Você adia a hora de dormir para ter um tempo só seu? Entenda os riscos da 'vingança do sono'
Segundo especialistas, o hábito de trocar o descanso por momentos de lazer pode prejudicar seriamente o corpo e a mente
Depois de um dia cheio de trabalho, estudos e compromissos, muita gente decide abrir mão de algumas horas de sono para finalmente fazer algo que gosta. Assistir a uma série, navegar nas redes sociais ou simplesmente relaxar parecem formas de recuperar o tempo perdido. Esse comportamento, porém, tem nome: 'vingança do sono', um hábito que vem preocupando especialistas por seus impactos na saúde física e mental.
O termo descreve a decisão de adiar o momento de dormir para conquistar uma sensação de liberdade depois de um dia marcado por obrigações. Embora pareça inofensivo, o costume pode comprometer a qualidade do descanso e aumentar o risco de diversos problemas de saúde ao longo do tempo.
A expressão surgiu para descrever a rotina de jovens chineses submetidos a jornadas de trabalho muito longas e ganhou repercussão mundial após um texto publicado pela jornalista Daphne K. Lee viralizar nas redes sociais. Hoje, especialistas observam que o fenômeno se repete em diferentes países, principalmente entre adultos jovens, de 20 a 30 anos.
Por dentro da vingança do sono
Segundo a pneumologista Erika Treptow, pesquisadora do Instituto do Sono, esse comportamento difere da procrastinação tradicional. Em entrevista ao jornal 'O Globo', a médica explicou que quem adia o horário de dormir reconhece a importância do descanso, mas escolhe prolongar a noite para aproveitar um momento de descontração. "A noite acaba sendo o momento em que a pessoa se torna dona do próprio tempo", afirmou.
A especialista apontou ainda o porquê de o hábito ser mais frequente na juventude. "O jovem enfrenta dilemas como a dupla jornada de estudo e trabalho. O autocontrole às vezes continua em formação e ele quer muito ser compensado pelo seu esforço. Além disso, existe um fator fisiológico: nessa fase, a tendência natural é dormir e acordar mais tarde", explicou.
Somado a isso, moradores de grandes centros urbanos tendem a encarar rotinas exaustivas, trânsito intenso e escassez de tempo livre durante o dia, o que favorece ainda mais o adiamento do repouso.
Riscos da prática
Embora ofereça uma sensação temporária de recompensa, a chamada vingança do sono cobra um preço elevado. Um estudo da Sociedade de Pesquisa do Sono de Oxford mostrou que pessoas que apresentam altos níveis de procrastinação na hora de dormir costumam registrar mais sintomas de ansiedade e depressão, além de maior risco de insônia e pior qualidade do sono. A privação frequente de descanso também pode provocar:
- Dificuldade de concentração;
- Perda de memória;
- Queda na produtividade;
- Maior risco de obesidade;
- Aumento das chances de desenvolver doenças cardiovasculares.
Outro ponto importante é que o organismo não consegue recuperar totalmente as horas perdidas durante a semana apenas dormindo mais no fim de semana. O consenso científico, portanto, continua o mesmo: adultos precisam, em geral, de sete a nove horas de sono por noite para que o organismo realize adequadamente seus processos de recuperação física e mental.
"Estudos mostram que quem dorme a quantidade de horas diária adequada é mais produtivo, criativo, tem mais capacidade de convivência", destacou Treptow.
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