BBB: Assédio, culpa e o impacto psicológico nas mulheres
Mais do que a saída do agressor, chamaram atenção as reações dentro da casa e fora dela, que não tratam assédio da forma como deveriam
O episódio recente no Big Brother Brasil, em que Pedro, ex-participante, pediu para sair após assediar uma colega de confinamento, reacendeu um debate que vai muito além do reality show. Mais do que a saída do agressor, chamaram atenção as reações posteriores dentro da casa e fora dela. Surgiram falas como "tadinho, é um menino" ou "tinha tanta coisa boa pra viver". Todas deslocaram o foco do dano causado à mulher para a trajetória interrompida do homem, e não para o assédio cometido por ele.
O caso expõe um fenômeno recorrente na sociedade: a inversão de empatia, quando a dor do agressor passa a ser mais considerada do que o impacto psicológico vivido pela vítima. Para especialistas em saúde mental, esse movimento não apenas minimiza a violência sofrida, como aprofunda o sofrimento emocional de quem foi assediada.
O impacto psicológico do assédio vai além do momento
Segundo Ticiana Paiva, psicóloga e head de psicologia da Starbem, o assédio gera efeitos imediatos e de longo prazo na saúde mental da mulher. "O impacto não se restringe ao momento do ocorrido. Muitas mulheres passam a lidar com ansiedade, hipervigilância, sensação de insegurança, culpa e até retraimento social. O corpo entra em estado de alerta, como se o risco ainda estivesse presente", explica. Esse tipo de experiência pode comprometer a autoestima, a confiança nas próprias percepções e até a relação com ambientes coletivos, como trabalho, estudos ou grupos sociais.
Por que a culpa costuma recair sobre a vítima?
De acordo com a psicóloga, situações de assédio frequentemente produzem silêncio e autocensura nas vítimas. "Existe uma pressão social para que a mulher 'não crie problema', 'não exagere' ou 'não estrague o clima'. Isso faz com que muitas internalizem a culpa, questionando se poderiam ter evitado a situação", afirma.
Esse mecanismo psicológico é reforçado quando o entorno relativiza o ocorrido ou demonstra mais preocupação com as consequências para o agressor do que com o bem-estar da mulher. Falas que tentam humanizar ou infantilizar o agressor — como "é só um menino" — têm um efeito direto na revitimização, segundo Ticiana. "Quando o discurso coletivo suaviza a responsabilidade de quem cometeu o assédio, a mensagem implícita é que a dor da vítima é secundária. Isso dificulta a elaboração emocional do trauma e reforça a sensação de injustiça."
Esse tipo de narrativa também contribui para a normalização da violência, tornando mais difícil que mulheres se sintam seguras para denunciar ou buscar apoio. Ambientes coletivos lidam mal com o assédio e o BBB escancara isso O que acontece no BBB, segundo especialistas, reflete dinâmicas comuns em empresas, universidades e outros ambientes coletivos. "Instituições muitas vezes não sabem lidar com episódios de assédio porque priorizam a manutenção da ordem, da imagem ou da produtividade. O cuidado com a vítima fica em segundo plano", aponta a psicóloga.
O isolamento piora
A falta de protocolos claros, espaços de escuta e acolhimento psicológico tende a agravar o impacto emocional, fazendo com que a mulher precise lidar sozinha com as consequências do ocorrido. Como se proteger emocionalmente após uma situação de assédio Para Ticiana Paiva, o primeiro passo é reconhecer a gravidade da experiência. "Nomear o que aconteceu como assédio é fundamental. Minimizar o ocorrido costuma aumentar o sofrimento psíquico", diz.
Ela também recomenda buscar apoio psicológico, evitar o isolamento e respeitar o próprio tempo de elaboração emocional. "Não existe reação certa ou errada. Cada pessoa processa esse tipo de vivência de forma única."
Um espelho da vida fora das câmeras
O episódio no BBB evidencia uma realidade ainda presente fora da televisão: mulheres frequentemente precisam administrar o impacto psicológico do assédio, enquanto o entorno relativiza a violência e desloca a empatia para quem a causou.
Mais do que um debate sobre entretenimento, o caso reforça a importância de tratar o assédio como uma questão séria de saúde mental e de construir ambientes, dentro e fora das empresas, que acolham vítimas sem julgamento ou silenciamento.