Rivalidade entre EUA e China trava construção de radiotelescópio na Argentina
Pressão dos Estados Unidos está por trás da decisão do governo argentino de interromper construção de um radiotelescópio apoiado pela China, deixando cientistas frustrados.Na província argentina de San Juan, uma enorme estrutura metálica permanece imóvel perante o céu estrelado. Trata-se do Radiotelescópio China-Argentina (CART), uma estrutura de 40 metros de diâmetro que foi concebida para se tornar o maior radiotelescópio do seu tipo na América do Sul.
O projeto na região de El Leoncito, porém, está paralisado, e parte dos seus componentes ainda está retida na alfândega de Buenos Aires. E a construção ainda é um esqueleto incompleto.
Segundo reportou recentemente o jornal The New York Times, na base da estrutura não concluída ainda restam palitinhos, latas de molho de ostras e uma placa em mandarim com instruções sobre como agir em caso de encontro com um puma. Tudo foi deixado para trás pelos operários chineses da obra.
Só que o maior perigo para a realização do projeto não estava nas montanhas de San Juan. A paralisação do CART coincidiu com o aumento das tensões políticas e econômicas entre Washington e Pequim.
Um telescópio paralisado
À medida que a rivalidade entre as duas nações se intensifica, vários projetos científicos impulsionados pela China na América Latina começaram a enfrentar crescentes obstáculos políticos e diplomáticos.
Na Argentina e no Chile, diferentes iniciativas astronômicas ligadas a Pequim passaram por revisões, atrasos e questionamentos relacionados às possíveis implicações estratégicas.
Segundo o New York Times, o CART começou a tomar forma há cerca de 15 anos como um investimento de 32 milhões de dólares, resultado de uma colaboração entre a Universidade Nacional de San Juan e o Observatório Astronômico Nacional da China.
Em 2023, começaram a chegar ao observatório as peças metálicas do telescópio, transportadas da China até as instalações astronômicas.
O local foi escolhido pelas boas condições naturais para observação: céus limpos, e sem luz artificial, baixa umidade e mínima interferência eletromagnética. Além disso, sua posição no hemisfério sul permitia observar regiões do céu invisíveis da China.
O coordenador do projeto na Universidade Nacional de San Juan, Marcelo Segura, afirmou no fim de 2025 ao South China Morning Post que o telescópio estava entre 50% e 60% concluído e com cerca de 80% da montagem já realizada quando o projeto foi interrompido.
Outros responsáveis afirmam que o avanço era ainda maior. "Estamos com 90% da obra concluída. Muito perto. Por isso o que está acontecendo é tão difícil, porque não queremos que vire sucata", declarou a engenheira María Verónica Benavente, da universidade, à revista Science.
Segundo Segura, desde 3 de setembro de 2024, as peças restantes do CART, incluindo receptores essenciais, estão retidas no porto de Buenos Aires.
"Não recebemos nenhuma comunicação oficial. Existe um alinhamento do governo nacional com os Estados Unidos, que supostamente se opõe à proliferação desse tipo de projeto envolvendo instalações chinesas no nosso país", disse Segura.
A astrônoma Ana María Pacheco resumiu a situação ao New York Times com uma metáfora: "Estamos presos num buraco negro político".
A lacuna astronômica do hemisfério sul
Do ponto de vista científico, o CART pretendia preencher uma limitação conhecida: a maior parte das infraestruturas de radioastronomia ainda se concentra no hemisfério norte.
O novo telescópio permitiria estudar a formação de estrelas, mapear galáxias distantes e rastrear pulsares, além de colaborar com mais de cem radiotelescópios ao redor do mundo.
Segundo o South China Morning Post, ele também operaria em conjunto com o telescópio FAST, na China, complementando observações feitas no hemisfério norte.
"San Juan tem um dos céus mais limpos do mundo", afirmou o diretor do observatório, Ricardo Podestá, à Science. "É possível ver o núcleo galáctico no alto do céu."
A pressão de Washington
Mas, se cientistas destacam o valor astronômico do CART, o que conta em Washington são as preocupações sobre a expansão tecnológica da China na América Latina. Segundo o New York Times, as objeções surgiram durante o governo do presidente Joe Biden e continuaram no mandato do presidente Donald Trump.
Em agosto de 2021, o então assessor de segurança nacional, Jake Sullivan, o principal assessor da Casa Branca para a América Latina, Juan González, transmitiram ao governo do então presidente, Alberto Fernández, sua preocupação com vários projetos vinculados à China: além do radiotelescópio, um porto em Ushuaia e a base de controle de satélites construída em 2015 em Neuquén, cuja antena de 450 toneladas se tornou um dos símbolos mais visíveis da presença chinesa na região.
A pressão continuou nos anos seguintes. Em fevereiro de 2025, o secretário de Estado Marco Rubio discutiu a "colaboração espacial" com o então chanceler argentino, Gerardo Werthein. Meses depois, especialistas do laboratório Sandia viajaram a Buenos Aires para alertar sobre possíveis riscos associados ao CART, enquanto, segundo o New York Times, Washington tentava impor uma cláusula que exigia garantir o "uso exclusivamente civil" de instalações espaciais operadas por outros países.
Em outubro de 2025, segundo informou a revista Science, o governo do presidente Javier Milei estabeleceu ainda que o Ministério da Defesa deveria aprovar "qualquer instalação de radares, observatórios ou sistemas aeroespaciais", uma medida que vários cientistas ligados ao projeto interpretaram como direcionada especificamente ao CART.
Um mês depois, pesquisadores da Universidade Nacional de San Juan foram enviados ao laboratório Sandia para participar de um treinamento sobre as "preocupações relativas ao uso dual em instalações de pesquisa espacial civis".
Uso militar seria limitado
Segura, que havia estudado chinês para poder discutir o funcionamento do telescópio com seus colegas chineses, tentou convencer autoridades dos Estados Unidos de que o telescópio seria utilizado apenas para fins civis. "Não funcionou", disse.
Essa posição é compartilhada por vários cientistas argentinos, que consideram que não existem evidências técnicas claras que sustentem essas suspeitas. O astrônomo Erick González, da Universidade Nacional de San Juan, explicou à DW que o radiotelescópio foi projetado para acompanhar o movimento aparente das estrelas, uma velocidade aproximadamente cem vezes menor do que a necessária para rastrear satélites.
"Seu uso militar seria muito limitado", afirmou González. "Além disso, o uso militar de um radiotelescópio depende principalmente de ele possuir um transmissor para funcionar como radar. Este radiotelescópio não tem transmissor", acrescentou.
O astrônomo também destacou que as montanhas que cercam a instalação bloqueiam em grande medida qualquer visão da superfície terrestre, reduzindo ainda mais a possibilidade de uso estratégico ou de vigilância.
Outros pesquisadores consideram que as novas exigências do governo argentino são redundantes, já que o projeto já havia sido aprovado pelo Ministério da Defesa em 2016. "Não sei o que mais este governo quer", declarou o decano de Ciências da Universidade Nacional de San Juan, Jorge Castro, à Science.
Tensões políticas no deserto do Atacama
Uma situação semelhante ocorreu no deserto do Atacama, no Chile. Ali, um projeto astronômico impulsionado pela China e avaliado em cerca de 80 milhões de dólares, segundo o South China Morning Post, previa a instalação de cerca de uma centena de telescópios no Cerro Ventarrones, na região de Antofagasta, em colaboração com a Universidade Católica do Norte e o Observatório Astronômico Nacional da China.
Segundo o New York Times, cientistas chilenos teriam acesso limitado às instalações, com autorização para utilizá-las duas noites por mês. A embaixadora dos Estados Unidos no Chile durante o governo Biden, Bernadette Meehan, reconheceu ter discutido o assunto diretamente com autoridades chilenas. "Para o governo dos EUA era muito importante que o projeto não fosse autorizado", declarou, descrevendo-o como uma de suas prioridades mais urgentes.
Parte das preocupações em torno do observatório poderia estar relacionada à sua inclusão no Projeto Sitian, segundo a revista Newsweek . Trata-se de uma iniciativa científica estatal chinesa destinada a "escanear completamente" os céus de ambos os hemisférios a cada meia hora para "atender às necessidades estratégicas nacionais".
Em abril de 2025, o Ministério do Exterior do Chile declarou à Newsweek que a legislação do país não permitia que uma entidade privada, como a Universidade Católica do Norte, firmasse acordos internacionais desse tipo.
A embaixada chinesa em Santiago respondeu acusando os Estados Unidos de uma "pura e dura manifestação de hegemonismo e uma nova Doutrina Monroe". Também afirmou que Washington opera seus próprios telescópios no Chile e classificou a pressão americana como uma "escalada de interferência".
Difícil equilíbrio entre Washington e Pequim
Enquanto o projeto do radiotelescópio chinês continua paralisado na Argentina, em meio a crescentes questionamentos diplomáticos por parte de Washington, sob o pano de fundo da estreita relação entre Trump e Milei, os vínculos comerciais da Argentina com Pequim continuam crescendo.
Segundo reportado anteriormente pela DW, as exportações chinesas para a Argentina aumentaram 66% no último ano, apesar de Milei ter chegado ao poder em 2023 com uma retórica abertamente hostil à China. Marcas de veículos elétricos, como BYD, avançam rapidamente no mercado argentino graças a tarifas zero promovidas pelo governo.
José Octavio Bordón, ex-presidente do Conselho Argentino de Relações Internacionais e ex-embaixador nos Estados Unidos, afirmou à DW que a relação de Milei com Trump pode oferecer oportunidades diplomáticas para a Argentina, mas advertiu sobre a necessidade de manter uma política externa alinhada aos interesses nacionais.
"Se o presidente se sente confortável com Donald Trump e com o governo dos Estados Unidos, está no seu direito. Mas deve aproveitar essa relação para desenvolver a melhor política externa possível, em linha com os interesses da Argentina, e não para se subordinar aos jogos de uma grande potência", afirmou.
Por sua vez, o pesquisador Andrés Bórquez, que estuda os impactos da China na América Latina, explicou ao South China Morning Post que países como o Chile tentaram durante anos manter uma "ambiguidade estratégica", equilibrando seus laços econômicos com a China e sua cooperação em segurança com os Estados Unidos. "Mas, à medida que ambas as potências se tornam mais assertivas, navegar nesse ponto intermediário se torna cada vez mais difícil."
Ao menos por enquanto, a estrutura do radiotelescópio segue parada em San Juan enquanto continuam as disputas políticas e diplomáticas em torno do projeto. Parte dos componentes permanece retida na alfândega, e o futuro do CART continua incerto.
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