Paris adapta arenas, banheiros, aviões e hotéis para receber elite do sumô em evento inédito
O torneio de sumô que será realizado em Paris neste fim de semana mobiliza uma operação logística rara, envolvendo desde reforço estrutural em instalações até adaptações de transporte aéreo. A chegada de cerca de 60 lutadores e seus auxiliares marca o primeiro evento desse porte na capital francesa em mais de 30 anos, acompanhado por medidas específicas para preservar rituais, costumes e exigências físicas dessa tradição japonesa.
O sumô japonês retorna a Paris neste fim de semana após mais de três décadas, em um torneio-exibição que exige uma logística incomum para acomodar lutadores, rituais e materiais específicos da modalidade. A delegação, composta por cerca de 150 pessoas, incluindo 60 atletas, desembarcou na França após meses de preparação técnica e estrutural conduzida por organizadores e representantes da Associação Japonesa de Sumô.
Análise da água da torneira parisiense
Entre as medidas adotadas está a análise prévia da água da torneira parisiense, realizada meses antes por emissários japoneses. Eles verificaram a quantidade de calcário para garantir que os shampoos usados nos elaborados penteados dos lutadores não sejam afetados. As madeixas, tratadas com óleo especial e arrumadas em formato que remete à folha de ginkgo, são parte essencial da identidade do sumô. A água local foi aprovada; caso contrário, seria necessário recorrer a água mineral.
A viagem da delegação também exigiu adaptações. Os lutadores foram distribuídos em dois aviões, tanto por questões de capacidade quanto de segurança, procedimento comparado por organizadores ao adotado por chefes de governo. A hierarquia da modalidade determinou a disposição dos assentos: campeões em primeira classe, atletas intermediários em classe executiva e os demais em econômica, onde receberam dois assentos para acomodar o porte físico.
Banheiros reforçados
As instalações em Paris também passaram por ajustes. Os banheiros da Accor Arena, local do evento, e do hotel onde os lutadores estão hospedados foram reforçadas para suportar o peso dos atletas. A arena recebeu ainda 10 toneladas de terra coletada na região parisiense, selecionada após análise agronômica para reproduzir o solo usado no Japão na construção do dohyo, o círculo de combate de 4,55 metros de diâmetro. A estrutura inclui ainda 150 kg de areia e quantidade equivalente de cimento.
Outro elemento essencial é o sal, usado nos rituais de purificação do sumô, tradição ligada ao xintoísmo. Para o torneio, foram transportados 200 kg de sal de Guérande, vindos do litoral francês. O material será lançado pelos lutadores antes dos combates, como manda o costume.
Tradição e hierarquia
A preparação para o evento também levou em conta um episódio marcante da última passagem dos lutadores por Paris, em 1995, quando trajes cerimoniais foram destruídos em um incêndio no aeroporto. O incidente, lembrado por vários atletas, motivou cuidados redobrados no transporte dos materiais desta edição, segundo o promotor David Rothschild.
O torneio também oferece ao público a oportunidade de compreender a estrutura rígida que rege o sumô. Para ingressar na modalidade, é preciso ser homem, ter entre 15 e 23 anos e ter concluído a escolaridade obrigatória. A idade limite sobe para 25 anos no caso de atletas vindos do sumô amador. Há ainda critérios mínimos de altura e peso, embora candidatos que não os atendam possam realizar um teste físico, mudança introduzida em 2023 para enfrentar a queda de interesse entre jovens japoneses.
Os aspirantes precisam ser aceitos por uma das 45 heya, as casas de treinamento onde vivem e treinam. Cada heya só pode ter um lutador estrangeiro. A vida nesses locais é comunitária e disciplinada. Os atletas dormem em dormitórios coletivos, treinam em jejum desde o amanhecer e fazem uma refeição pesada ao meio-dia, seguida de descanso para facilitar o ganho de peso. Apenas lutadores das duas divisões superiores têm direito a salário; os demais recebem alimentação, moradia e uma pequena ajuda financeira por torneio.
O ranking, chamado banzuke, é publicado a cada dois meses e determina o destino dos lutadores. Subir às divisões superiores significa acesso a quarto individual, roupas formais e mawashi (cinturão) colorido nos torneios. Os sekitori, como são chamados os atletas de elite, contam com a assistência de lutadores menos graduados, que os ajudam em tarefas cotidianas, do treino à alimentação.
Rituais e salário até os 65 anos
A aposentadoria no sumô é marcada por uma cerimônia simbólica: o corte do coque de cabelo, penteado que acompanha o lutador ao longo da carreira. A idade de saída costuma variar entre 30 e 35 anos, embora alguns permaneçam ativos até os 40. O lutador mais velho em atividade tem 49 anos e compete sob o nome de Shoketsu.
A permanência no universo do sumô após a aposentadoria é restrita. Apenas atletas que alcançaram resultados expressivos podem se tornar oyakata, função equivalente à de mestre. Para isso, é necessário ter disputado ao menos 30 torneios nas divisões superiores ou atingido determinado posto, além de adquirir um dos 105 títulos de "antigo", cujo valor pode chegar a milhões de euros. O posto garante salário até os 65 anos.
O torneio em Paris, além de apresentar combates e rituais, busca aproximar o público europeu dessa tradição japonesa marcada por disciplina, hierarquia e forte simbolismo religioso. A logística envolvida, que vai de reforços estruturais a transporte especializado, reflete a complexidade de trazer para o exterior uma prática profundamente enraizada na cultura japonesa.
Com AFP
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