Pedro Bial reflete sobre espectros políticos: "Nem tudo que a esquerda diz é besteira, nem tudo que a direita diz é absurdo"

Aos 68 anos, o apresentador diz que 'esquerda e direita não gostam de mim e estou achando ótimo'

4 mai 2026 - 12h02

Pedro Bial chega ao estúdio para as fotos que ilustram esta reportagem citando o escritor mineiro Otto Lara Resende. “Ultimamente, passaram-se muitos anos”, diz, com sua voz de locutor que é familiar nos lares de todos os brasileiros há 45 anos. Realmente, para ele, o tempo tem uma dimensão diferente.

Em 2025, publicou o livro “Isabel do Vôlei da Vida: a onda mais alta de Ipanema” (Editora Gente), sobre a jogadora de vôlei que foi sua contemporânea na juventude nos anos 1970, na Zona Sul carioca. Também dirigiu a série documental que conta os 100 anos de história do jornal O Globo e comandou o “Conversa com Bial”, programa diário de entrevistas profundas em que fala com nomes do peso de Gilberto Gil, Barack Obama, Fernanda Montenegro, Pepe Mujica, Marcelo Gleiser e Bono Vox.

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Essa é uma fração das atribuições, entre vários outros trabalhos, estudos, projetos e a criação das duas filhas mais novas, de 8 e 6 anos, com a jornalista Maria Prata. O “ultimamente” de Bial se expande e rende frutos, sempre. E é assim que ele contribui, em várias plataformas, para a documentação da história recente do Brasil.

A trajetória da família Bial se confunde com fatos relevantes do mundo mesmo antes que Pedro tivesse nascido. A mãe, Suzanne, chegou ao Brasil antes da Segunda Guerra. O pai, Pedro, judeu, também veio da Alemanha pouco depois e começou a trabalhar na produção do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), em São Paulo. Nos anos 1940, a família de Suzanne tinha uma livraria onde era possível encontrar títulos alemães, perto do Largo do Paissandu, no coração da capital paulista. Foi ali que Pedro, o pai, a conheceu. “Tem um trecho muito bonito do Sebastian Haffner, historiador alemão, que diz que a história passa na vida das pessoas, às vezes como uma nuvem que sombreia um lago e vai embora. Outras vezes, uma tempestade que faz com que o lago desapareça. Todas as pessoas que nasceram na Europa no século 20 tiveram sua vida virada pelo avesso como aquele lago. Eu acho bonita essa metáfora”, ele diz, ciente de que carrega também as marcas de ter sido gerado por dois refugiados.

Pedro Bial
Pedro Bial
Foto: Bob Wolfenson / Velvet

O casal viveu na cidade por anos, onde nasceram seus dois primeiros filhos, que são 11 e 6 anos mais velhos que Pedro. Depois, nos anos 1950, se mudaram para o Rio. Pedro Bial nasceu em 1958 no então Distrito Federal, a Guanabara. “Costumo dizer que todo mundo tem a utopia como algum lugar no futuro. Só que eu nasci na utopia, que foi aquela Ipanema de 1958, o ano em que foi gravada ‘Chega de Saudade’ e tudo estava acontecendo. As melhores cabeças do Brasil estavam lá — da arte, da cultura, da política, da ciência…”, afirma convicto.

Em suas quase sete décadas de vida, foi assistindo à transformação do país. Aquele Rio de Janeiro, para ele, era um projeto muito bonito, que acabou não acontecendo porque foi abortado pelo Golpe de 1964. “Mas tudo que morre deixa alguma coisa. Certos princípios e valores estão vivos. A gente não tem que ficar saudosista e, sim, reconhecer o que permaneceu, o que é ainda oportuno manter vivo e aceso. Eu tenho tremendo reconhecimento pela sorte de ter nascido naquele Rio”, diz.

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O contato com a arte veio muito cedo, quando passava as tardes assistindo a peças de teatro ao acompanhar o pai no trabalho. Não sabe contar quantas vezes viu “Alô, Dolly”, montagem com Bibi Ferreira e Paulo Fortes, no chão do teatro João Caetano. Sabe até hoje as músicas, em português, de cor. A rotina fez com que ele se apropriasse daquele universo e de suas referências de maneira muito natural. Na juventude, era um dos integrantes do grupo de teatro carioca Tablado, até que migrou para os esportes — um outro tipo de palco. Com 1,92m de altura, jogou basquete e, na adolescência, chegou a se profissionalizar.

Eu tinha uma curiosidade onívora por tudo. Não quero discriminar coisas que me interessam, do pop ao erudito. Já tive um certo esnobismo, mas a prática da reportagem, da correspondência, do conhecimento mais próximo da tragédia da condição humana, foi humilhando meu ego saudavelmente. Então, quando chega um programa que todo mundo fala que é lixo popularesco, eu consigo perceber alguma nobreza nisso.

Foi aluno do tradicional colégio Santo Inácio, em Botafogo, e tinha entre os colegas célebres de escola o cantor Cazuza. Hoje, explica o fato de ser agnóstico citando o professor Edson Nery da Fonseca: “a melhor maneira de perder a fé é a educação jesuíta”.

Ainda era estudante quando foi pela primeira vez assistir ao programa do Chacrinha no estúdio, ritual que repetiu algumas vezes. Lembra da plateia ruidosa, inflamada pelo apresentador no intervalo comercial para parecer mais empolgada quando o programa voltava ao ar. Usou essas memórias, inclusive, para escrever o roteiro de “Chacrinha: o Musical”, inspirado no apresentador e encenado em 2014.

Pedro Bial
Foto: Bob Wolfenson / Velvet

Para se manter ativo

Depois de anos dedicados ao basquete, admite que o joelho machucado o impede de entrar em uma quadra, mesmo recreativamente. “O esporte, a partir de um determinado nível, não tem nada de saudável. Eu não tenho ligamento cruzado anterior do joelho, nenhum menisco no joelho esquerdo e o tornozelo direito é machucado também. Se eu não estiver com musculatura em dia, tudo dói. Eu não consigo ficar sentado meia hora”, lamenta.

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O corpo também carrega outras marcas, como a perda auditiva após o estouro de uma bomba, quando cobriu a Guerra da Bósnia, em 1994. Para se manter ativo, entretanto, tem praticado Tai Chi com mestre Gil, um professor alagoano que trabalha na região central de São Paulo. Um dos desafios, segundo ele, é manter-se em uma postura batizada de “o vazio essencial”, na qual mantém o corpo inerte, levemente agachado, por longos (e doloridos) nove minutos. Ainda tem feito caminhadas e treinos funcionais e recusa veementemente ajuda para se levantar do chão durante a sessão de fotos. “Esse tipo de auxílio, ou você suplica, ou rejeita. É muito humilhante”, ele ri, se pondo em pé com a agilidade de um garoto.

Principalmente neste momento da minha vida, da minha carreira, eu vejo com grande alegria como o documentário virou um produto atraente. Então, fico muito feliz que é isso que eu faço, entre outras coisas.

Pedro Bial
Foto: Bob Wolfenson / Velvet

Em 2026, a Globo anunciou que o “Conversa” deixaria de ser diário, o que ele lamenta como uma oportunidade perdida de ir a fundo nas conversas na TV. Não acredita que o brainrot e a dificuldade do público de absorver conteúdos profundos sejam motivo para baixar a régua de qualidade dos diálogos e conteúdos.

“Claro que estamos disputando a atenção do espectador, mas eu acho que a solução não é empobrecer e, sim, enriquecer. O público precisa ser desafiado. Ritmo é essencial para manter algo atraente. O consumo de documentários, inclusive, vem subindo nos últimos anos”, diz enquanto abre o celular para mostrar um gráfico que prova seu argumento. “Desde o primeiro dia em que entrei no ar, nos anos 1980, escuto que existem regras. Diziam que não podia usar palavras de três sílabas ou fazer frases longas que o público não iria entender. Eu desafiei todas as regras. Mas claro que não posso ficar viajando em um barato de autoexpressão. Tenho que ter um compromisso com a comunicação”, fica sério para dizer.

E comunicação, como deixa claro pelos assuntos sobre os quais informa o público, é para todos. Entre os planos para 2026 está o mergulho na supervisão artística de um documentário sobre o gospel, ritmo musical que, diz Bial, é importante para entender os rumos do país. “Achava que veríamos as religiões se extinguirem do mundo, mas hoje elas só crescem em influência e expansão”, diz.

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Além disso, tem estudado o agro como fenômeno de massas brasileiro — e fica sisudo ao comentar o quanto a elite intelectual escolhe deliberadamente ignorar o fenômeno que é tão antigo quanto a história do país. “São questões mal compreendidas em que o Brasil não entende o Brasil. Há duas questões chave: uma é dos evangélicos e outra a do agro. O agro é um dos eventos mais importantes na história do planeta nos últimos 50 anos e o brasileiro não quer entender.”

Em vez de olhar pro agro e ter a atitude que desde sempre se teve no Brasil, que é chamar de caipira, precisamos olhar o fenômeno como moderno. A gente é que está meio caipira aqui. É um processo histórico antigo de associar modernização à urbanização.

Pedro Bial
Foto: Bob Wolfenson / Velvet

Bial também nunca teve restrições para entender o novo. No começo dos anos 2000, mergulhou no desafio de apresentar uma novidade na TV brasileira, o reality show Big Brother Brasil. “Não tenho mérito nenhum de ter estado ali na hora certa, no lugar certo — ou na hora errada, no lugar errado, porque tem muita gente que odeia até hoje essa história. Mas eu acho que tive o mérito de reconhecer o que estava acontecendo. Percebi que havia alguma coisa ali que ia mudar a história da televisão. Se é pro bem ou pro mal, não me interessa, não estou fazendo juízo de valor”, relembra.

Seu jeito de tratar os participantes e os icônicos discursos de eliminação, escritos a próprio punho, transformaram mesmo a história. O ritual que usava antes de entrar no palco lembra o aquecimento que viu, na juventude, no auditório de Chacrinha. Empolgado, borrifava lavanda nas pessoas e em tudo ao redor. “Quando você se sente bem no palco, vem um tipo de embriaguez, um transe muito gostoso. E precisa ter uns pontos de referência para não cair. A minha brincadeira com lavanda era isso porque aí eu dava uma carona para o público entrar quente”, conta.

A busca pela pausa

“Vocês estão decidindo minha vida sem mim?”, ele brinca com a equipe do figurino que analisa as opções distribuídas nas araras para as fotos. Todos em volta, chamados pelo nome e tratados com muita gentileza, se sentem íntimos. O encontro com Velvet aconteceu no dia em que Wagner Moura foi anunciado como um dos candidatos ao Oscar de melhor ator. Bial o parabeniza por Whatsapp, e recebe como resposta um elogio à resenha que havia escrito sobre o filme para o jornal O Globo, um dia antes.

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Pedro Bial
Foto: João Cotta/TV Globo / Velvet

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Nas fotos, ele está pronto para fazer o que lhe é pedido. Isso inclui sentar no chão, ficar em pé, gesticular. “Faço muito isso com as mãos”, ele afirma, quando o fotógrafo Bob Wolfenson pede que entrelace os dedos na nuca. “Em vão me tento explicar, mas os muros são surdos”, cita o poeta Carlos Drummond de Andrade, com as mãos em frente à face. Bial é um acumulado de referências que carrega. Mas é também o olhar atento no presente, apontado para o futuro.

O que busca atualmente, contudo, é inédito em sua vida: um equilíbrio maior entre o trabalho e o não trabalho. “É algo que eu estou em vias de conquistar. Trabalhar não era só a locomotiva, era o trem inteiro da minha vida. Sempre foi a prioridade absoluta. É bom, porque sinto muito prazer, sensação de realização, desafio e crescimento com o trabalho. Porém, comecei a perceber que também era o empobrecimento de outro tipo de realização pessoal. Era importante também não trabalhar para tornar a terra fértil, deixar as minhocas circularem na cabeça”, explica.

A pausa é produtiva, claro, e ele busca se ancorar na arte, nos livros, nos filmes, nas peças de teatro. “E nessa coisa extraordinariamente conservadora que é a família que criei”. Pedro se reconhece como um pai-avô, que aprende inclusive informações sobre o K-Pop com as caçulas — e afirma adorar o ritmo.

“Minha filha mais velha tem 38 anos (Ana, do casamento com a jornalista Renée Castelo Branco) e eu passei a maior parte do tempo de sua infância viajando. Desta vez, tenho a oportunidade de dar valor e de cultivar a paternidade de uma outra maneira”, confessa. Os outros dois filhos são Theo, de 28 anos, e José Pedro, de 23.

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Pedro Bial
Foto: Bob Wolfenson / Velvet

Características virtuosas

Bial afirma que o jornalismo acontece a partir da capacidade de se espantar. Mas em tempos tão cheios de notícias surpreendentes, não acaba ficando linear a quantidade de informações tidas como absurdas? “Eu acho que é muito fácil se espantar com coisas espantosas. O jornalista tem que ficar impressionado com coisas que parecem banais. E aí, outros podem parar e pensar que aquilo é realmente incrível”, define.

Ele pensa que o fato de vivermos hoje em dia na economia da atenção, entretanto, acaba fazendo com que o noticiário carregue nas tintas. “Nosso trabalho tem características virtuosas e tem algumas viciosas. A gente está viciado no contraste, que leva ao maniqueísmo, leva à divisão. Nada é totalmente preto ou totalmente branco, sabemos disso. Com essa história de fazer Tai Chi, eu tenho voltado a uma onda que foi minha de adolescente, de ler I ching, pensar no yin yang. É importante trocar contraste por um filtro inteligente para saber que nem tudo que a esquerda diz é besteira, nem tudo que a direita diz é absurdo. E aí você pode ter boas ideias dos dois lados. Mas é como eu consigo viver — e sou repelido pelos dois pólos. Esquerda e direita não gostam de mim e estou achando ótimo”, diz.

E o público, ama? “Isso eu não sei”, ele se reclina na cadeira com ar modesto. Parece que ama, sim, há muito tempo.

FIGURINO THIAGO FERRAZ / ASSISTENTE DE STYLIST HENRIQUE SCA / CAMAREIRA JO SILVA / MAKE JA MORAES / ASSISTENTE DE BEAUTY DANIELLE GOMES / TRATAMENTO DE IMAGEM ISABELLA PISANESKI

Fonte: Velvet Conteúdos da revista Velvet
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