Governo britânico condena 'violência racista' em Belfast, após novos tumultos
Doze policiais ficaram feridos e 16 pessoas foram detidas na Irlanda do Norte após a segunda noite consecutiva de tumultos em Belfast. Os incidentes começaram após um ataque com faca perpetrado por um refugiado sudanês, que foi indiciado, anunciou nesta quinta-feira (11) o governo britânico.
O ministro britânico responsável pela Irlanda do Norte, Hilary Benn, denunciou "violências racistas" e um "clima de medo" na província britânica. Dezenas de pessoas entraram em confronto com a polícia de choque na noite desta quarta-feira em Glengormley, bairro situado no norte de Belfast. Os manifestantes lançaram projéteis, tijolos e coquetéis molotov contra a polícia, que usou canhões d'água para dispersá-los. Um carro e um prédio foram incendiados no bairro.
O suspeito do ataque com faca é Hadi Alodid, um sudanês de 30 anos. Ele compareceu na quarta-feira diante de um juiz em Belfast e é acusado, entre outros crimes, de tentativa de homicídio. O acusado recusou a presença de um advogado e estava acompanhado de um intérprete de língua árabe.
O homem foi mantido sob custódia até nova audiência, prevista para 8 de julho. As razões do ataque permanecem incertas, mas a polícia norte-irlandesa descartou, por enquanto, a hipótese de terrorismo.
O suspeito chegou à Irlanda do Norte em 2023 e tinha documentos de refugiado, com autorização de residência válida até 2028, segundo o Ministério do Interior. Ele entrou no Reino Unido vindo da República da Irlanda, após passar por Paris.
Na terça-feira (9), diversos tumultos contra imigrantes foram registrados no centro da cidade após a divulgação de um vídeo do ataque ocorrido na segunda-feira. As imagens mostram o agressor, sentado sobre um homem caído e ensanguentado, desferindo golpes.
A vítima do ataque, identificada como Stephen Ogilvie, perdeu um olho. Ele está hospitalizado e seu quadro é estável, de acordo com informações divulgadas em comunicado na quarta-feira (10) por sua família, que se disse "chocada" com as cenas de tumultos.
Manifestantes bloqueados
Na noite de quarta-feira, dezenas de manifestantes tentaram chegar ao Chimney Corner, um hotel que já abrigou solicitantes de asilo no passado e não é distante do local dos confrontos em Glengormley. Eles foram impedidos pela polícia.
Brendan, encanador de 50 anos, está entre os que participaram dos protestos na terça-feira. "As pessoas não querem ficar em casa" após um evento assim, afirmou. Ele diz, no entanto, ser "contra a violência".
"Já tivemos violência suficiente aqui durante 30, 40 anos: bombas, assassinatos", declarou à AFP, em referência às três décadas do conflito na Irlanda do Norte, que opôs até 1998 republicanos, em sua maioria católicos, favoráveis à reunificação com a Irlanda, e unionistas protestantes, defensores da permanência da Irlanda do Norte sob a Coroa britânica. Os confrontos de terça-feira ocorreram principalmente em bairros unionistas.
Convocações para protestos foram feitas desde terça-feira nas redes sociais por personalidades da extrema direita, como o ativista Tommy Robinson (pseudônimo de Stephen Yaxley-Lennon) e o bilionário americano Elon Musk, proprietário da rede social X.
O vídeo do ataque foi publicado na noite de segunda-feira, cerca de uma hora após os fatos, por Tommy Robinson, e rapidamente repercutiu em diversas contas anti-imigração, que alimentaram a revolta que levou aos confrontos.
Hilary Benn indicou na quinta-feira que o governo britânico "introduzirá novas medidas na próxima semana" para enfrentar a disseminação de informações falsas. Ele considerou "inaceitável" que alguns usuários tenham divulgado endereços de pessoas que acreditavam ser estrangeiros.
Manifestações violentas anti-imigrantes já haviam ocorrido na Irlanda do Norte, especialmente em junho de 2025 e no verão de 2024, assim como em outras regiões do Reino Unido.
Com AFP
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