Será que o motor Mercedes ficou para trás na F1?
Carros equipados com o motor Mercedes, antes dominante, ficaram entre os últimos no Barein. Equipe principal também não brilhou. Por que?
Um dos capítulos que mais chamou a atenção no Grande Prêmio do Barein foi o fato de carros com motores Mercedes sofrerem bastante. Desde a introdução dos conjuntos híbridos pela Fórmula 1, em 2014, a marca alemã está um passo à frente dos rivais no que diz respeito a Unidades de Potência. Tornou-se quase regra, com poucos momentos de exceção.
Por isso, causou estranheza ver todas as suas equipes clientes andarem tão mal. Aston Martin, McLaren e Williams sofreram por todo o fim de semana. Na classificação, quatro desses carros (sendo dois da Aston Martin) sequer passaram do Q3. Os outros dois ficaram no Q2. Na corrida, o quadro foi ainda mais assustador: de todos os carros que completaram a prova, os seis últimos eram equipados com unidades Mercedes.
As velocidades máximas da classificação mostram três das quatro equipes com motores Mercedes entre as mais lentas. Apenas a Williams conseguiu velocidade melhor, mas obtida sacrificando a carga aerodinâmica para reduzir o arrasto e, portanto, perdendo aderência em curvas.
Aston Martin, McLaren e Williams saíram do Bahrein sem pontos. Mas a equipe de fábrica da Mercedes conseguiu resultado melhor, ainda que sem o brilho de outros tempos. Lewis Hamilton terminou em 3º e George Russell logo atrás. Não fosse a dupla quebra da Red Bull no final, o “normal” pelo ritmo de prova seriam o 5º e o 6º lugares. Mesmo assim, muito melhor que as clientes.
Pois então, se a Mercedes conseguiu andar na zona de pontuação e até faturou um pódio, o que explica o desempenho tão abaixo das outras três equipes que usam a mesmíssima unidade de potência?
Problemas diversos
O péssimo resultado obtido por Aston Martin, McLaren e Williams não pode ser creditado apenas ao motor Mercedes. Os três times tiveram suas dificuldades durantes os testes de pré-temporada e parecem ainda não ter se encontrado em termos de acerto. Para elas, o motor é o menor dos problemas.
A Aston Martin trouxe para 2022 com um conceito aerodinâmico bastante diferente de todas as outras equipes. Ser a única a ir por um determinado caminho só podia significar que, das duas, uma: ou todos estavam errados em suas ideias e a Aston Martin reinaria sozinha; ou a equipe estava errada e ficaria para trás. E aí já podemos começar a entender os problemas do time.
Ao portal The Race, Mike Krack, o chefe da Aston Martin, falou em assumir os erros no próprio carro antes de apontar para o motor Mercedes: “O time de fábrica está muito à frente. Acho que antes de pensarmos nisso [motor], temos de resolver nossos problemas primeiro”, afirmou. “Então, com esse conjunto motor-câmbio, dá para fazer um bom trabalho. Para nós, primeiro temos que fazer um carro de verdade, um carro rápido, antes de irmos muito para esse caminho”.
A McLaren foi uma das grandes decepções da etapa do Barein, mas o resultado não chega a ser uma grande surpresa quando se analisa o desempenho do time nos testes de pré-temporada na mesma pista. Na ocasião, o time foi o que menos testou graças à problemas complexos e recorrentes nos freios. Esse contratempo se somou a outros, como a ausência de Daniel Ricciardo por covid. O todo dos problemas acabou por atrasar o desenvolvimento e a compreensão do MCL36 por parte do time.
Andreas Seidl, chefe da McLaren, foi pela mesma linha de Krack ao reconhecer que a equipe tem problemas que vão bem além do motor. Ao The Race, falou: “O mais importante agora é reconhecer [os problemas] e nos comparar à Mercedes. Estamos um segundo atrás deles, e essa é a melhor referência que podemos ter. É nisso que estamos focando.”
A Wiliams também foi instável durante os testes. A equipe enfrentou alguns problemas de confiabilidade que tiraram tempo precioso de coleta de dados. No penúltimo dia de testes, por exemplo, o FW44 pegou fogo logo nos primeiros minutos de atividade e o time perdeu o dia inteiro.
A baixa velocidade de reta da equipe Mercedes
Se o motor não parece ser foco de preocupação das equipes clientes, como explicar o fato de a equipe principal, mesmo com resultado melhor, ter uma das menores velocidades em reta? Segundo Toto Wolff, a explicação é bastante simples: “Muito arrasto”.
O chefão da Mercedes explicou que a equipe não teve tempo de produzir peças que dessem mais variações em termos de ajustes. Por isso, e acabou sendo obrigada a usar uma asa traseira com mais carga que o necessário, o que limitou a velocidade final.
O foco dos problemas da Mercedes não está no motor, mas sim no efeito porpoising, que assola a equipe em mais intensidade que a concorrência. Enquanto outras equipes já conseguiram encontrar um caminho para solucionar a questão, a Mercedes segue sofrendo. E, aparentemente, o impacto do efeito no W13 é maior do que em carros rivais.
Em partes, o atraso nesse aspecto se deu pelo foco do time em usar os testes para fazer funcionar o conceito de “zeropods”, a inovadora lateral enxuta introduzida pelo time na metade da pré-temporada. O tempo gasto pela Mercedes no azeitamento do funcionamento de seu novo conceito foi gasto pro outras equipes no porpoising.
George Russell entende que solucionar o porpoising faria a equipe competitiva novamente: “Se destravarmos isso, sabemos que tudo vai ser beneficiado. Vai ajudar os pneus, vai ajudar os freios, vamos conseguir mais aderência. Esperamos realmente encontrar uma solução o quanto antes porque sabemos que vai responder muitos dos nossos problemas”. Mas ressalva: “Sei que é mais fácil falar do que fazer”.
Ainda assim Wolff afirma que a equipe vai se debruçar sobre o motor para ter certeza que isso não é e nem será um problema para o time: “Temos que revirar todas as pedras nessa questão da unidade de potência”.
Afinal, o motor Mercedes ficou ruim?
Bem, a resposta é não. A Mercedes andou atrás apenas de Red Bull e Ferrari, superando outros carros com unidades de potência Ferrari, Honda/RBPT e Renault. Mas é fato que concorrência encurtou a distância para a marca alemã – ou mesmo a anulou.
A Ferrari introduziu uma importante atualização em seu sistema híbrido ainda na parte final da temporada passada e a Honda antecipou atualizações que faria em 2022 e as entregou também em 2021, antes de passar a operação para a Red Bull Powertrains. Essas mudanças subiram o patamar dos motores concorrentes. 2022 viu, ainda, a adoção do combustível E10 (10% de etanol), e há relatos de que algumas equipes tiveram perdas maiores que outras nessa adaptação.
Se a Mercedes teve vantagem de potência em anos anteriores, é bem provável que não tenha mais. Ao que tudo indica, já não há aquele “algo a mais” dos motores Mercedes em relação aos concorrentes. O que já foi um diferencial para Williams entre 2014 e 2016, da Force India/Racing Point em diversos momentos dos últimos anos e da McLaren em parte de 2021, ficou no passado.
Agora, com motores mais nivelados, é cada um por si. Problemas nos chassis ficam mais escancarados. Isso vale para as equipes clientes, mas também para a própria Mercedes, que se vê começando uma temporada em clara desvantagem pela primeira vez em quase uma década...