Como John Lennon e Paul McCartney demitiam os primeiros músicos dos Beatles

Antes da fama mundial, a icônica dupla dava um gelo para se livrar de músicos indesejados

10 fev 2026 - 11h14

Antes do quarteto formado por Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr, os Beatles passaram por múltiplas formações, e as mudanças nem sempre foram harmoniosas. Durante os anos de formação, antes da explosão comercial que transformaria a banda de Liverpool em fenômeno global, a dupla responsável pela maior parte das composições da banda estabeleceu um padrão de comportamento que envolvia evitar confrontos diretos e deixar que outros lidassem com as consequências de suas decisões.

Beatles em 1966
Beatles em 1966
Foto: Chris Walter / Getty Images / Rolling Stone Brasil

O guitarrista e membro fundador Eric Griffiths integrava a composição original dos Quarrymen, grupo formado por Lennon em 1956 que seria o embrião dos Beatles. Quando George Harrison foi incorporado ao conjunto em 1958, o vocalista decidiu que queria trabalhar com uma configuração de três guitarristas, o que naturalmente significava que um dos músicos precisaria deixar o grupo. A escolha recaiu sobre Griffiths, porém nenhum dos líderes da banda demonstrou disposição para comunicar essa decisão diretamente ao guitarrista que havia participado da fundação do conjunto.

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A solução encontrada por Lennon e McCartney foi convocar um ensaio e deliberadamente omitir o convite a Griffiths, criando uma situação na qual o músico descobriria sua exclusão de forma indireta. Griffiths telefonou para a residência onde o ensaio estava acontecendo, buscando entender por que não havia sido avisado, e Lennon e McCartney se recusaram terminantemente a atender a ligação, empurrando para o então baterista da banda, Colin Hanton, a responsabilidade de explicar ao guitarrista que ele havia sido removido do grupo.

"Foi uma situação terrível", afirmou o baterista em depoimento registrado no livro The Beatles de Bob Spitz. "Eles me obrigaram a lidar com isso ali mesmo", completou Hanton. "John e Paul se recusaram a reconhecer a situação". O guitarrista Len Garry recebeu tratamento similar quando adoeceu com meningite tuberculosa, simplesmente deixando de receber qualquer tipo de comunicação dos membros da banda.

O caso mais documentado e controverso de demissão nos primeiros anos dos Beatles envolveu Pete Best, que ocupou a posição de baterista durante o período em que a banda tocava regularmente nos clubes de Liverpool e nos estabelecimentos noturnos de Hamburgo. Best permaneceu com o grupo durante toda a fase de desenvolvimento artístico e consolidação do som que eventualmente conquistaria audiências globais, mas foi removido da formação em agosto de 1962, logo antes da banda assinar um contrato com a gravadora EMI e iniciar a trajetória que os transformaria na banda mais popular da história da música. Ringo Starr foi escolhido para substituí-lo, e Best ficou permanentemente excluído da história de sucesso que se seguiria.

Nesta ocasião, Lennon, McCartney e Harrison optaram por delegar a tarefa de comunicar a demissão ao empresário Brian Epstein, evitando novamente o confronto direto com o músico que seria dispensado. "Ele disse: 'Tenho más notícias para você. Os rapazes querem você fora e o Ringo no lugar'", relembrou Best, em relato em The Beatles: A única biografia autorizada, escrita por Hunter Davies. "Foi uma bomba. Fiquei atônito. Não consegui dizer nada por dois minutos".

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O baterista ressaltou que a recusa de seus colegas de banda em falar com ele o magoou mais do que a própria demissão. "Não estou dizendo que mudaria o resultado, mas pelo menos me deem a decência de estar lá e [me deixarem] confrontá-los", disse ele ao jornal The Telegraph em 2018. Testemunhas relataram que quando Best encontrou os ex-companheiros de banda em uma apresentação poucas semanas após a demissão, os três integrantes remanescentes o ignoraram completamente, recusando-se a estabelecer qualquer tipo de contato ou reconhecimento.

Somente anos depois, quando os Beatles já haviam se separado e cada integrante seguia carreira solo, alguns integrantes do grupo manifestaram algum grau de arrependimento sobre como conduziram aquelas demissões. George Harrison intercedeu por Ringo quando ainda não tinham certeza de qual baterista escolher. "Para mim, era óbvio", ele explicou no documentário Anthology de 1995. "Pete vivia ficando doente e não aparecia nos shows, então chamávamos Ringo para tocar com a banda no lugar dele, e toda vez que Ringo tocava, parecia que 'era isso'. Eventualmente, percebemos: 'Deveríamos ter Ringo na banda em tempo integral'".

Entretanto, Harrison admitiu publicamente que a banda não havia sido particularmente hábil na demissão. "Não fomos muito bons em dizer ao Pete que ele tinha que sair", afirmou. "Historicamente, pode parecer que fizemos algo ruim com o Pete, mas talvez pudéssemos ter lidado com a situação de uma maneira melhor." John Lennon também comentou sobre o caso no documentário "Fomos covardes quando o demitimos", lamentou. "Fizemos o Brian fazer isso. Mas se tivéssemos dito na cara dele, teria provavelmente sido muito pior. Provavelmente teria terminado em briga."

Pete Best declarou em múltiplas ocasiões que jamais voltou a ter qualquer tipo de comunicação com os ex-companheiros de banda desde o dia em que foi informado de sua demissão, não mantendo contato com nenhum dos integrantes.

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