Árvore atravessa teto de oratório de 120 anos, abandonado na primeira favela do RJ
Vizinhos cuidam como podem da igrejinha na região da Saúde, um bem tombado que foi referência e a cidade esqueceu
O Oratório da Providência reinou como o mais importante símbolo religioso protetor do Rio de Janeiro até a inauguração do Cristo Redentor. Construído para saudar a entrada do século 20, o Oratório foi instalado no Morro da Providência, onde surgiu a primeira favela da cidade, formada por soldados que retornaram da Guerra de Canudos.
O símbolo mais evidente do abandono do Oratório da Providência é uma árvore que nasceu, cresceu e atravessou o teto da igrejinha inaugurada em 1901 onde, poucos anos antes, soldados retornados da Guerra de Canudos começaram a primeira favela do Rio de Janeiro, no Morro da Providência.
“Não é uma questão de pintura, é uma questão de estrutura”, reclama a professora Carolina Pacheco dos Santos, 46 anos, vizinha de uma vida do Oratório da Providência e da Igreja Nossa Senhora da Penha, também deteriorada. “Havia orações, o dia do terço, os encontros, mas foi se acabando com o tempo.”
O Oratório da Providência – também conhecido como Capela das Almas – foi o principal símbolo sagrado protetor do Rio de Janeiro até a inauguração do Cristo Redentor. Tombado pela prefeitura em 1986, o Oratório tem vista para a Baía de Guanabara, e era avistado de longe por moradores e embarcações.
A história de dona Francisca, guardiã do Oratório da Providência
“Eu não posso nem varrer o oratório, com medo de estar lá dentro. E se, Deus o livre, cair um bocado daquele troço, o que eu vou fazer? Não dá”, diz Francisca da Silva Almeida, 82 anos, a dona Chiquinha, que tem a chave do Oratório e cuida dele há meio século.
Ela chegou à Providência no início dos anos 1970, com três filhos. “Descemos na rodoviária, subimos pra aqui e estamos até hoje, até quando Deus quiser”. Dona Chiquinha recebeu as chaves de dona Marlene, vizinha que cuidava do Oratório e passou a responsa adiante.
Dona Chiquinha fala do sumiço da cruz de metal, lamenta a substituição por madeira, que deteriorou rápido, mas o que dói mesmo é a árvore, que a impede de entrar. “Essa árvore foi cortada uma vez, mas cresceu. Nesse perigo, ninguém faz mais nada. Eu tenho medo até de ficar sentada do lado de fora.”
Sumiram a cruz de ferro e, talvez, o crucifixo de Antônio Conselheiro
O fotógrafo Maurício Hora, 56 anos, reconhecido ativista do Morro da Providência, sente a perda do cruzeiro de ferro, de valor inestimável, retirado “dali de onde estão saindo os galhos da árvore. Não faço ideia de quando sumiu, nem como”.
Outro perda sentida é a do crucifixo que teria sido de Antônio Conselheiro, líder do arraial de Canudos. “Não sei se realmente existiu esse crucifixo, mas pode ter existido, a favela foi formada por soldados que voltaram da Guerra de Canudos”, lembra Hora.
Segundo ele, o Oratório só não foi completamente destruído porque “o pessoal respeitava e ainda respeita muito a dona Chiquinha, uma guardiã”. Ele eternizou sua gratidão à moradora: quando lhe pediram uma foto que lembrasse Canudos, posicionou dona Chiquinha em frente ao Oratório da Providência e registrou a imagem.
Oratório da Providência pode ser restaurado
As questões sobre o Oratório da Providência devem ser encaminhadas à secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento. Ela informa que a igrejinha é de responsabilidade da Mitra Arquiepiscopal, “que foi notificada para as devidas providências acerca do estado de conservação do imóvel”.
Daisy Ketzer, especialista em gestão de bens culturais da Mitra, informa que o Oratório pode ser restaurado em outubro do ano que vem. O deputado federal Reimont Santa Bárbara (PT) deverá destinar R$ 200 mil de emenda parlamentar. Se o termo de colaboração for assinado neste semestre, os recursos chegam em 2026.
Existe um memorial descritivo – documento preliminar – de restauração do Oratório da Providência, produzido pela AQ Engenharia. Prevê pintura, recolocação de esquadrias, impermeabilização da laje e, entre outras intervenções, “retirada cuidadosa de vegetação invasora existente”.