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 Foto: Arquivo Pessoal/Miguel Nicolelis

Miguel Nicolelis reflete sobre impacto real da IA: ‘Não faz diferença na vida da pessoa comum’

Referência mundial na neurociência, Nicolelis fala sobre o futuro da inteligência artificial, marketing do medo e mais

Imagem: Arquivo Pessoal/Miguel Nicolelis
  • Beatriz Araujo Beatriz Araujo
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17 ago 2026 - 04h58
O neurocientista, Miguel Nicolelis, durante palestra ministrada em São Paulo
O neurocientista, Miguel Nicolelis, durante palestra ministrada em São Paulo
Foto: TIAGO QUEIROZ / Estadão

Você imagina sua vida sem o uso de inteligência artificial? Para Miguel Nicolelis, referência mundial na neurociência e pioneiro na interface cérebro-máquina, se as IAs chegassem ao fim, não faria diferença na vida das pessoas comuns. Além disso, pensar em uma sociedade cada vez mais interligada com esta tecnologia é “construir um futuro sem futuro”. Em entrevista ao Terra, ele reflete sobre os impactos da inteligência artificial na sociedade e como ela tem sido pautada com base no que chama de marketing do medo.

  • Com curadoria da Mandalah, consultoria global de inovação consciente, o Encontro Futuro Vivo acontece em 1º de setembro para promover reflexões sobre o presente e o futuro que queremos construir coletivamente.

Nicolelis explica que a grande inspiração da área desde os anos 40, quando a cibernética foi criada, era o cérebro humano --e a inteligência artificial é como uma filha disso tudo. Ele será um dos palestrantes do Encontro Futuro Vivo.

“Se achava que seria possível reproduzir o cérebro e, mais tarde, a mente humana, em sistemas computacionais digitais. E essa é a grande ilusão que permanece viva 80 anos depois”, afirma. Até hoje, não há consenso científico sobre o que é a consciência e a inteligência" -- Miguel Nicolelis

Miguel Nicolelis será uma das atrações do Encontro Futuro Vivo
Miguel Nicolelis será uma das atrações do Encontro Futuro Vivo
Foto: TIAGO QUEIROZ / Estadão

Para ele, a ideia da inteligência artificial soa como uma “grande furada e uma grande enganação”. "Se você for conversar com os donos das empresas, ou até mesmo com os diretores científicos, eles sabem que não estão lidando com inteligência, mas eles querem vender uma miragem.”

Nicolelis faz um paralelo com o marketing do medo, um tipo de estratégia que usa da insegurança e urgência para convencer as pessoas a comprar algo. “Essa é a única forma de receita que eles têm hoje. Como é um mercado que não dá lucro, o jeito é aumentar o ‘valuation’ das suas empresas. É um negócio que não conseguiu achar um mercado, porque, para a pessoa comum, a IA não faz diferença nenhuma na vida dela.”

Além disso, o neurocientista cita pesquisas norte-americanas que revelam que a grande maioria das empresas que tentaram implementar o uso de IA em seus processos não identificou ganho financeiro. Pelo contrário, aumentaram os custos. 

“Ela [IA] custa mais caro que os funcionários que foram demitidos para a mesma função. Então fica muito óbvio que é um jogo de cena. Da mesma forma como na Revolução Industrial, que você propaga que está criando um verdadeiro Deus, isso diz que você tem muito poder, e isso faz pessoas jogarem dinheiro na pirâmide. É o marketing do medo” -- Miguel Nicolelis

Por mais que nos Estados Unidos exista o movimento de esclarecimento sobre o real impacto da IA nos trabalhos, nas empresas, e na vida das pessoas, essa chavinha ainda não virou no Brasil. "Ainda não se deram conta que vão gastar muito mais pagando por token do que pagariam para funcionários fazerem o serviço. Só que, enquanto isso, há certas indústrias que estão desaparecendo. O trabalho humano no jornalismo é um deles. Artes gráficas, ilustrações, produção audiovisual.”

O neurocientista Miguel Nicolelis durante conferência no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto
O neurocientista Miguel Nicolelis durante conferência no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto
Foto: Luis Cleber / Estadão

Outra frente é com relação aos efeitos na mente humana do uso crônico de sistemas de inteligência artificial. O que afeta as capacidades cognitivas e naturais do ser humano, criatividade, espontaneidade e própria atenção, como lista.

O uso de computadores em sala de aula é outro alvo da análise. Em países com índices de educação mais avançados, como na Suécia e Finlândia, as diretrizes têm sido de remover os aparelhos após notarem perda de vocabulário, interpretação e raciocínio abstrato nos alunos. Em paralelo, pesquisas apontam uma maior retenção de conteúdo para aqueles que tomam notas escrevendo à mão do que digitando, por exemplo.

”A inteligência artificial não não é nada mais do que construir um futuro sem futuro, porque ela é baseada no que já aconteceu” -- Miguel Nicolelis

A IA tem sido condicionada a uma métrica de sucesso, pautada na produtividade, na automatização da mente humana. Mas, para ele, a equação deveria ser: “Vale a pena você ganhar esse tempo quando, daqui a 6 meses, você se der conta que a sua memória está definhando e que você nunca mais vai conseguir armazenar na sua mente o que você acabou de ler?”

O neurocientista Miguel Nicolelis
O neurocientista Miguel Nicolelis
Foto: Luis Cleber / Estadão

No entanto, o médico não se vê como pessimista. “Pelo contrário, eu na minha carreira de 40 e poucos anos de cientista, eu não só usei tecnologias, inclusive programas estatísticos dela lá atrás, da origem das redes neurais artificiais, como desenvolvi eu mesmo”, explica, contando não ser um “anti-tech”. Nisso, para ele, por mais que essa seja a lógica prevalente, não é a única métrica – nem a majoritária. 

Para além das questões financeiras, quando o uso da IA também é colocado em perspectiva junto a seu impacto socioambiental, de consumo de água e de energia elétrica, o jogo pode começar a mudar. “Se você levar esse raciocínio até o ponto original, ele questiona se nós temos o direito de acabar com o planeta para fazer um resumo de um trabalho científico mais rápido”, comenta.

"Essa realidade não é inevitável. Esses caras [de empresas de IA] dizem que esse futuro é inevitável, que nós não temos o que fazer porque a equação já está resolvida. Não é verdade. Isso não era inevitável na Revolução Industrial, e não é inevitável agora. Aliás, bem menos agora. Existem alternativas.”

Fonte: Portal Terra
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