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Elas disseram não para a maternidade, e são muito realizadas

Casar e ter filhos não precisa ser a história de todas as mulheres

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Entre as várias escolhas de vida que uma mulher pode fazer, a maternidade sempre foi vista como algo “natural”. Mas algumas mulheres não querem essa opção, e a decisão de não ser mãe, para elas, não é apenas uma recusa, é um caminho.  

Em julho, a atriz Jennifer Aniston escreveu um artigo dizendo: “Eu não estou grávida. Estou farta”, fazendo referência a uma revista de celebridades que havia publicado fotos dela, questionando se estaria grávida. 

Aniston criticou principalmente a objetificação das mulheres e como elas são retratadas na mídia. "Somos completas com ou sem um companheiro, com ou sem filhos”, escreveu a atriz, e acrescentou: "Não precisamos ser casadas ou mães para ser completas. Nós que determinamos nosso próprio 'felizes para sempre’”.

Jane tem 34 anos, é professora de crianças pequenas e não quer ter filhos
Jane tem 34 anos, é professora de crianças pequenas e não quer ter filhos
Foto: Arquivo pessoal

A professora de educação infantil Jane Oliveira, 34 anos, do Rio de Janeiro, optou por não ter filhos aos 17 anos. A decisão veio como um “insight”. Ao longo da juventude, sempre imaginou que iria casar e engravidar. No dia da formatura no Ensino Médio, conversava com uma amiga que já era mãe. Foi ali que “a ficha caiu”, lembra Jane.

“Pensei: ‘a pessoa quando tem um filho tem que largar tudo por esse filho’. Já tinha um sobrinho, cuidei muito dele, e não sentia que eu queria um bebê meu. Foi um insight, como se eu nunca tivesse parado pra pensar se eu realmente queria. Achava que ia querer um dia porque era um caminho natural, mas não, não tenho vontade de ter um filho”. 

Maturidade e escolhas

Desde que tomou a decisão, Jane nunca pensou em reverter a escolha. Ela percebe que as pessoas encaram a opção com incredulidade. “Ou as pessoas ignoram, como se estivessem ouvindo algo desagradável, ou falam que ainda sou muito nova. Não encaram como algo real, mas passageiro, ou fruto de uma imaturidade”, afirma Jane. 

Em 2012, Jane criou a página no Facebook “Mulher childfree - A original”, para dialogar com quem não quer filhos. A página, que tem cerca de 5,1 mil curtidas, tem objetivo de “falar para outras mulheres: você não está sozinha”. Apesar de alguns posts gerarem discussões bem acaloradas, Jane diz que a intenção não é agredir quem tem filhos.

“Tomo cuidado na hora de postar, para não ser uma coisa agressiva. A intenção não é agredir pessoas que têm filhos. Sou professora, não faria sentido fazer coisas atacando crianças”, explica Jane. 

Expectativas dos outros

A auxiliar administrativa Lídia Medeiros, 35, resolveu que não teria filhos depois de casar. De Engenho de Fora, Minas Gerais, Lídia cresceu em uma família evangélica, que sempre a incentivou a casar, ter filhos e formar uma família. “Depois que casei, fui ver como era. Meu marido já tinha filhos, e aí eu comecei a ver que filho é muita responsabilidade, e que você tem que abrir mão de algumas coisas. Desde os 28 anos, decidi que não queria”.

Lídia cresceu em uma família evangélica e sempre foi ensinada que deveria casar e formar uma família
Lídia cresceu em uma família evangélica e sempre foi ensinada que deveria casar e formar uma família
Foto: Arquivo pessoal

Hoje divorciada, Lídia foi casada durante seis anos. Ela conta que enfrenta preconceitos diariamente, e às vezes inclusive tem que lidar com discussões na família sobre o assunto.  “Acho que você precisa ter estrutura física, psicológica, financeira, e eu tenho outras prioridades. As pessoas acham egoísmo, mas eu acho que não, porque egoísmo é colocar filho no mundo e não ter uma estrutura. É errado falar que a mulher para ser realizada tem que ser mãe”.

Lídia não nega que já se sentiu insegura com a decisão, especialmente quando estava casada, e sentia uma pressão muito grande para ser mãe. “Mas pensei...vou fazer isso por quê? Para agradar meu marido e minha família? Hoje, eu sei não me importar mais com a opinião dos outros”, afirma.

Questionamento pessoal

A também professora Caroline Brandolezi, tem 32 anos, mora em São Vicente, no interior de São Paulo, e desde os 25 pensa na questão. Começou a se questionar se ter filhos era algo que realmente queria fazer, ou se iria ser mãe apenas porque esperavam dela. Quando chegou aos 30, decidiu: não quer ter filhos. 

Caroline partiu de um questionamento pessoal que começou aos 25 anos. Hoje, com 32, ela sabe que não quer ter filhos
Caroline partiu de um questionamento pessoal que começou aos 25 anos. Hoje, com 32, ela sabe que não quer ter filhos
Foto: Arquivo pessoal

“Às vezes, a gente vivencia uma experiência com a ilusão de que quer aquilo, mas na verdade fazemos as coisas porque as pessoas esperam. No começo, a gente se sente estranha por não querer, porque as pessoas tentam colocar na nossa cabeça que não querer ser mãe não é normal. Mas depois você vai pensando e percebe que é uma escolha, que você tem o direito de querer as coisas para a sua vida, ou não”.

Caroline já era casada, e, na época, conversou com o marido, que aceitou a escolha. No início, ela lembra ter sentido cobranças em relação à decisão. 

“As pessoas esperam isso, como se você tivesse que seguir um roteiro. Quando veem que você não está seguindo esse roteiro, elas cobram. No começo, era uma cobrança bem agressiva. Hoje, falo com bastante determinação que eu não quero, e acho que a pessoa sente isso, então às vezes tem gente que nem continua o assunto”, diz Caroline. 

Depois de tomar a decisão, Caroline encontrou outras pessoas próximas a ela e mulheres que também fizeram a mesma escolha. “Você começa a ver que não é estranha, que isso é normal. Fui vendo pessoas que também escolheram o mesmo e vivem bem, não sentem falta, não se arrependem”. 

Transformação e aceitação

E quando a opção por não ter filhos não chega a ser uma escolha, mas uma aceitação? A professora de cozinha vegetariana Juliana Venturelli, 43 anos, conta que passou por um processo de autoconhecimento até entender que não se daria bem com a maternidade, e fez dessa compreensão uma escolha.

Juliana passou por um processo de transformação e entendeu que não se daria bem com a maternidade
Juliana passou por um processo de transformação e entendeu que não se daria bem com a maternidade
Foto: Arquivo pessoal

 “Quando eu era mais jovem, tinha um discurso libertário, dizendo que eu tinha essa opção de ser livre, e que não necessariamente seria realizada como mãe. Aos 34 anos, comecei a ver que existia uma dificuldade minha emocional de lidar com a maternidade, com o aspecto da doação. Assumi que não sou bem resolvida como mãe, e acabei depois de um tempo aceitando isso como uma opção”, diz Juliana.

Natural de Cruzília, no interior de Minas Gerais, Juliana mora no Rio há 10 anos. A época da mudança de cidade coincidiu com a transformação interna. Se entender como um ser humano completo, que não necessariamente precisa gerar filhos para ser feliz, foi a resposta de Juliana a todos os questionamentos que ela sentia. 

“Pensei: ‘posso ser realizada independente dessa função social’. De fato, não existe nenhum arrependimento. Sinto que tudo fluiu e só me deu outra justificativa para o que era antes apenas um discurso libertário. Hoje faço parte desse discurso assumidamente. Aprendi a conviver e a aceitar a possibilidade de ser uma mulher livre, sem essa função tão marcada pela sociedade em ser mãe, em ser realizada como mãe. São outros os caminhos”, reflete.

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Fonte: Terra
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