Por que a América Latina abriga as cidades mais perigosas do mundo
Conflitos por controle de rotas e mercados ilícitos intensificam assassinatos e desaparecimentos em países latino-americanos. Das 50 cidades mais violentas do mundo, 41 estão localizadas na região.Em 2025, a capital do Haiti, Porto Príncipe, foi a cidade recordista de homicídios em todo o mundo. Foram aproximadamente 198 assassinatos por 100 mil habitantes, de acordo com a organização não governamental mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal.
No relatório mais recente da instituição, consta ainda que a grande maioria das 20 cidades mais violentas do mundo se concentra em dois países da América Latina: Equador e México.
O Brasil possui seis cidades listadas neste ranking: Fortaleza (na 32ª posição), Feira de Santana (33ª), Recife (36ª), Maceió (38 ª), Salvador (44ª) e Porto Velho (48ª).
As disputas territoriais, sobretudo pelas rotas de tráfico de cocaína, continuam sendo a principal causa de insegurança na América Latina e no Caribe, explica Juliana Manjarrés, pesquisadora da InSight Crime. "A fragmentação de grupos armados, seja pelo assassinato ou pela captura de seus líderes, costuma desencadear ondas de violência entre facções que competem pelo controle de uma área."
A expansão de mercados ilícitos como o de metanfetamina, extorsão, agiotagem (com taxas de juros abusivas e prazos de pagamento muito curtos), mineração ilegal e roubo de combustível acentua essas dinâmicas de violência e morte.
As respostas mais comuns ao problema, que são a militarização e a imposição de um estado de exceção (quando o governo amplia seus poderes durante situações de crise, podendo restringir direitos civis), acabam contribuindo para a insegurança na região. Seus efeitos costumam ser "limitados ou até contraproducentes", afirma a especialista da InSight Crime.
Cadeia do narcotráfico se sofistica
Na avaliação de Elizabeth Dickinson, vice-diretora do Programa para América Latina e Caribe do International Crisis Group, outro fator que contribuiu para o aumento da violência é "o nível de fragmentação da cadeia do narcotráfico".
Hoje, o crime organizado se apoia em redes transnacionais. Nos numerosos elos do narcotráfico - da produção da droga até sua distribuição ao consumidor final - podem participar entre seis e dez organizações diferentes.
Com isso, explica Dickinson, aumentam as possibilidades de grupos locais participarem do negócio ilícito e controlarem um determinado elo da cadeia.
Aumento dos desaparecimentos
O aumento da violência se traduz ainda em desaparecimentos cada vez mais frequentes, em vários países da região, pontua a pesquisadora Manjarrés.
"Isso pode ser explicado por um esforço deliberado das organizações criminosas, a mudanças nas metodologias governamentais de registro, ou a ambos os fatores; mas o resultado é que simplesmente não sabemos quantas das pessoas desaparecidas foram vítimas de homicídio", afirma.
Isso impede determinar em que medida uma mudança na taxa de homicídios se deve realmente a uma variação efetiva no número de assassinatos.
As cidades mais seguras
No outro extremo, há o Índice de Segurança, que lista as melhores cidades nesse quesito na América Latina e no Caribe a partir de informações fornecidas por moradores para a base de dados colaborativa Numbeo. Não é um índice estatístico oficial, portanto.
No ranking de 2026, as dez cidades mais seguras são: Querétaro (México), Cuenca (Equador), Florianópolis (Brasil), Cidade do Panamá (Panamá), Monterrey (México), Medellín (Colômbia), San José (Costa Rica), Montevidéu (Uruguai), Brasília (Brasil) e Belo Horizonte (Brasil).
Raízes da violência
Independentemente do grau de segurança de um país, Elizabeth Dickinson, do International Crisis Group, lembra que o crime organizado penetrou áreas que costumavam ser consideradas blindadas contra esse tipo de ameaça.
"Um grande exemplo é o Equador, que há alguns anos tinha uma das menores taxas de homicídio da região andina e agora, em apenas dois ou três anos, passou a ocupar o primeiro lugar em homicídios" na América Latina, comenta a especialista.
Por isso, Dickinson defende uma ação com foco nas raízes da violência, nos aspectos dos quais o crime organizado se aproveita para se expandir, como a falta de oportunidades para os jovens, a desigualdade e o descontentamento social.
Embora em países como Haiti e Equador a situação da violência pareça se agravar continuamente, Juliana Manjarrés também observa uma tendência positiva na América Latina: "Apesar de desafios como a falta de dados confiáveis por parte de países com governos autoritários, os homicídios parecem estar diminuindo na região, mesmo levando em conta o aumento dos desaparecimentos".
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