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Árvore atravessa teto de oratório de 120 anos, abandonado na primeira favela do RJ

Vizinhos cuidam como podem da igrejinha na região da Saúde, um bem tombado que foi referência e a cidade esqueceu

30 ago 2025 - 05h53
(atualizado às 06h04)
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Resumo
O Oratório da Providência reinou como o mais importante símbolo religioso protetor do Rio de Janeiro até a inauguração do Cristo Redentor. Construído para saudar a entrada do século 20, o Oratório foi instalado no Morro da Providência, onde surgiu a primeira favela da cidade, formada por soldados que retornaram da Guerra de Canudos.
A árvore com raízes saindo pelo teto do Oratório da Providência, no Rio de Janeiro, vai complicar uma futura restauração.
A árvore com raízes saindo pelo teto do Oratório da Providência, no Rio de Janeiro, vai complicar uma futura restauração.
Foto: Mitra/RJ

O símbolo mais evidente do abandono do Oratório da Providência é uma árvore que nasceu, cresceu e atravessou o teto da igrejinha inaugurada em 1901 onde, poucos anos antes, soldados retornados da Guerra de Canudos começaram a primeira favela do Rio de Janeiro, no Morro da Providência.

“Não é uma questão de pintura, é uma questão de estrutura”, reclama a professora Carolina Pacheco dos Santos, 46 anos, vizinha de uma vida do Oratório da Providência e da Igreja Nossa Senhora da Penha, também deteriorada. “Havia orações, o dia do terço, os encontros, mas foi se acabando com o tempo.”

O Oratório da Providência – também conhecido como Capela das Almas – foi o principal símbolo sagrado protetor do Rio de Janeiro até a inauguração do Cristo Redentor. Tombado pela prefeitura em 1986, o Oratório tem vista para a Baía de Guanabara, e era avistado de longe por moradores e embarcações.

Como o Oratório vive fechado, quem vê de fora não imagina como as raízes, troncos e galhos da árvores subiram pelas paredes.
Como o Oratório vive fechado, quem vê de fora não imagina como as raízes, troncos e galhos da árvores subiram pelas paredes.
Foto: Mitra/RJ

A história de dona Francisca, guardiã do Oratório da Providência

“Eu não posso nem varrer o oratório, com medo de estar lá dentro. E se, Deus o livre, cair um bocado daquele troço, o que eu vou fazer? Não dá”, diz Francisca da Silva Almeida, 82 anos, a dona Chiquinha, que tem a chave do Oratório e cuida dele há meio século.

Ela chegou à Providência no início dos anos 1970, com três filhos. “Descemos na rodoviária, subimos pra aqui e estamos até hoje, até quando Deus quiser”. Dona Chiquinha recebeu as chaves de dona Marlene, vizinha que cuidava do Oratório e passou a responsa adiante.

Dona Chiquinha fala do sumiço da cruz de metal, lamenta a substituição por madeira, que deteriorou rápido, mas o que dói mesmo é a árvore, que a impede de entrar. “Essa árvore foi cortada uma vez, mas cresceu. Nesse perigo, ninguém faz mais nada. Eu tenho medo até de ficar sentada do lado de fora.”

Oratório do Morro da Providência quando tinha a cruz no topo e era considerado protetor do Rio de Janeiro.
Oratório do Morro da Providência quando tinha a cruz no topo e era considerado protetor do Rio de Janeiro.
Foto: Reprodução

Sumiram a cruz de ferro e, talvez, o crucifixo de Antônio Conselheiro

O fotógrafo Maurício Hora, 56 anos, reconhecido ativista do Morro da Providência, sente a perda do cruzeiro de ferro, de valor inestimável, retirado “dali de onde estão saindo os galhos da árvore. Não faço ideia de quando sumiu, nem como”.

Outro perda sentida é a do crucifixo que teria sido de Antônio Conselheiro, líder do arraial de Canudos. “Não sei se realmente existiu esse crucifixo, mas pode ter existido, a favela foi formada por soldados que voltaram da Guerra de Canudos”, lembra Hora.

Segundo ele, o Oratório só não foi completamente destruído porque “o pessoal respeitava e ainda respeita muito a dona Chiquinha, uma guardiã”. Ele eternizou sua gratidão à moradora: quando lhe pediram uma foto que lembrasse Canudos, posicionou dona Chiquinha em frente ao Oratório da Providência e registrou a imagem.

Pediram a Maurício Hora para fotografar algo que lembrasse Canudos. Ele fotografou a guardiã do Oratório, dona Francisca.
Pediram a Maurício Hora para fotografar algo que lembrasse Canudos. Ele fotografou a guardiã do Oratório, dona Francisca.
Foto: Maurício Hora

Oratório da Providência pode ser restaurado

As questões sobre o Oratório da Providência devem ser encaminhadas à secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento. Ela informa que a igrejinha é de responsabilidade da Mitra Arquiepiscopal, “que foi notificada para as devidas providências acerca do estado de conservação do imóvel”.

Daisy Ketzer, especialista em gestão de bens culturais da Mitra, informa que o Oratório pode ser restaurado em outubro do ano que vem. O deputado federal Reimont Santa Bárbara (PT) deverá destinar R$ 200 mil de emenda parlamentar. Se o termo de colaboração for assinado neste semestre, os recursos chegam em 2026.       

Existe um memorial descritivo – documento preliminar – de restauração do Oratório da Providência, produzido pela AQ Engenharia. Prevê pintura, recolocação de esquadrias, impermeabilização da laje e, entre outras intervenções, “retirada cuidadosa de vegetação invasora existente”.

Fonte: Visão do Corre
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