Mochilão de 40 mil km percorre o Paraguai de sotaque europeu
Por quase oito meses, a viagem passou por 84 cidades de 9 países do continente [...]
Este conteúdo faz parte da série América do Sol, outras imagens da América do Sul, um registro clicado e escrito de um mochilão, entre a Patagônia e a Amazônia brasileira, em busca do destinos sul-americanos menos conhecidos do público brasileiro, como o vizinho Paraguai.
Por quase oito meses, André Lima e o jornalista Eduardo Vessoni estiveram em 84 cidades de 9 países do continente, em uma travessia terrestre (e por onde mais fosse possível) de mais de 40 mil km de extensão.
No site do Viagem em Pauta, você acompanha também todos os capítulos dessa viagem.
Paraguai
Quando Christian e Silvia deixaram Bonn, no início da década de 80, a Alemanha vivia sob um duro regime comunista e a trilha sonora naquele país era embalada por músicas de protesto.
Esses irmãos, que nem cogitavam a queda do muro mais simbólico da Europa, queriam uma vida alternativa e acabaram encontrando na América do Sul o lugar ideal para rescrever suas histórias.
Mais do que colocar mochilas pesadas nas costas e sair em busca de paisagens isoladas com desertos e geleiras como cartões postais, esses jovens desembarcaram no Paraguai, onde compraram uma pequena chácara para a produção de alimentos para consumo próprio.
E foi nessas condições que encontraram Bella Vista, um povoado a 400 km ao sul da capital paraguaia que, com Hohenau e Obligado, forma uma sequência de vilas alemãs, em um dos trechos mais europeus do Paraguai.
No lugar de lojas lotadas de sacoleiros do Brasil, construções de madeira em estilo europeu, próximas às ruínas do período colonial. Aquele país de origem indígena dividiria lugar com outros tons e sotaques, trazidos de outro lado do planeta.
Porém, o encontro de hábitos do Velho Continente não é recente.
Desde o século XVII, quando a América mal tinha sido inventada pelos colonizadores, a região já presenciava o erguimento das Reduções Jesuíticas, polêmico ponto de partida para a conversão e alfabetização de índios locais.
A poucos quilômetros dessas cidades de sotaque europeu, cuja primeira leva de imigrantes alemães fundou Hohenau, no fim do século XIX, ainda repousam os restos do que foram as mais famosas reduções guaraníticas administradas pelos missioneiros da Companhia de Jesus, presentes na região entre 1609 e 1768.
Das sete construções que ainda estão de pé no Paraguai, duas são consideradas Patrimônio Universal da Humanidade: a de Jesús de Tavarangüe, de 1685, considerada uma das expressões mais completas do urbanismo jesuítico; e a de Santísima Trinidad, construída em 1705.
E foi nessa geografia plana, de vozes incompreensíveis, que desembarcamos nossas malas, ainda lotadas de incertezas, e registramos imagens que ultrapassam o limite de pontes fronteiriças e sacolas lotadas de mercadorias de origem duvidosa.
Rota jesuítica
O Paraguai é daqueles destinos turísticos que podem frustrar. Sobretudo, aqueles que ainda acreditam nas velhas e equivocadas imagens de que o país se resume a turismo de compras de produtos falsificados.
A duas horas de avião de São Paulo, Assunção é a porta de entrada para uma viagem de volta ao tempo, em cidades como Bella Vista, Hohenau e Obligado.
Emoldurada por ruínas do período colonial, a Rota Jesuítica é um circuito histórico que recria a passagem da Companhia de Jesus, a famosa ordem religiosa dos jesuítas, por povoados em meio às selvas sul-americanas.
Misión Jesuítica Jesús de Tavarangue
Embora seja considerada uma das mais completas do urbanismo jesuítico, com mais de três mil indígenas, Tavarangüe é uma missão que não foi terminada, daí o nome em guarani 'povoado não concluído', devido à expulsão dos jesuítas pelos espanhóis, em 1767, que começaram a achar que aquele Estado dentro de outro Estado estava se tornando, excessivamente, independente.
Abandonada na época, a região guarda hoje construções bem conservadas, como a antiga e imponente igreja espanhola com detalhes árabes, influência do período de invasão dos muçulmanos na Península Ibérica, restos do colégio jesuítico que "ensinava" a cultura européia aos locais e a Plaza Mayor, símbolo da organização urbanística espanhola presente em todas as cidades colonizadas pela Espanha.
Santísima Trinidad del Paraná
É considerada a mais importante dos 30 povoados de todas as reduções da região, incluindo as do Brasil, e abriga a imponente praça principal, uma igreja, o colégio jesuítico e restos dos pavilhões que serviam como residências das famílias de índios das hierarquias mais elevadas.
Fundada em 1706, essa missão se destaca pelos frisos de anjos, na Iglesia Mayor, desenhada pelo arquiteto Juan Bautista Prímoli, e pela torre que fica a uma certa distância da Iglesia Menor.
O atrativo abriga também um museu, em uma das salas que serviram de sacristia durante os trabalhos jesuíticos, cujo acervo preserva as peças que sobraram dos diversos saques que o local sofreu enquanto esteve abandonado.
SAIBA MAIS
Ruínas de Jesús de Tavarangüe
Ruta 6, em direção a Ciudad del Este, km 30 (Departamento de Itapúa, aproximadamente, a 40 km de Encarnación, na fronteira com a Argentina).
Diariamente, das 7:00 às 18:00.
As imperdíveis visitas noturnas com projeção de video mapping 3D acontecem de quarta a domingo, às 20:00 (verão) e às 18:00 (inverno).
Ruínas de Santísima Trinidaddel Paraná
Ruta 6, em direção a Ciudad del Este, km 28.
Diariamente, das 7:00 às 19:30 (verão) e das 7:00 às 18:30 (inverno). Já as visitas noturnas com show de luz e música acontece de quarta a domingo, às 21h (verão) e às 19:00 (inverno).
* informações cedidas pelo site oficial de turismo no Paraguai