Foi citado, pela segunda vez consecutiva, na lista Power 100, publicada todos os anos pela renomada revista britânica ArtReview, e saltou da 87ª posição, em 2024, para a 68ª posição, em 2025. É o único artista brasileiro ali. “A gente olha melhor o Brasil quando alguém de fora olha para a gente", diz, com o sotaque goiano que cativa ainda mais o interlocutor.
“Há uma expressão lá de Goiás que diz ‘para além do Paranaíba’, quando vai borrando a fronteira", ele conta, em referência ao rio ao sul de seu estado natal. Dalton foi muito além do Paranaíba. “Sai mais matéria sobre mim no New York Times do que no jornal da minha cidade. Mas há um despertar que precisa ser feito: pensar meu trabalho como artista na minha comunidade, para que os personagens desse sistema se tornem agentes e todo o sistema ganhe", afirma.
Valorizar a coletividade
Dalton se rotula como um artista viajante. “Acho muito importante estar no lugar e sentir a energia de lá. E nesse desenvolvimento da pesquisa sempre tem uma literatura básica, que consiste em conversar com as pessoas, pegar rastros, pistas, acervos públicos, depoimentos das pessoas. É assim que as ideias vão se assentando", conta. Entre os estudos em campo, está o Ciclo Econômico brasileiro; a Rota do Algodão, no Maranhão; e o Ciclo do Ouro, nas cidades mineiras. Entre projetos futuros, a Rota do Café. “Ali, converso com as pessoas que viveram o processo, que têm a memória e lembram do que é importante", ele conta. Quando retrata ancestrais, a pesquisa e a licença espiritual fazem parte do processo criativo. A partir desse momento, anotações no que ele chama de “caderno de artista", com desenhos e apontamentos que fortalecem o que virá posteriormente.
“Sou um artista multilinguagem e tento potencializar aquilo que tenho que questionar ou tensionar. Funciona como uma retroalimentação. Esse pintor que pensa a performance está no lugar que alimenta o pensamento e isso vai engrossando esse caldo. Chamo de tocar a profundeza do rio. É rico passar por diferentes linguagens, explorar e tirar o que cada uma tem de melhor parao que quero trazer para o público", diz.
Pintar o corpo negro
Uma das evidências de sua obra é retratar o corpo negro de ancestrais, e o seu próprio. As obras de Dupla Cura estavam em coleções particulares, e foi um movimento custoso e dispendioso, por conta do valor das obras e seguros, o de convencer os colecionadores a deixar pinturas por um ano e meio longe de suas casas. “Mas o encontro é muito potente, um corpo de trabalho robusto. Muito generoso o Inhotim poder proporcionar isso para o público e tem funcionado como um oráculo. Olhar para o passado, ver o que deu certo e o que não deu e repensar o futuro e os caminhos que quero percorrer", ele analisa.
O momento é visto por ele como positivo na luta antrracista. “Nós avançamos muito. Tem mais artistas negros trabalhando, pensando, escrevendo, curando, tem mais exposições com galeristas negros e as instituições estão pautando mais esse tema. Mas somos mais de 50% da população Por mais que tenhamos avançado, ainda há muito a se fazer. Eu acho que reparação seria o respeito de ir e vir sem arquétipos, se sentir livre, não se sentir vigiado e rotulado. Tem a ver com liberdade, independente da cor”.
A história oficial, ele diz, infelizmente não contempla a diversidade que é a população brasileira. Nas obras, ele usa ela dualidade: a enciclopedia, que tem saberes eruditos e eurocêntricos, como suporte, mas com personagens negros na capa, para pensar no protagonismo de sua raça.
A comunidade anda junto
Dalton se diz um artista que não anda sozinho. A marca Dalton Paula, revela, dá um passo para trás e “a comunidade está chegando junto no Sertão Negro”, que faz cinco anos em 2026. No espaço, nove lotes com áreas de incentivo aos artistas, fomento à agricultura, criação de tilápia e um complexo de cursos como capoeira, dança, coral, fanfarra e cerâmica. Veio de lá o grupo de jovens que cantou na abertura da mostra no Inhotim e liderou o cortejo para o coquetel de abertura. “É o pensamento coletivo que deixa as coisas bem mais redondas", afirma. “Fazemos tudo a muitas mãos. A comunidade é mais forte", afirma.
“Sertão Negro é meu grande trabalho. Não vejo diferença entre dar uma pincelada, plantar uma semente, ou fazer uma receita com o peixe que a gente cria. É um lugar de segurança, pensar a família e a comunidade, viver, comer bem, plantar e trabalhar", fica ainda mais sereno ao dizer.
O plano futuro, faz charme ao contar, é mergulhar a fundo na Guerra do Paraguai e na participação do povo negro nesse evento histórico. A proposta é refletir, a partir dessa análise dos quilombos construídos por lá na época, em como as guerras contemporâneas também marginalizam corpos. “Quero falar sobre como nós, brasileiros, podemos contribuir para a discussão racial global", diz, com expressão séria. Logo depois abre o sorriso novamente, para alguém que elogia seu look: “Acredita que esse era o plano B?", confessa, entre gargalhadas, já que a ideia inicial, um macacão com bordados coloridos, não chegou pelos Correios a tempo. “Ficou preso em algum lugar", ri novamente. O capoeirista, o artista, o agregador. Ele reúne múltiplos sorrisos.
“Dupla Cura” conta com a Vale como Mantenedora Master e o patrocínio ouro da Vivo, por meio da Lei Rouanet.