Indígena defende tese de doutorado em aldeia e transforma rejeição à valorização dos saberes ancestrais
Raquel Tupinambá busca diálogo entre conhecimentos indígenas e ciência acadêmica em sua tese
A trajetória de Raquel Tupinambá é marcada por uma relação estreita entre o território, a pesquisa acadêmica, a identidade e a defesa dos direitos indígenas. Aos 36 anos, a indígena e pesquisadora do povo Tupinambá, no Baixo Tapajós, no Pará, acaba de concluir o doutorado em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB). Antes disso, construiu uma trajetória acadêmica que começou na biologia, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM), e passou pela botânica, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
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Nascida e criada na Aldeia Surucuá, Raquel também vem de uma família ligada à organização comunitária. A mãe foi liderança e coordenadora de associação, enquanto o pai participou de diferentes atividades comunitárias. A própria pesquisadora começou a acompanhar esse universo desde criança e, mais tarde, passou a atuar diretamente no movimento indígena.
Entre 2021 e 2025, esteve à frente do Conselho Indígena dos Tapajós e Arapiuns (CITA), que representa, sociopoliticamente, 14 povos do Baixo Tapajós, no Pará. Também exerceu por um período a função de cacica de sua aldeia, mas deixou a posição para conseguir conciliar outras demandas.
“As mulheres foram ganhando e buscando espaço. Quando olhamos a história, nos anos 1970 e 1980, quase nenhuma mulher participava. Minha mãe fala que quando era criança ela ia levar café para o pai dela, que era uma liderança, e via que só participavam homens. Foi um processo que foi mudando. As mulheres foram entendendo que elas precisavam se organizar para ocupar esses espaços e estar à frente”, explicou.
Da vontade de sair da aldeia ao reencontro com o território
Na infância, Raquel conta que também foi influenciada pela ideia de que a cidade representava desenvolvimento e melhores oportunidades. Ela queria deixar a aldeia e morar em um centro urbano.
“Quando eu era criança muitos queriam ir pra cidade e eu também embarquei nessa. Meu pai nunca aceitou, ele falou: ‘De jeito nenhum’. Já minha mãe tinha amigos e, meio que, deixava. E eu era até meio revoltada com ele”, lembrou Raquel.
Quando finalmente saiu para estudar, viveu a realidade da periferia de Manaus, enfrentando longos deslocamentos, dificuldades financeiras e condições precárias de moradia.
"Imagine você não ter dinheiro para alugar uma casa de R$ 150, um quartinho de madeira, nas condições mais adversas possíveis.”
“A universidade precisa se permitir aprender”
Graças ao mestrado sobre mandioca, raiz tuberosa que fazia parte de sua vida desde a infância, Raquel mudou a própria relação com a ciência. Para ela, os conhecimentos produzidos dentro das aldeias não devem ser vistos como inferiores aos conhecimentos acadêmicos. “Primeiro, é preciso se permitir aprender”, diz sobre a relação com a universidade.
Durante a formação, ela percebeu como os saberes e os modos de vida indígenas frequentemente são analisados a partir de um olhar colonialista.
“Eu comecei a me questionar sobre questões do colonialismo. E uma das que me deixava angustiada era: ‘Por que a gente é visto como pobre?’. Sendo que estamos em um lugar maravilhoso quando comparado a grandes centros. Temos água potável, comida de verdade, família [perto]. A gente tem coisas que nunca tem na cidade e somos vistos como pobres”, explicou Raquel.
A passagem da biologia para a antropologia ocorreu nesse momento, em que ela procurava compreender os motivos pelos quais os povos indígenas são frequentemente classificados como inferiores. Raquel decidiu que sua pesquisa de doutorado teria como proposta a investigação dos efeitos do processo de colonização sobre o povo Tupinambá.
Um doutorado que também é instrumento de luta pela terra
A tese de Raquel, intitulada “Arikatu, Arikatu: uma viagem pelos caminhos antigos para trilhar os caminhos do hoje, povo Tupinambá do Tapajós e o futuro ancestral”, reúne memórias, narrativas e conhecimentos relacionados à territorialidade, ancestralidade, espiritualidade e organização do povo Tupinambá.
A tese foi defendida na própria Aldeia Surucuá, em um momento que Raquel considera um marco para ela e para a comunidade. O orientador e integrantes da banca foram até o território para acompanhar a defesa. “Defender a tese dentro do território foi muito mágico”, resumiu.
Mais do que uma conquista individual, a pesquisadora vê a tese como uma ferramenta que pode ajudar na luta pela demarcação do território Tupinambá, no Pará. A demarcação, no entanto, ainda está em uma etapa inicial. Segundo Raquel, o pedido foi feito no início dos anos 2000 e o processo não avançou como esperado.
A defesa do território está ligada à retomada da identidade indígena, após décadas de apagamento, provocado pela colonização e por estereótipos que associavam os povos indígenas à pobreza e ao atraso — em alguns casos, negar a própria origem chegou a ser uma estratégia de sobrevivência.
Hoje, Raquel percebe uma mudança, sobretudo entre os jovens Tupinambá, que demonstram orgulho da identidade e participam do fortalecimento cultural por meio de grafismos e adornos, embora parte das gerações mais velhas ainda mantenha certo distanciamento desses símbolos.
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