Criança entende o 'não'? O que a psicologia diz
São necessários mecanismos além da fala, mas as crianças conseguem, sim, compreender limites desde os primeiros anos
São necessários mecanismos além da fala, mas as crianças conseguem, sim, compreender limites desde os primeiros anos
Dizer "não" a uma criança é, muitas vezes, um dos maiores desafios para os pais. Mas, ao contrário do que muitos imaginam, esse limite não precisa ser visto como algo negativo, e sim como mais uma demonstração de cuidado e amor. É o que afirma a psicóloga Aurea Ferreira Martins dos Santos, especialista em desenvolvimento infantil.
Outros mecanismos além da fala
Segundo a especialista, não há uma idade exata em que a criança passa a entender o "não". Esse aprendizado, na verdade, começa desde cedo, a partir da forma como os pais inserem regras e limites na vida cotidiana. "A compreensão do 'não' começa a existir a partir do momento em que os pais verbalizam que existem regras, que a criança não deve ou não pode fazer determinada coisa. Esse limite deve existir desde que a criança nasce", explica Aurea.
Ela explica também que, nos primeiros meses de vida, a criança não compreende apenas por meio da fala, mas também pela associação entre a palavra e os gestos dos pais. Com o tempo, principalmente a partir dos dois anos, as explicações verbais passam a fazer sentido de forma mais clara.
A importância do bom exemplo
Porém, para que o "não" seja de fato eficaz, a psicóloga destaca a importância de justificar a proibição e oferecer alternativas. "Situações práticas, como impedir que a criança jogue comida no chão, devem vir acompanhadas de orientação sobre o comportamento adequado", orienta.
Outro ponto mencionado pela especialista é não banalizar a palavra. "O 'não' deve ser usado em situações coerentes, em que a criança possa compreender o contexto. Quando usado em excesso e sem necessidade, ele perde seu valor", alerta.
O limite é para todos
É preciso ter em mente, também, que cada criança tem sua própria personalidade e, por isso, pode reagir de formas diferentes. Aquelas que são naturalmente mais agitadas podem exigir uma postura mais firme dos pais, enquanto as mais tranquilas vão compreender a situação mesmo com explicações simples. "Independentemente do temperamento, nunca se deve deixar de esclarecer o 'não', usá-lo com ponderação e oferecer alternativas corretas para o desenvolvimento de comportamentos adequados", afirma a psicóloga.
Consequências da ausência de limites
De acordo com Aurea, é preciso, sim, estar atento ao estabelecimento de limites, pois crianças que crescem sem ouvir o "não" podem ter dificuldades sociais, de relacionamento e de lidar com frustrações ao longo da vida. "O mundo é feito de regras e limites. Crianças sem contato com isso tendem a se frustrar facilmente, apresentar comportamentos inadequados e até dificuldades em processos de seleção na vida adulta", explica a profissional.
Além disso, ela pontua que a falta de limites pode gerar jovens resistentes à autoridade, o que dificulta ainda mais a convivência durante a adolescência, que é um período complicado para a maioria das pessoas.
O "não" como demonstração de amor
Em todo caso, para a especialista, dizer "não" está longe de ser um mecanismo de rejeitar a criança. Muito pelo contrário, segundo ela, é uma forma de mostrar cuidado e preocupação com o desenvolvimento do pequeno. "Não se sinta constrangida em impor limites. O 'não' representa amor. Mostrar regras demonstra que você se preocupa, que está atento aos movimentos da criança e que não a deixa fazer tudo o que quer. Isso faz com que cresça mais segura e preparada para a vida", conclui Aurea.