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Pretos e pardos pobres estão nas áreas mais alagadas do RS

Dados constam em mapas produzidos por pesquisadores com números do IBGE. “O genocídio é histórico”, diz líder quilombola

29 mai 2024 - 05h00
(atualizado às 16h42)
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Resumo
O Observatório das Metrópoles de Porto Alegre mostra que a população preta tem “concentração expressiva” nas áreas mais atingidas pela enchente na capital gaúcha e em cidades como Canoas, Novo Hamburgo e São Leopoldo. População preta e parda gaúcha aumentou entre 2010 e 2022, segundo Censo do IBGE.
Carlos Henrique Garcia, 48 anos, teve a pensão onde morava, no bairro Menino Deus, alagada e perdeu todos seus pertences
Carlos Henrique Garcia, 48 anos, teve a pensão onde morava, no bairro Menino Deus, alagada e perdeu todos seus pertences
Foto: Rafa Neddermeyer/AB

Mapa produzido pelo Observatório das Metrópoles de Porto Alegre mostra que a população preta tem “concentração expressiva” nas áreas mais atingidas pela enchente na capital gaúcha e Região Metropolitana.

Em Porto Alegre, nos bairros Humaitá, Sarandi e Rubem Berta, onde a população tem feito manifestações cobrando o poder público, pretas e pretos perderam tudo. No Humaitá, a construção da Arena do Grêmio não incluiu obras complementares de infraestrutura, que mitigariam enchentes, prometidas e nunca realizadas.

“Existe uma narrativa de que apresentar estes dados é dividir a população. Mas não somos nós que dividimos, a sociedade é que previamente relegou populações negras e pobres a áreas suscetíveis a inundações”, diz Paulo Roberto Rodrigues Soares.

Vila Farrapos, no Humaitá, zona norte de Porto Alegre, tem protestos de pobres, pretos e pardos alagados desde 3 de maio
Vila Farrapos, no Humaitá, zona norte de Porto Alegre, tem protestos de pobres, pretos e pardos alagados desde 3 de maio
Foto: Rafa Neddermeyer/AB

Soares é um dos responsáveis pelo mapa. Professor titular do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele diz que a presença da população negra nas áreas alagadas tem relação com a saída de gente pobre do centro de Porto Alegre.

“Porto Alegre é uma das cidades mais segregadas do Brasil. A falta de acesso e de estrutura em espaços onde há um grande contingente de pessoas negras faz com que sejam as mais afetadas neste momento”, diz a jornalista Naíla Cazuza, diretora da Associação Satélite Prontidão, clube negro centenário.

Segundo o Censo do IBGE, a população preta e parda de Porto Alegre subiu de 20,2% para 26% entre 2010 e 2022 (o período e a fonte são os mesmos para os próximos dados populacionais da reportagem).

Pretos e pardos aumentam no RS

Na cidade de Canoas, o bairro Mathias Velho, que mais sofreu com a enchente, especialmente no extremo oeste, tem expressiva população negra – ela subiu de 14,3% para 21,2% no município.

“A enchente provou que o racismo ambiental existe, é real. A população preta está em áreas de alagamento, é a que mais vai demorar para reconstruir o pouco que tinha. Abre mais o abismo social do Rio Grande do Sul”, diz Jaqueline Pereira, artista e ativista do hip hop.

Como as águas não diminuem, pessoas continuam resgatando animais no bairro Mathias Velho, em Canoas
Como as águas não diminuem, pessoas continuam resgatando animais no bairro Mathias Velho, em Canoas
Foto: Rafa Neddermeyer/AB

Em Guaíba, o bairro Santa Rita concentra grande proporção de pretas e pretos, que cresceram de 16,8% para 22,5% na população do município.

“Esse processo aconteceu no planejamento da cidade, nos anos 60 e 70, com uma ideia de cidade mais elitizada. Promoveu remoções e a migração para a região metropolitana, tornando a moradia mais cara, os regulamentos urbanísticos mais rígidos para fazer loteamentos populares”, explica o pesquisador Soares.

Maioria da população negra atingida

Há pelo menos dois municípios gaúchos em que os bairros atingidos pela enchente têm maioria de população preta e parda, como o Santo Afonso, em Novo Hamburgo. Na cidade, afrodescendentes foram de 9,3% para 15,2%.

Em São Leopoldo, onde a população preta cresceu de 13,7% para 21,2%, o bairro Santos Dumond ficou alagado.

Áreas onde moram pretos e pardos estão entre mais afetadas em São Leopoldo. Vão demorar mais para se recuperar
Áreas onde moram pretos e pardos estão entre mais afetadas em São Leopoldo. Vão demorar mais para se recuperar
Foto: Prefeitura de São Leopoldo

Para o pesquisador do Observatório das Metrópoles, o debate sobre cidades provisórias, “tal qual campos de refugiados”, foi colocado porque o poder público não pretende resolver o problema utilizando o parque imobiliário ocioso. “Vão buscar uma solução provisória”.

Ativista negra destaca três situações

Ana Cristina Medeiros de Lima, presidente do Centro de Educação Ambiental (CEEA Bom Jesus), ficou incomodada com o desconhecimento do presidente Lula quanto aos pretos e pretas nos abrigos.

A ativista lembra que os programas televisivos Profissão Repórter e Altas Horas não mostraram pessoas negras. “Reforçaram a invisibilidade. Isso é grave, é urgente ser chamado a atenção. Estamos no estado mais racista do Brasil”, diz Cris Medeiros.

O líder quilombola Jamaica, de Porto Alegre, diz que o genocídio do povo negro tem 524 anos no Brasil
O líder quilombola Jamaica, de Porto Alegre, diz que o genocídio do povo negro tem 524 anos no Brasil
Foto: Arquivo pessoal

Segundo Luís Rogério Machado, o Jamaica, liderança do Quilombo dos Machado e da Frente Quilombola do Rio Grande do Sul, “o genocídio do povo preto é histórico, desde o sequestro na África”.

Ele lista locais onde o povo preto teve perdas materiais e de vidas, coincidindo com os mapas do Observatório das Metrópoles: Canoas, “a maioria do pessoal que morreu”; região do Sarandi, nos bairros Asa Branca, Vila Elizabeth, Brasília e União.

“São quinhentos e vinte e quatro anos de genocídio. Na enchente, não poderia ser diferente”, diz Jamaica.

Fonte: Visão do Corre
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