Helsinque gera energia a 30 metros abaixo do solo da capital
- Sabrina Bevilacqua
- Especial da Finlândia para o Terra
A partir das águas do mar e do esgoto residencial, empresa finlandesa gera energia elétrica. O sistema inovador, desenvolvido pela companhia privada Helsingin Energia, usa dutos que serpenteiam o subsolo da cidade de Helsinque, capital da Finlândia, para promover o aquecimento ou o resfriamento de ambientes de casas, escritórios e centros comerciais. A tecnologia, mais eficiente que a dos modelos tradicionais, também se mostra menos agressiva ao meio ambiente.
Quem passeia entre as árvores ou brinca no playground do Parque Katri Vala, há alguns quilômetros do centro de Helsinque, não imagina que embaixo de suas pedras, a 30 metros de profundidade, está sendo produzida a energia que resfria edifícios comerciais e residenciais. Túneis, tão largos como os de metrô, abrigam máquinas, tubulações e bombas com capacidade para gerar 60 megawatts de resfriamento e 90 megawatts de aquecimento por ano.
"Temos capacidade para gerar mais energia, mas ainda não há demanda para isso. É para o futuro", explica o diretor da unidade de geração Katri Vala, Marko Riipinen. A energia produzida é distribuída por dutos colocados em mais de 60 quilômetros de tuneis.
A proposta da Helsinque Energia preserva a paisagem, o meio ambiente e mostra que a tecnologia inovadora pode ser usada com baixo impacto no bolso do consumidor. "Nós buscamos uma maneira inteligente de utilizar o espaço urbano e salvar os poucos parques que existem nas nossas cidades", explica Riipinen. Além de colaborar para a preservação, o diretor da empresa ressalta o fato de que, por ser um sistema operado debaixo da terra, os consumidores não são expostos a ruídos incômodos.
Como no verão a demanda é por resfriamento dos ambientes e, no inverno, por aquecimento, a ideia foi criar um sistema que pudesse usar um mesmo processo durante todo o ano, com o máximo de eficiência. De acordo com Riipinen, a geradora cumpre a função. Uma "unidade" de eletricidade inserida na estação de Katri Vala (a primeira e a maior planta a combinar aquecimento e resfriamento em um único processo) rende cinco vezes mais. "Quando entra 1 megawatt por hora de energia elétrica na planta, nós conseguimos 2 megawatts/h de resfriamento e outros 3 megawatts/h de aquecimento", explica.
O alto grau de eficiência se deve a uma combinação de tecnologia e aproveitamento de matérias-primas antes desperdiçadas. Tanto para o aquecimento, quanto para o resfriamento, é utilizado um método chamado absorção, baseado na troca de calor, que tem como matéria-prima o esgoto que sai dos edifícios. Depois de tratada, a água residual é bombeada para máquinas. Elas recuperam e transferem o calor da água, que ao invés de vazar para a atmosfera, é aproveitado em equipamentos que podem produzir calor ou frio, dependendo da demanda. Depois disso, a água tratada segue para o mar.
Durante o inverno, quando a temperatura da água do mar está abaixo de 8°C, um processo diferente é utilizado para o resfriamento. Bombas captam essa água, que passa por um processo parecido ao anterior, mas gera apenas frio. O calor que sai desse processo não se perde, pois é reinserido no sistema de aquecimento. Tudo é totalmente automatizado e operado a distância, em uma central localizada em outra parte da cidade.Até agora a empresa investiu cerca de 35 milhões de euros no sistema. Valor que, para Riipinen, vale a pena. "É um investimento de longo prazo. Essa estrutura vai durar uns 200 anos e não precisa de manutenção. Pensamos de uma maneira menos imediatista." A empresa pensa em obter retorno financeiro em cerca de 15 anos.