Brasil, China, Irã, Ucrânia, Dinamarca e mais: veja os países com quem Trump brigou no 1º ano de seu mandato
Relembre as disputas internacionais de Donald Trump ao longo do primeiro ano de seu segundo mandato na Casa Branca
O primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump foi marcado por tensões diplomáticas, guerras tarifárias, ações militares e deterioração de relações com diversos países, refletindo uma política externa isolacionista, expansionista e protecionista conduzida pelos Estados Unidos.
O primeiro ano do segundo mandato do presidente Donald Trump na Casa Branca foi marcado pela implosão do multilateralismo, cujos moldes estabelecidos desde o pós-2ª Guerra Mundial não resistiram à ambição implacável do republicano: a deterioração nas relações com países aliados, o expansionismo e a proteção ao mercado interno definiram a política externa dos primeiros 365 dias de Trump à frente do governo dos Estados Unidos.
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Nesta terça-feira, 20, Donald Trump completa um ano em seu segundo mandato como presidente de uma das maiores potências globais.
Em 2025, Trump se afastou de aliados históricos, impondo o ritmo isolacionista dos EUA frente à comunidade européia com tarifas e ameaças; deu início a guerras comerciais e elevou as tensões contra a China; posicionou os Estados Unidos como ‘xerife’ mundial, mediando conflitos regionais; e abriu espaço para o expansionismo, usando a segurança nacional como justificativa para executar ações extrajudiciais ao redor do globo.
A campanha para o segundo mandato à Casa Branca foi marcada por promessas como a de ‘acabar com a guerra na Ucrânia em menos de 24 horas’. Nesse caso, a realidade se mostrou avessa à vontade do republicano, uma vez que o conflito, iniciado em fevereiro de 2022, está longe de uma conclusão.
No Oriente Médio, um frágil cessar-fogo entre Israel e Hamas não é capaz de esconder as violações sofridas pelo povo palestino que, no mesmo mês em que o acordo foi assinado, sofreram uma quantidade recorde de ataques.
No âmbito do comércio exterior, o discurso inaugural de Trump deu o tom da realização de promessas feitas em campanha: “Serão enormes quantidades de dinheiro provenientes de fontes estrangeiras, e o sonho americano estará de volta e prosperando como nunca”.
Os mercados mundiais sentiram o maior peso da declaração em abril de 2025, quando o governo dos EUA anunciou a imposição de tarifas a todos os parceiros comerciais, em diferentes níveis: 10% para os países da América Latina, 20% para os europeus e 30% para a Ásia. Em setembro, o Brasil acabou sancionado em 50%, em uma resposta do governo norte-americano ao julgamento de Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.
Veja, a seguir, alguns dos destaques nas relações internacionais do primeiro ano de Trump 2:
Ameaças aos vizinhos
A mudança do nome do Golfo do México para Golfo da América, assinada em Ordem Executiva ainda em 20 de janeiro, por ocasião da posse presidencial, traduz o projeto de Trump de ter a América Latina – e, por que não, o Canadá? –, como quintal dos EUA.
Na fronteira ao Norte, o presidente chamou o Canadá de ‘51º Estado’ dos EUA e Justin Trudeau, à época primeiro-ministro, de seu governador. Com um ‘vai e vem’ na aplicação e retirada de tarifas aos canadenses, o republicano chegou a enfatizar que o vizinho poderia se livrar das sanções caso aceitasse a anexação.
O sucessor de Trudeau, Mark Carney – assim como outros líderes que estão sob a ‘mira’ do presidente dos EUA –, destacou: “O Canadá não está à venda”.
Já no Sul, Trump intensificou as fiscalizações na fronteira com o México com a implementação de tropas e a extinção de programas de imigração. O republicano também lançou um processo para identificar cartéis de drogas mexicanos e outras organizações criminosas como organizações terroristas internacionais, além de ameaçar o território com intervenção militar, sob a justificativa de conter o tráfico ao território estadunidense.
O Panamá também esteve no centro das declarações de Trump, que, desde o fim de 2024, ameaçou retomar o controle do Canal sob a justificativa de ‘influência da China’: “A China está a operar o Canal do Panamá. E não demos para a China. Demos-o ao Panamá e vamos retirá-lo”, declarou em seu primeiro discurso.
A possibilidade de consequências levou o governo panamenho a não renovar contratos com iniciativas chinesas de exploração do canal marítimo. A pressão provocada por tarifas e a possibilidade de perder o Canal levou o País da América Central a, também, receber estrangeiros deportados pelos EUA de diferentes nacionalidades.
Expansão da zona de influência na América do Sul
Abaixo dos trópicos, Trump adotou a prática sobre a ameaça: a mais recente, logo no dia 3 de janeiro, foi uma ação militar em Caracas, na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, gerando forte repercussão internacional, mas sem qualquer consequência ao governo dos Estados Unidos.
Enquanto os líderes venezuelanos seguem presos em Nova Iorque e devem responder por acusações que incluem narcoterrorismo, Trump chegou a se colocar como ‘presidente interino’ da Venezuela, a despeito da posse da vice Delcy Rodríguez. Os EUA também passaram a gerir as reservas de petróleo do país invadido.
A ação foi antecedida pela presença crescente das Forças Armadas dos Estados Unidos no Caribe: sob o Comando Sul, o país já mantinha mais de 15 mil tropas na região até novembro de 2025. Durante a ocupação, mais de 100 pessoas foram mortas em ataques aéreos dos EUA contra supostas embarcações ligadas ao narcotráfico.
O Brasil também foi um dos maiores afetados pela política externa de Donald Trump: além das tarifas de 10% sobre todas as exportações aos EUA, o país também foi sancionado com uma tarifa adicional de 50%, em uma resposta do governo norte-americano ao julgamento de Jair Bolsonaro (PL) por golpe de Estado.
A ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente brasileiro foi chamada por Trump de ‘caça às bruxas’. O movimento, no entanto, aproximou o Brasil à China e a outros membros do BRICS. A sanção também levou a uma rara reação do Senado dos EUA às ações de Trump, com a aprovação de um ato que derrubaria as tarifas contra o Brasil.
A animosidade frente ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve uma baixa após o encontro dos presidentes na 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro passado. Na ocasião, após um rápido encontro, Trump declarou ter tido uma ‘boa química’ com o colega brasileiro.
Acusação de genocídio branco na África do Sul
Desde o início do segundo mandato de Trump, o governo dos Estados Unidos se colocou contra o que chamou de ‘genocídio’ da minoria branca da África do Sul, citando uma lei de reforma agrária que busca corrigir a herança da segregação racial do país que confinou as maiorias negras em pequenos territórios por décadas, durante e após o apartheid.
A relação entre os países se deteriorou e o governo dos EUA cessou todo o apoio ao desenvolvimento da África do Sul. Em uma reunião no Salão Oval da Casa Branca, em maio de 2025, Trump criticou publicamente o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa pelas políticas de reforma agrária.
No encontro, o líder americano mostrou fotos de pessoas mortas e alegou que eram fazendeiros brancos da África do Sul que haviam sido assassinados por negros, mas as imagens, na verdade, eram de trabalhadores humanitários removendo sacos com corpos na República Democrática do Congo
Imposição da força no Oriente Médio
A campanha de Trump para ser considerado um mediador de conflitos voltou os olhos do governo estadunidense ao conflito entre Israel e Hamas na região de Gaza. Um cessar-fogo chegou a ser anunciado poucos dias antes da posse do republicano, mas a paz temporária chegou ao fim em março de 2025, com o lançamento de ataques aéreos de Israel sobre o território palestino, autorizados pelos EUA.
O presidente norte-americano chegou a anunciar que seu país tomaria posse da Faixa de Gaza, sugerindo a realocação de palestinos para a reconstrução do território. O plano para a ‘Riviera do Oriente Médio’ foi condenado pela comunidade internacional pelo caráter de limpeza étnica.
Com a pressão mundial sobre as condições sub-humanas do povo palestino, Trump anunciou, em setembro, um plano de paz para Gaza. A iniciativa de 20 etapas consistia, entre outras medidas, na libertação de reféns, na desmilitarização do Hamas e na implementação de um governo transitório da Faixa de Gaza, liderado por entidades árabes. O cessar-fogo foi assinado por Israel e Hamas em outubro.
Assim como a Venezuela, o Irã também foi alvo direto de ações militares dos Estados Unidos durante o primeiro ano do governo Trump. Sob o discurso de que o país estaria dando continuidade à produção armamentista nuclear, o republicano passou a negociar por um acordo pelo fim do programa.
Sem sucesso, os EUA lançaram um ataque aéreo contra instalações militares iranianas em junho. Trump também ameaçou o Irã com novos ataques caso o país continuasse com a produção de urânio enriquecido, matéria-prima para a produção de armas nucleares.
Em resposta aos protestos que se incendiaram no Irã entre 2025 e 2026, resultando na morte de milhares de manifestantes, o governo de Trump também ameaçou intervir no governo árabe caso não cessasse a violência contra as manifestações.
Mediação sem sucesso entre Rússia e Ucrânia
“Meu maior legado será o de um pacificador e unificador”, disse Trump em seu discurso inaugural, após declarar que encerraria o conflito entre Rússia e Ucrânia em 24 horas, durante a campanha à Presidência. Um ano depois, o republicano se viu envolvido em discussões com lideranças e frente à indiferença de Vladimir Putin.
Após a posse, Trump subverteu a ordem das relações diplomáticas com a Ucrânia mantidas durante o governo de Joe Biden, que cedeu bilhões de dólares ao país governado por Volodymyr Zelensky em apoio durante o conflito, e passou a liderar as negociações por um cessar-fogo.
Além de pressionar Putin por um acordo com a Ucrânia, Trump também acusou o presidente ucraniano de ingratidão pelo apoio bélico e financeiro dos EUA no conflito. A reunião realizada em fevereiro de 2025, que tinha como objetivo a assinatura de um acordo para exploração de terras raras no território de Kiev, terminou em bate-boca e sem sucesso.
O apoio financeiro chegou a ser suspenso por um mês, entre fevereiro e março de 2025, após a Ucrânia aceitar um cessar-fogo. No entanto, ataques russos à Kiev deram fim ao acordo e reacenderam o conflito na região.
Em meio a ameaças de imposição de sanções e tarifas, Trump e Putin se encontram para negociar um acordo em agosto, no Alasca. O encontro, no entanto, não resultou em nenhuma medida concreta para pôr fim à guerra.
Guerra tarifária contra a China
A busca por recursos externos e o fortalecimento da economia levou os Estados Unidos a travarem uma guerra comercial com a China a partir de abril de 2025. Em resposta às imposições americanas, o governo de Xi Jinping instituiu uma tarifa de 34% aos bens estadunidenses, o que levou Trump a reagir.
O presidente dos EUA justificou a sanção como combate à crise provocada pela droga fentanil no país. Em retaliação, a China suspendeu a exportação de metais raros, essenciais para a produção de microchips e outras tecnologias.
Conforme os governos trocavam sanções e contramedidas, as tarifas de Trump ao governo Xi passaram para 145%, enquanto as chinesas sobre os produtos estadunidenses chegaram a 125%. Em 10 de maio, após uma reunião em Genebra, Trump anunciou o ‘reinício’ das relações comerciais entre EUA e China.
O conflito escalou e atingiu estudantes chineses baseados nos EUA com a suspensão e revogação de vistos, especialmente para aqueles ligados ao Partido Comunista da China e matriculados em cursos de áreas consideradas críticas.
O território de Taiwan também se envolveu na crise política entre as potências, por seu papel como produtor de semicondutores: enquanto era acusado pela influência estadunidense pelo governo chinês, foi atacado pela dominância sobre a indústria norte-americana de tecnologia.
Anexação da Groenlândia
Sob a justificativa de segurança nacional, Donald Trump intensificou as discussões sobre uma possível anexação da Groenlândia, território autônomo que pertence à Dinamarca, aliada dos Estados Unidos na OTAN, especialmente após a invasão à Venezuela.
Stephen Miller, chefe de Gabinete da Casa Branca, se manifestou nas redes sociais após a operação em Caracas e defendeu que os EUA teriam o direito de tomar a Groenlândia. Sua esposa, Katie Miller, publicou uma imagem do território, coberto com a bandeira dos EUA, e escreveu: “Em breve”.
Em 6 de janeiro de 2026, o governo Trump declarou que poderia fazer uso da força para tomar o controle do território. Planos para ações militares começaram a ser discutidos, gerando forte reação da União Europeia.
“De um jeito ou de outro, nós teremos a Groenlândia”, declarou Trump no dia 12 de janeiro. O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, rebateu que o território não tem interesse em fazer parte dos EUA. Já o republicano debochou, dizendo que não reconhecia o colega.
Ainda no primeiro mês de 2026, Trump anunciou tarifas de 10% contra oito países europeus para pressionar pela cessão do território. Já nesta segunda-feira, 19, Trump enviou uma carta ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store, e afirmou que ‘já não precisa pensar apenas na Paz' após ter sido ignorado pelo Prêmio Nobel da Paz.



