França: Morte de militante nacionalista divide esquerda e é instrumentalizada pela direita e ultradireita
A prisão preventiva dos 11 suspeitos pela morte do jovem militante de extrema direita Quentin Deranque termina nesta quinta-feira (19) na França. Entre os detidos, três são colaboradores ou ex-colaboradores do deputado do partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI), Raphaël Arnault, fundador do grupo antifascista La Jeune Garde (Jovem Guarda). O caso divide a esquerda francesa e é instrumentalizadao pela direita e extrema direita a um mês das eleições municipais francesas.
Quentin Deranque, católico integrista e ultranacionalista de 23 anos, morreu no último sábado (14) após ter sido violentamente agredido em um confronto com um grupo rival em Lyon, no centro-leste do país. Os suspeitos, oito homens e três mulheres, estão sendo investigados por homicídio doloso, violência agravada e associação criminosa. Eles pertencem ou são proximo do movimento antifacista La Jeune Garde, fundado em 2018 pelo deputado da LFI Raphaël Arnault. Vários partidos pedem a demissão ou a suspensão do parlamentar.
Uma passeata em homenagem a Deranque foi convocada para o proximo sábado (21), em Lyon, mas a marcha ainda não foi autorizada pelas autoridades devido aos riscos de segurança e novos confrontos entre a militantes de extrema direita e extrema esquerda. Os pais de jovem militante nacionalista morto pediram nesta quinta-feira "calma e moderação".
A repercussão política da morte do jovem militante, continua em destaque nas primeiras páginas dos jornais franceses desta quinta-feira.
Esquerda radical na berlinda
O partido de esquerda radical A França Insubmissa está na berlinda. Além de pertenceram ao grupo antifascista, alguns dos 11 jovens e "contestadores" detidos são fichados por radicalização, detalha Le Parisien. Entre os suspeitos, estão dois assessores parlamentares e um ex‑estagiário do deputado Raphaël Arnault. O jornal fala em uma "deriva extremista" do partido liderado por Jean-Luc Mélenchon, que, segundo o periódico, "não se deu conta da gravidade do drama".
A direita e a extrema direita pedem a demissão de Raphaël Arnault, mas a sigla continua a defender o deputado. Para a LFI, que recusa qualquer responsabilidade pela morte do jovem militante, excluir Arnault seria "abandonar a juventude antifascista", indica La Croix.
Em editorial, Le Figaro enfatiza que parte da esquerda e até alguns macronistas teriam responsabilidade pelo agravamento da violência política no país, por terem permitido o avanço de correntes mais radicais.
O presidente do partido de extrema direita Reunião Nacional, Jordan Bardella, aproveita a crise para acusar a esquerda radical de colocar em risco a democracia e as instituições francesas, numa tentativa de ganhar mais respeitabilidade no cenário nacional.
Instrumentalização
Em manchete de capa, Libération denuncia uma operação de recuperação política da direita conservadora, representada pelo partido Os Republicanos, e da extrema direita, da Reunião Nacional. Segundo o jornal, a agressão mortal do estudante está sendo usada para diabolizar não apenas A França Insubmissa, mas toda a esquerda, numa estratégia voltada para preparar futuras alianças políticas.
A menos de um mês das eleições municipais, a morte de Deranque divide a esquerda. Evitando anunciar rupturas claras enquanto a investigação policial não for concluída, várias lideranças progressistas denunciam a "instrumentalização política" do caso, mas reconhecem que, se a responsabilidade de membros ou ex‑membros da Jeune Garde for confirmada, haverá consequências.
O secretário-geral do Partido Socialista, Olivier Faure, critica a estratégia de confrontação permanente promovida por Mélenchon e afirma que nenhum partido pode tolerar que grupos ativistas passem a agir como "milícias políticas".
Outro efeito devastador da morte do jovem militante nacionalista foi a multiplicação das ameaças de morte contra políticos de esquerda no país, revela Libération.