Avenida Rustaveli conta história da Geórgia com sangue e poesia
- Misha Vignanski
- Da Agência EFE, em Tbilisi
Os 1,5 mil metros de comprimento da Avenida Rustaveli foram testemunhas e cúmplices dos eventos mais importantes dos últimos dois séculos da história da Geórgia, um pequeno país de pouco mais de 4 milhões de habitantes no Cáucaso Sul que se desmembrou da Rússia em 1991.
Passeatas, festas populares, protestos e fuzilamentos tiveram como palco a avenida que leva o nome do célebre poeta georgiano Shota Rustaveli (século XII), que, do pedestal de seu monumento, escreve agora a história da Geórgia e de sua capital. A Avenida Rustaveli é o coração de Tbilisi e de todo o país, seu cartão de apresentação, sua alegria e sua dor.
Nos feriados e finais de semana, os habitantes da capital passeiam por suas calçadas vestindo as melhores roupas, em uma tácita demonstração de respeito e carinho com a rua principal.
Champs-Elysées de Tbilisi
"Pequena Paris" era chamada Tblisi em tempos soviéticos, e a Rustaveli, como não podia deixar de ser, era comparada à avenida parisiense Champs-Elysées. Mas nessa época estava proibida a lembrança dos eventos de 9 de março de 1956, quando milhares de georgianos foram à Rustaveli para protestar contra a condenação ao culto à personalidade de Josef Stalin.
O ditador soviético, que tinha morrido três anos antes, nasceu a 80 km de Tbilisi e tinha estudado em um seminário da capital georgiana. Não se pode dizer que os georgianos eram stalinistas - a tirania tinha castigado a Geórgia com a mesma ou maior força que outras repúblicas soviéticas -, mas os manifestantes consideraram que tinham de sair em defesa de seu paisano.
Aquele foi um dos primeiros desafios abertos dentro do país contra o regime soviético, que respondeu metralhando os manifestantes. Mais de 100 pessoas morreram pelas balas dos soldados. Hoje, é possível recordar o massacre pelas lembranças colocadas no muro do edifício número 12 da Rustaveli, instalado depois da desintegração da União Soviética (URSS).
Em 9 de abril de 1989, voltou a correr sangue na Rustaveli. Soldados soviéticos, apoiados com blindados, dispersaram uma manifestação pró-independência, ação repressiva que deixou 16 mortos, 14 deles mulheres.
Exatamente dois anos depois, o Soviete Supremo da República Socialista Soviética da Geórgia, uma das 15 repúblicas que faziam parte da URSS, proclamava a independência do território, e dezenas de milhares de georgianos lotavam a avenida para expressar sua alegria com festas, músicas e cantorias.
Sequer um ano depois, no inverno 1991-1992, os tiros voltaram a tumultuar a Rustaveli, e dessa vez foram muito mais estrondosos. Houve mais de 100 mortos na insurreição armada contra o primeiro presidente da Geórgia pós-soviética, Zviad Gamsakhurdia, que conseguiu escapar da Casa do Governo, alvo de disparos dos manifestantes.
O edifício, erguido em 1953 e peça representativa do estilo arquitetônico stalinista, ficou quase destruído. Restaurado, o imóvel é atualmente a sede do Parlamento da Geórgia. Uma árvore de plátano junto ao edifício guarda uma "lembrança" da batalha: um projétil de artilharia incrustado em seu tronco.
"Em 6 de janeiro de 1992, Gamsakhurdia fugiu do país. O conflito terminou. A vida voltou à avenida, mas não a reconhecíamos mais, havia projéteis de bala por toda a parte. Foram destruídos o hotel Tblisi, a famosa escola Nº 1, a Casa do Pintor e outros edifícios e casas. O panorama era dantesco", diz à Agência Efe Emzar Liluashvili, morador da Rustaveli.
Em 1995, no dia 9 de fevereiro, uma explosão quase tirou a vida do então presidente da Geórgia, Eduard Shevardnadze. O atentado ocorreu junto ao Teatro da Ópera e do Balé, construído em 1896. "Eu estava passeando do outro lado da avenida quando ouvi a explosão. O céu se encheu de fumaça preta. Tive muito medo. Depois soubemos que, felizmente, ninguém morreu", lembra a professora Rusudán Dalakshivili.
Oito anos depois, em novembro de 2003, a Rustaveli voltaria a investir contra Shevardvnadze. Dezenas de milhares de manifestantes congregados na avenida reivindicaram sua renúncia, em um levante pacífico que entrou para a História como Revolução Rosa.
O maior poeta da Geórgia
Até 1918, pouco depois da revolução bolchevique, a Geórgia proclamou sua independência da Rússia. A avenida até então levava o nome do general russo Yevgeny Golovin e nela, como não podia deixar de ser, se encontrava o palácio do governador designado pelos czares, construído em 1802 e que atualmente abriga a Casa da Juventude.
A primeira independência georgiana, que deu o nome à avenida, foi de curta duração. Em 25 de fevereiro de 1923, a cavalaria do Exército Vermelho desfilou pela Rustaveli, acontecimento que marcou a instauração do poder dos Sovietes.
As autoridades bolcheviques conservaram seu nome, talvez por considerar que não era "politicamente correto" tirar o nome do maior poeta da Geórgia, autor de O Cavaleiro na Pele de Pantera, poema épico sobre a amizade e o amor, de que muitos georgianos se orgulham de saber de cor e que os jovens costumam declamar a suas apaixonadas.
"Agradeço a Deus por me permitir caminhar pela Rustaveli, por saber que terei pão e vinho", escrevia no século passado o poeta Lado Asatiani (1917-1943). Na rua que leva seu nome, a poucos passos da avenida, vive outro poeta, Vladimir Sarishvili. "Vou todos os dias à Rustaveli. Tem uma aura especial, me inspira só de me sentar em um banco, à sombra dos plátanos, onde leio jornal. Depois, dou uma volta pela avenida e, quando volto para casa, tenho a sensação de escrever com mais facilidade", diz Sarishvili, de 46 anos.
Para a poetisa russa Bella Akhmadulina, representante da chamada geração dos 60 - a 'Plêiade' de poetas soviéticos que conseguia atrair multidões -, a Rustaveli é "o litoral dos elementos, das paixões e dos mistérios".
Mas a modernidade e o boom imobiliário não perdoam nem mesmo a principal artéria urbana de Tbilisi. Ela perdeu muitos de seus tradicionais cafés e restaurantes, que antes faziam as delícias de seus habitantes e que agora são substituídos pelas grandes redes comerciais e hoteleiras internacionais.