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Entre diplomacia e simbolismo, Macron recebe Trump em Versalhes pelos 250 anos da independência dos EUA

O presidente francês Emmanuel Macron volta a mobilizar o peso simbólico do Palácio de Versalhes como ferramenta política e diplomática ao receber, nesta quarta-feira (17), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em um cenário carregado de luxo e história, o jantar marca as celebrações dos 250 anos da independência americana, mas também se insere na estratégia do chefe de Estado francês de usar o antigo palácio real para impressionar aliados, cultivar relações e influenciar negociações internacionais.

17 jun 2026 - 13h01
(atualizado às 15h34)
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"Isto não é um jantar de gala, nem nada do gênero. É um jantar para celebrar o 250º aniversário da independência americana, porque a França desempenhou um papel nesse processo", justificou Macron em entrevista ao canal TF1, pouco antes da abertura da cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na região da Alta Sabóia.

Os dois líderes chegarão a Versalhes após o encontro do G7, realizado desde segunda-feira (15), e que acontece em um contexto de tensões diplomáticas e temas sensíveis na agenda internacional. Para Paris, o jantar oferece uma oportunidade de prolongar o diálogo e, ao mesmo tempo, garantir a presença do presidente americano até o fim das discussões.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (esquerda) e o presidente da França, Emmanuel Macron, na cúpula do G7 em Évian. Em 16 de junho de 2026.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (esquerda) e o presidente da França, Emmanuel Macron, na cúpula do G7 em Évian. Em 16 de junho de 2026.
Foto: RFI

Um protocolo detalhado 

O programa da noite segue um protocolo cuidadosamente encenado. A lista detalhada de convidados ainda não está disponível, mas todos devem chegar ao palácio de Versalhes antes das 19h. Emmanuel e Brigitte Macron entram em cena logo depois, enquanto Donald Trump é esperado às 19h15, recebido no pátio, diante da imprensa.

O presidente americano terá desembarcado pouco antes no aeroporto de Orly e será escoltado até Versalhes por um comboio de cerca de sessenta veículos, um aparato que ilustra a dimensão política e simbólica do encontro.

Antes do jantar, previsto para 19h45, os dois líderes fazem um breve passeio pelo palácio, passando por alguns dos espaços mais emblemáticos, como o Salão dos Espelhos e a Capela Real. No roteiro, também está a exposição "Versalhes e os Estados Unidos", que relembra o papel do local na história americana.

Foi em Versalhes que o rei Luís XVI apoiou militarmente os revolucionários americanos liderados por Benjamin Franklin, em 1778. E foi ali que, em 1783, o tratado que reconheceu a independência dos Estados Unidos foi assinado.

"Este será o nosso momento para celebrar esta amizade", afirmou Macron.

O menu ainda não foi divulgado e, apesar do cenário grandioso, a noite será mais sóbria do que o imaginado. Não haverá fogos de artifício nem o tradicional espetáculo de luz e som nos jardins. A saída dos dois presidentes está prevista para pouco depois das 22h.

Diplomacia com cenário sob medida

Construído no século XVII por ordem de Luís XIV, o palácio de Versalhes foi concebido como a encenação máxima do poder absoluto. Transformado de residência real em centro da vida política da monarquia, o complexo simbolizava a grandeza e o controle do Estado francês. Ao longo dos séculos, o espaço foi ressignificado pela República, que passou a utilizá-lo como vitrine diplomática, mantendo viva a associação entre prestígio, história e poder, um legado que Emmanuel Macron segue explorando na cena internacional.

Líderes da União Europeia diante do Palácio de Versalhes em encontro que teve como pano de fundo a crise na Ucrânia e a relação do bloco com a Rússia. Em 10 de março de 2022.
Líderes da União Europeia diante do Palácio de Versalhes em encontro que teve como pano de fundo a crise na Ucrânia e a relação do bloco com a Rússia. Em 10 de março de 2022.
Foto: RFI

Receber chefes de Estado no local significa, ao mesmo tempo, honrar e influenciar, uma tradição que a imprensa descreve como parte da "diplomacia à francesa". Cada detalhe contribui para impressionar convidados estrangeiros. Ao cruzar os portões de Versalhes, o visitante é inserido em um cenário que evoca séculos de poder europeu e continuidade histórica da França.

Desde o início de seu mandato, Macron fez do palácio de Versalhes um instrumento recorrente dessa estratégia. Foi ali que recebeu, entre outros, o presidente russo Vladimir Putin, em 2017, o então príncipe herdeiro japonês Naruhito, em 2018, e o rei Charles III, em 2023. Mais do que coincidência, trata-se de uma escolha deliberada: o uso do espaço funciona como ferramenta de influência e mensagem simbólica.

A rainha Camilla, o rei Charles III e o casal Emmanuel e Brigitte Macron no palácio de Versalhes, em 20 de setembro de 2023.
A rainha Camilla, o rei Charles III e o casal Emmanuel e Brigitte Macron no palácio de Versalhes, em 20 de setembro de 2023.
Foto: RFI

No caso de Donald Trump, conhecido por valorizar o protocolo, os símbolos e os ambientes grandiosos, o palácio oferece um cenário ideal. A diplomacia, nesse caso, é também personalizada: adaptar o local ao interlocutor pode facilitar o diálogo político.

Entre gastronomia, imagem e soft power

Versalhes também é palco de uma diplomacia mais ampla, baseada no chamado art de vivre à la française. E isso também passa pelo prato. Menus anteriores já incluíram lagosta azul com amêndoas frescas, volaille de Bresse marinada em champanhe e o icônico macaron de rosa do chef Pierre Hermé, uma vitrine das delícias do país, pensada para seduzir convidados estrangeiros.

Gastronomia, decoração e protocolo fazem parte da encenação e ajudam a promover a imagem do país no exterior, valorizando sua cultura, seus produtos e sua atratividade econômica.

O mesmo cenário abriga, por exemplo, o encontro anual "Choose France", no qual o presidente reúne grandes investidores internacionais para promover o país, um prolongamento da lógica que combina política, economia e imagem.

Convite gera polêmica

A recepção, no entanto, provoca reações políticas na França. Parte da oposição critica o caráter grandioso do jantar diante do perfil controverso do presidente americano. A líder da esquerda radical, Mathilde Panot, condenou a visita, afirmando que Macron poderia ter encerrado seu mandato de outra forma.

À esquerda, porém, há divergências. O deputado socialista Romain Eskenazi minimizou a polêmica e afirmou que o evento não deveria ser contestado, lembrando que já estava previsto.

Na direita, a leitura é mais favorável. O deputado Philippe Ballard considera natural receber o líder da maior potência mundial em um local tão simbólico. Já aliados de Macron defendem a iniciativa como instrumento legítimo de ação política. "Defender nossos interesses não se resume a telefonemas. Isso também acontece em eventos como este", afirmou a deputada governista Prisca Thévenot.

Entre história, encenação e estratégia, o jantar em Versalhes ilustra como, na diplomacia contemporânea, o cenário continua sendo parte essencial da política.

Os chefes de Estado da União Europeia participam de uma reunião informal no Palácio de Versailles, em 11 de março de 2022.
Os chefes de Estado da União Europeia participam de uma reunião informal no Palácio de Versailles, em 11 de março de 2022.
Foto: RFI

Com RFI e AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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