Rita Süssmuth, pioneira na política alemã, morre aos 88 anos
Ex-ministra e ex-presidente do Bundestag, Süssmuth foi decisiva na criminalização do estupro marital, no combate à Aids, e se tornou uma das primeiras conservadoras a defender abertamente a igualdade de gênero no país.A ex-ministra e ex-presidente do Bundestag, a câmara baixa do parlamento alemão, Rita Süssmuth, morreu neste domingo aos 88 anos de idade.
O chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, afirmou que Süssmuth foi "modelo na igualdade de gênero e na ampliação da influência política das mulheres".
Uma das primeiras figuras conservadoras a defender abertamente igualdade de gênero, Süssmuth teve papel central na mudança legislativa que tornou o estupro marital um crime na Alemanha, além de defender políticas progressistas de saúde pública no combate à Aids.
Como presidente do Bundestag nas décadas de 1980 e 1990 Süssmuth lutou por uma sociedade moderna e aberta, estabelecendo padrões de tolerância e abertura ao mundo, completou Merz.
Ajuda a dependentes químicos e pacientes com Aids
Süssmuth foi uma parlamentar que marcou desenvolvimentos importantes da história recente da Alemanha.
Nascida em Wuppertal em 1937, estudou línguas românicas e história em Münster, Tübingen e Paris, e mais tarde pedagogia, sociologia e psicologia. Filiou-se à União Democrata Cristã (CDU) em 1981. Apenas quatro anos depois, tornou-se ministra federal da Juventude, Família e Saúde (e, a partir de 1986, também ministra da Mulher), embora fosse praticamente desconhecida na política.
Desde o início, não temeu confrontos com as forças conservadoras da CDU e da CSU, sua legenda-irmã bávara. Ainda assim, conseguiu avanços importantes em temas que considerava essenciais.
Um exemplo foi o tratamento de pacientes com HIV. Süssmuth defendeu que a prioridade fosse educação e assistência médica. Em 1987, a política católica fundou a Fundação Alemã de Aids. Na política de drogas, defendia tolerância com dependentes e rigor com traficantes.
Disputa com Helmut Kohl
Seu primeiro grande teste político ocorreu em 1989, um ano após assumir a presidência do Bundestag. Crescia dentro da CDU a oposição a Helmut Kohl, então presidente da legenda havia 16 anos e chanceler havia sete.
Rita compôs um grupo que visava destituir Kohl, mas ele conseguiu apoio suficiente e foi reeleito no congresso partidário.
Os conspiradores foram isolados, mas Süssmut saiu ilesa do conflito e permaneceu presidente do Bundestag até o fim da era Kohl, em 1998. Ela ainda cumpriu mandato como deputada até 2002.
A ruptura, porém, nunca cicatrizou. Kohl considerou uma traição o fato de justamente a parlamentar que ele havia promovido - num cálculo político para modernizar moderadamente o partido - ter se voltado contra ele.
Mesmo antes disso, ele já se irritava com o ritmo acelerado com que Süssmuth, como ministra para Assuntos da Mulher e da Família, impulsionava reformas. Kohl temia que o partido fosse ultrapassado por mudanças rápidas demais.
Criminalização do estupro marital
Süssmuth também defendeu posições moderadas sobre aborto e teve papel decisivo na criminalização do estupro dentro do casamento.
Em um programa da emissora pública ARD, em abril de 2017, ela descreveu o ambiente em que essa mudança precisou ser aprovada, após uma luta de mais de 25 anos.
"Primeiro, a família era tão sagrada que se afirmava que isso [estupro marital] não existia. Segundo, dizia-se que o Estado não tinha nada a ver com o que acontecia no quarto das pessoas. Eram argumentos desajeitados, porque fora do casamento o crime era punível, dentro do casamento não. Que tipo de respeito à dignidade humana e aos direitos humanos é esse?"
Como presidente do Bundestag, organizou a mudança do Parlamento de Bonn para Berlim, trabalhou continuamente pela boa relação entre Alemanha e Polônia e por uma política moderna de imigração.
Ela continuou nesse caminho mesmo após Gerhard Schröder, do SPD, suceder Kohl em 1998. Para irritação de seu partido, aceitou presidir a Comissão de Imigração criada pelo novo governo SPD-Verdes.
Política "sem arrependimentos"
Dentro da CDU, Süssmuth foi uma ponte para o feminismo. "Conseguimos introduzir uma nova forma de pensar no partido. Isso levou tempo", disse certa vez.
"Hoje isso parece natural, mas não era. Há algumas décadas, a emancipação feminina ainda era vista como o colapso da sociedade civilizada, inclusive na CDU."
Viúva e mãe de uma filha, Süssmuth também foi defensora da educação de adultos. Embora tenha superado muitos obstáculos, ela própria admitiu, em entrevista ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, que às vezes tropeçou.
"Experimentei rejeição no meu partido, muitas vezes me senti uma estranha, mas também recebi apoio", disse. "Muitas vezes me senti sozinha. E sei que isso não vale só para mim; vale para muitas pessoas na política. Apesar disso, não me arrependo de ter entrado na política. Podemos mudar algo - não o mundo, mas mentes e ações."