Casos recentes reacendem debate sobre câncer de pâncreas; doença está mais comum?
Apenas nesse ano, personalidades como Raul Jungmann, Titina Medeiros, André Miceli e Rob Hirst faleceram em decorrência do câncer de pâncreas, chamando atenção para essa doença silenciosa e agressiva
Recentemente, o número de casos de câncer de pâncreas envolvendo artistas, celebridades e outras pessoas públicas tem chamado atenção. Apenas nesse ano, tivemos as mortes do ex-ministro Raul Jungmann, da atriz Titina Medeiros, do jornalista André Miceli e do músico Rob Hirst, todas em consequência da doença.
Tantos casos em um período de tempo tão curto levantam um questionamento: o câncer de pâncreas está se tornando mais comum? "Não podemos ser alarmistas. Não temos evidências de um aumento fora da curva da doença. Mas, globalmente, temos observado um crescimento gradual no número absoluto de casos ao longo das últimas décadas", explica o oncologista Dr. Ramon Andrade de Mello.
Por que isso acontece?
Segundo o médico, esse fenômeno se deve principalmente a dois fatores: o envelhecimento da população e a maior prevalência de fatores de risco da doença. "A expectativa de vida mundial é cada vez maior. E sabemos que o risco desse tipo de câncer aumenta com a idade. Não é que não possa ocorrer em jovens, mas é raro. Ele tem um pico de incidência etária por volta dos 55 anos até os 60", explica. "E o estilo de vida não saudável da modernidade também exerce um papel importante, com destaque para o tabagismo, a obesidade, a diabetes e dietas ricas em gordura, que aumentam o risco de desenvolvimento do câncer de pâncreas", acrescenta o oncologista.
Outro ponto importante, segundo o médico, é que, como o câncer de pâncreas é uma doença conhecida por sua agressividade e alta letalidade, os casos envolvendo figuras públicas acabam tendo grande repercussão e ampliam a percepção de frequência. "Não se trata de um surto, mas de uma doença grave que passou a receber mais atenção justamente por sua agressividade", pontua. Para se ter uma ideia, cerca de 5% das mortes causadas por tumores no país atribuem-se ao câncer de pâncreas, embora ele represente aproximadamente 1% dos diagnósticos oncológicos. "Infelizmente, o prognóstico é ruim na maioria dos casos, especialmente em estágios avançados. Na doença metastática, a sobrevida costuma ser curta, variando em média de 6 a 11 meses, dependendo do tratamento adotado."
Conscientização é fundamental
Embora a sequência de notícias sobre o assunto seja impactante, a maior atenção ao tema pode ajudar a informar e alertar a população. "Ainda vemos muita falta de conscientização sobre a doença e os sintomas. Há também muito medo e estigma. Mas quando o assunto ganha visibilidade por casos como esses, mais pessoas passam a conhecer a doença, reconhecer fatores de risco e a procurar rastreio regular, o que é fundamental nos casos de câncer de pâncreas, já que é uma doença silenciosa e, logo, difícil de ser diagnosticada precocemente", explica o Dr. Ramon.
Quando os sintomas surgem, os mais comuns são dor abdominal, perda de peso inexplicada, amarelamento da pele e dos olhos (icterícia) e vômitos. "Todos esses sinais podem sugerir a presença de um câncer de pâncreas e devem ser investigados", alerta o especialista.
Como acontece o diagnóstico?
Quando há suspeita, a investigação do câncer de pâncreas pode envolver a combinação de exames de imagem e laboratoriais, como tomografia computadorizada, ressonância magnética e exames de sangue. "Hoje temos também a biópsia líquida, que pode auxiliar na investigação e no acompanhamento do câncer de pâncreas. Mas a confirmação geralmente se dá por exame chamado CPRE, ou colangiopancreatografia retrógrada endoscópica, que combina endoscopia e radiografia", pontua o médico.
Após a confirmação, o tratamento varia conforme o estágio da doença. "A partir dos exames, o médico avalia se o tumor é operável, que geralmente tem prognósticos melhores. Nos casos em que a cirurgia é possível, ela pode ser indicada isoladamente ou associada à quimioterapia antes e depois do procedimento. Já quando a doença está disseminada, a quimioterapia passa a ser o tratamento principa. Depende de cada caso", completa.
Sobre o especialista
Dr. Ramon Andrade de Mello é médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia. É pós-Doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra), pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra), pesquisador sênior do CNPQ (Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico), vice-líder do programa de Mestrado em Oncologia da Universidade de Buckingham (Inglaterra), Doutor (PhD) em Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal).