Pressão dos EUA acelera aproximação estratégica entre Irã e China
Isolado por Washington, Teerã se ancora cada vez mais em Pequim, que vê brecha para ampliar sua influência na região. Apoio militar, contudo, é visto como improvável.A escalada de tensões entre Irã e Estados Unidos abriu espaço para a ascensão da China como ator-chave na disputa. Embora não haja indícios de que Pequim apoiaria militarmente o regime dos aiatolás em um eventual conflito, a pressão americana sobre a República Islâmica vem contribuindo para aprofundar a parceria entre Pequim, Teerã e também Moscou.
No início de janeiro, manifestações generalizadas motivadas por dificuldades econômicas e descontentamento político se tornaram um dos maiores desafios domésticos enfrentados pela liderança iraniana desde a Revolução Islâmica de 1979.
A agitação rapidamente deu lugar a um agravamento do impasse regional. O presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou deslocamentos militares ao Oriente Médio e emitiu advertências exigindo que o Irã limitasse seu programa nuclear e o desenvolvimento de mísseis balísticos. Os dois lados admitem negociações, mas Teerã indicou neste domingo que um ataque americano levaria a uma "guerra regional".
Os embates entre Irã e EUA não passam despercebidos pela China, que teria ajudado as autoridades iranianas a implementar um apagão nacional de comunicações durante os protestos.
Em 15 de janeiro, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, classificou as ameaças dos EUA como um retorno à "lei da selva". Ele fez um contraste entre o que chamou de agressão americana com a oferta chinesa de desempenhar um "papel construtivo" para ajudar o governo e o povo iraniano a "permanecerem unidos".
Em outro sinal de aproximação, a mídia estatal iraniana informou neste sábado (31/01) que Teerã planeja realizar exercícios navais conjuntos com China e Rússia em meados de fevereiro, no norte do Oceano Índico. O movimento também aconteceu em 2025.
O anúncio foi seguido por uma onda de alegações de que a Pequim estaria fornecendo assistência militar ao Irã, além de especulações sobre uma possível intervenção chinesa caso ocorresse um confronto militar com os EUA.
Irã aprofunda laços com a China
Há anos, a China é um dos parceiros econômicos e diplomáticos mais importantes do Irã, oferecendo uma saída crucial enquanto Teerã enfrenta duras sanções dos EUA e permanece na lista do Grupo de Ação Financeira (FATF). Essas restrições limitam severamente o acesso do Irã ao sistema financeiro global, tornando-o dependente de Pequim para comércio e apoio político.
Essa relação ganhou um contorno mais estratégico após o conflito de 12 dias entre Irã e Israel, em junho de 2025. Nos meses seguintes, Teerã e Pequim teriam ampliado acordos de cooperação em segurança, voltados a melhorar o compartilhamento de inteligência e a coordenação contra ameaças externas.
No entanto, Hamidreza Azizi, analista de segurança do Oriente Médio no Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, em Berlim, entende que o compromisso chinês com a defesa do governo iraniano é sobretudo pragmático.
"A China não se tornou uma defensora contundente do Irã após a guerra de 12 dias com Israel, e é improvável que o faça caso haja uma intervenção militar dos EUA", disse Azizi à DW.
Em contraste, a China ofereceu apoio mais robusto a outros parceiros regionais. Durante os confrontos de 2025 entre Índia e Paquistão pela Caxemira, por exemplo, Pequim disponibilizou assistência militar tangível ao Paquistão. Nada semelhante foi oferecido ao Irã, observou Azizi.
China, Irã e o "Eixo da Turbulência"
Por outro lado, autoridades europeias e da Otan têm observado uma maior convergência entre Irã e China em uma parceria chamada de "Eixo da Turbulência". O termo descreve o alinhamento estratégico, militar e econômico crescente entre China, Rússia, Irã e Coreia do Norte (às vezes abreviado como Crink), com o objetivo de desafiar a ordem global liderada pelos EUA.
No final de janeiro, chefe da Otan, Mark Rutte, disse ao Parlamento Europeu ser "inegável" o alinhamento cada vez maior destes países. Ele acrescentou que, embora a parceria "ainda não seja bem estruturada", as quatro nações mostram crescente disposição de desafiar a influência ocidental.
Nos círculos de formulação de políticas nos EUA, essa visão às vezes alimenta a ideia de que enfraquecer o Irã ajudaria a conter o poder chinês.
Segundo Azizi, esse raciocínio contribuiu para uma postura mais confrontacional de Trump em relação a Teerã e foi um fator importante para aproximar ainda mais o Irã da China e da Rússia. "Mas a verdade é que o Irã precisa mais da China do que a China precisa do Irã", disse Azizi.
"Portanto, achar que pressionar Teerã prejudicará a China é um erro. Superestimar a importância dessa aliança seria um equívoco tanto para o governo iraniano quanto para os EUA."
Investimentos reduzidos China no Irã
A dependência do Irã em relação à China é moldada principalmente pelo confronto com Washington. Embora as sanções dos EUA tenham aproximado Teerã de Pequim, elas também desestimularam investimentos chineses e limitaram a capacidade da China de expandir sua presença econômica no país.
"Por ora, Pequim parece mais focada em se opor a ações unilaterais dos EUA do que em garantir a sobrevivência do regime iraniano", disse Azizi. "Anos de agitação recorrente e corrupção generalizada reforçaram, na China, a percepção de que o Irã, sob sua atual liderança, representa um ambiente de alto risco para investimentos."
Essa cautela fica evidente na enorme diferença entre o comércio chinês com o Irã e com outros países do Golfo.
Em 2024, o comércio total da China com os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo - incluindo Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos - chegou a cerca de 257 bilhões de dólares (R$ 1,3 trilhão), segundo o think tank Asia House. Já o comércio bilateral com o Irã foi apenas uma fração disso: menos de 14 bilhões de dólares (R$ 73 bilhões), segundo dados do governo chinês.
"Portanto, embora a China queira estabilidade regional para proteger seus amplos interesses econômicos e energéticos, é improvável que se empenhe para defender o governo iraniano", afirmou Azizi.