O que é o sono 'em U' e como ele aumenta os riscos de doenças cardiovasculares?
Estudos mostram que tanto dormir pouco quanto dormir em excesso podem aumentar o risco de doenças cardiovasculares, inflamações e alterações metabólicas
Durante muito tempo, dormir era visto quase como uma conta simples: quanto mais horas de descanso, melhor para a saúde. Mas a ciência do sono vem mostrando que o equilíbrio é mais importante do que o excesso. Hoje, especialistas já sabem que tanto dormir pouco quanto dormir demais podem aumentar o risco de problemas cardiovasculares.
Pesquisas recentes indicam que a relação entre sono e saúde do coração funciona em uma espécie de "curva em U": os riscos crescem nas duas extremidades. Ou seja, pessoas que dormem poucas horas por noite apresentam mais chances de desenvolver doenças cardiovasculares - mas o mesmo também acontece com quem dorme em excesso. O intervalo considerado mais saudável aparece de forma consistente nos estudos: entre sete e oito horas de sono por noite.
O coração sente os efeitos do sono ao longo do tempo
Segundo especialistas, o impacto do sono sobre o organismo não costuma aparecer de forma imediata, mas vai se acumulando silenciosamente com o passar dos anos. Dormir mal interfere em funções essenciais do corpo, como o controle da pressão arterial, do metabolismo da glicose, dos processos inflamatórios e até do funcionamento adequado das artérias.
O cardiologista João Luiz Frighetto, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia, explica que noites ruins frequentemente vêm acompanhadas de outros fatores de risco importantes, como hipertensão, obesidade e diabetes. "Dormir mal aumenta o risco cardiovascular porque se associa a hipertensão, diabetes e obesidade. Esses fatores acabam se somando ao longo dos anos", afirma, em entrevista ao g1.
O sono passou a ser um dos pilares da saúde cardiovascular
Até algumas décadas atrás, as conversas sobre prevenção de doenças cardíacas giravam principalmente em torno da alimentação e da prática de exercícios físicos. Esse cenário começou a mudar quando grandes estudos populacionais passaram a mostrar que a má qualidade do sono também impactava diretamente a saúde do coração.
Em 2022, a American Heart Association incluiu oficialmente o sono entre os pilares fundamentais da saúde cardiovascular no conceito conhecido como Life's Essential 8, ao lado de fatores como colesterol, glicemia, atividade física e abandono do cigarro.
Dormir pouco provoca uma sobrecarga silenciosa no organismo
Quem dorme menos de seis horas por noite tende a apresentar uma ativação maior do sistema nervoso simpático - mecanismo ligado ao estado de alerta e ao estresse. Na prática, isso significa: aumento persistente da pressão arterial; maior liberação de hormônios do estresse; pior controle do açúcar no sangue; aumento de processos inflamatórios.
Essas alterações ajudam a explicar por que pessoas com sono insuficiente apresentam mais placas de gordura nas artérias, mesmo quando aparentemente saudáveis. Além disso, a privação de sono costuma afetar o metabolismo de maneira silenciosa, favorecendo ganho de peso, resistência à insulina e desequilíbrios hormonais.
Mas dormir demais também merece atenção
Se dormir pouco faz mal, dormir muitas horas não significa necessariamente proteção. Uma meta-análise publicada em 2022 na revista Frontiers in Cardiovascular Medicine, com dados de aproximadamente 3,8 milhões de pessoas, observou que dormir mais de nove horas por noite também esteve associado a maior risco de doenças cardiovasculares e cerebrovasculares.
Segundo especialistas, porém, o excesso de sono costuma funcionar mais como um sinal de alerta do que como uma causa direta. Em muitos casos, dormir demais pode estar relacionado a: depressão; sedentarismo; inflamação crônica; fragilidade física; distúrbios do sono, especialmente apneia.
Sono longo nem sempre significa descanso de qualidade
Pessoas com apneia obstrutiva do sono, por exemplo, podem passar muitas horas na cama sem realmente descansar. Isso acontece porque a respiração sofre interrupções repetidas ao longo da noite.
Essas pausas respiratórias provocam: quedas na oxigenação; aumento da pressão arterial; microdespertares frequentes; ativação inflamatória constante. Com o tempo, esse cenário pode elevar o risco de infarto, AVC e arritmias cardíacas.
Além disso, estudos mostram que pessoas que dormem em excesso costumam apresentar níveis mais altos de inflamação no organismo - fator diretamente relacionado ao desenvolvimento da aterosclerose.
A qualidade do sono importa tanto quanto a quantidade
A ciência também vem reforçando que dormir muitas horas não compensa um sono fragmentado e irregular. Acordar várias vezes durante a madrugada gera pequenos picos de ativação cardiovascular. Cada despertar funciona como uma espécie de "microestresse" para o corpo, aumentando a frequência cardíaca e a pressão arterial.
Outro ponto importante é a regularidade. Dormir e acordar em horários muito diferentes desorganiza o relógio biológico e prejudica processos metabólicos importantes. Mesmo quem dorme uma quantidade adequada de horas pode sofrer consequências quando o sono acontece de maneira desregulada.
Sinais de que o sono merece investigação
Especialistas alertam que alguns sintomas não devem ser ignorados: ronco intenso; pausas respiratórias durante a noite; acordar cansado; sonolência excessiva ao longo do dia; insônia frequente; dificuldade constante para manter o sono. Nesses casos, procurar avaliação médica pode ajudar não apenas na qualidade de vida, mas também na prevenção de doenças cardiovasculares.
Hábitos simples ajudam a proteger o coração durante a noite
Algumas mudanças de rotina podem melhorar significativamente a qualidade do sono: dormir entre sete e nove horas por noite; manter horários regulares para dormir e acordar; evitar telas antes de dormir; reduzir cafeína e álcool à noite; criar um ambiente escuro, silencioso e confortável. Mais do que quantidade, o sono saudável depende de equilíbrio, regularidade e qualidade. Afinal, enquanto o corpo descansa, o coração também precisa recuperar o fôlego.
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