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Trechos inéditos do livro de Gisèle Pelicot são divulgados antes do lançamento mundial

Os primeiros trechos de "Et la joie de vivre", livro de Gisèle Pelicot - em português com o título "Um Hino à Vida" - que será lançado mundialmente em 17 de fevereiro, em 22 idiomas, foram divulgados na terça-feira (10) pelo jornal Le Monde. O relato em primeira pessoa será comentado pela autora em sua primeira entrevista na TV francesa nesta quarta-feira (11). O caso de abuso sexual sofrido por Pelicot ganhou notoriedade internacional depois que ela pediu que o julgamento fosse realizado de forma pública em 2024.

11 fev 2026 - 12h11
(atualizado às 12h44)
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Em seus escritos, Gisèle Pelicot revisita o julgamento de Avignon, no sudeste da França, que ganhou repercussão global pela gravidade dos crimes, pelo número de acusados e pelo pedido de audiência pública feito por ela. "Quando penso no momento em que tomei minha decisão, digo a mim mesma que, se tivesse vinte anos a menos, talvez não tivesse ousado recusar o julgamento fechado. Eu temeria os olhares, esses olhares malditos com os quais uma mulher da minha geração sempre teve de lidar", afirma em um dos trechos publicados.

Gisèle Pelicot posa durante uma sessão fotográfica em Paris, dias antes do lançamento de seu livro “Et la joie de vivre”, em 22 idiomas no dia 17 de fevereiro. O título em português da publicação será “Um Hino à Vida”.
Gisèle Pelicot posa durante uma sessão fotográfica em Paris, dias antes do lançamento de seu livro “Et la joie de vivre”, em 22 idiomas no dia 17 de fevereiro. O título em português da publicação será “Um Hino à Vida”.
Foto: AFP - JOEL SAGET / RFI

"Talvez a vergonha vá embora mais facilmente quando se tem 70 anos e já não chamamos a atenção de ninguém. Não sei. Eu não tinha medo das minhas rugas, nem do meu corpo", confessa a autora, em um relato de suas memórias escrito em parceria com a jornalista e romancista Judith Perrignon. Ainda assim, Gisèle descreve um "sentimento difuso" antes do julgamento: "Ele [Dominique Pelicot], eu mal podia esperar para ver diante de mim. Já eles, eu temia o número deles", relata. "Quanto mais o julgamento se aproximava, mais eu me imaginava me tornando refém de seus olhares, de suas mentiras, de sua covardia e de seu desprezo", continua. "Será que eu não os protegia ao fechar a porta?", chegou a se perguntar sobre a possibilidade de julgamento a portas fechadas. 

A incredulidade inicial: "Não sou eu" 

No livro, ela também descreve o choque ao descobrir na delegacia suas fotografias durante os estupros sob submissão química, no outono de 2020. "Vou lhe mostrar fotos e vídeos que não vão lhe agradar", teria dito Laurent Perret, responsável pelo caso. 

Na ocasião, o policial apresentou à mulher várias imagens dela, imóvel, sendo violentada por diferentes homens. "Eu não reconhecia aqueles indivíduos. Nem aquela mulher. A bochecha tão flácida. A boca tão mole. Era uma boneca de pano." O policial insiste: "É o seu quarto. São mesmo os seus abajures, não é?". "E daí? Não sou eu, inerte nesse leito. Isso é uma montagem. Obra de alguém que quer prejudicar Dominique", responde Gisèle Pelicot, ainda em estado de choque. 

"O policial mencionou um número. Cinquenta e três homens teriam ido à nossa casa para me violentar", cita um trecho do livro. Uma psicóloga é imediatamente chamada. "Eu não precisava dela. Eu tinha certeza da minha felicidade, da nossa felicidade. Quase 50 anos de casamento e a lembrança intacta do nosso encontro. O sorriso dele. O olhar tímido. Os longos cabelos cacheados até os ombros. O suéter listrado. Ele iria me amar. Meu cérebro parou ali, na sala do oficial Perret". 

Os crimes do marido

Gisèle Pelicot também relata o momento em que soube, dois anos depois, que Dominique Pelicot era suspeito do assassinato de Sophie Narme, em Paris, em 1991, crime no qual ele nega envolvimento, e da tentativa de estupro de uma jovem em 1999, na região metropolitana parisiense, que ele admitiu. 

No seu livro, ela relata uma ligação que recebeu de um policial da divisão de "cold cases" de Nanterre, cidade perto da capital: "É sobre seu marido."

"Cada palavra que ele pronunciaria, naquele mês de outubro de 2022, iria terminar de destruir minha vida. Ele falou de casos antigos não resolvidos, de uma tentativa de violação, mas também de um assassinato. Mencionou os anos 1990. Disse os nomes das vítimas, eu não consegui retê-los", relata. Gisèle conta ter ficado "entorpecida, incapaz de ficar de pé" ao ouvir que Dominique Pelicot, com quem ainda era casada, era o principal suspeito dos dois crimes. 

Quinze dias após a ligação, dois policiais foram interrogá-la. "A investigação que se abria naquele momento contava outra história. Um predador sexual à caça. Jovens transformadas em presas. (…) Eu estava ofegante. O tronco tão rígido que doía", recorda. "Ora, um corpo sem cabeça correndo atrás da ideia de que eu poderia tê-lo salvado de seus demônios; ora, consumida pela vergonha, uma mulher estúpida que se deixara manipular".  

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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