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Coreia do Norte: documentário revela 'comércio de armas' às escondidas

Um novo documentário — com estranho elenco — revela como Coreia do Norte tenta escapar de sanções ao mostrar integrantes do regime assinando falsos acordos de armas.

12 out 2020
08h32
atualizado às 09h03
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Um novo documentário com um estranho elenco de personagens diz mostrar como a Coreia do Norte tenta burlar sanções internacionais ao enganar integrantes do regime secreto de Kim Jong-un para que assinem falsos acordos de armas.

O filme traz uma variedade curiosa de pessoas: um chef dinamarquês desempregado e fascinado por ditaduras comunistas; um nobre espanhol e propagandista norte-coreano com uma queda por uniformes militares; e um ex-legionário francês e traficante de cocaína condenado que faz o papel de um misterioso aventureiro com várias conexões internacionais.

Mas isso tudo é verdade ou ficção?

Bandeira da Coreia do Norte
Bandeira da Coreia do Norte
Foto: Denis Balibouse / Reuters

Um ex-funcionário da ONU disse à BBC que considerou o filme "altamente confiável". O documentário, intitulado The Mole (O Informante, em tradução livre), é obra do cineasta independente dinamarquês Mads Brügger, que diz ter orquestrado uma complexa operação de três anos para revelar como a Coreia do Norte desrespeita a lei internacional.

O chef desempregado e fascinado por ditaduras comunistas é Ulrich Larsen, que, com a ajuda de Brügger, se infiltra na Associação de Amizade Coreana (KFA), um grupo pró-regime com sede na Espanha. Larsen sobe na hierarquia e acaba conquistando a confiança de funcionários do governo norte-coreano.

A filiação ao KFA coloca Larsen em contato com seu extravagante fundador e presidente, Alejandro Cao de Benós, um nobre espanhol conhecido em todo o mundo como "o Guardião da Coreia do Norte".

Durante o filme, em que às vezes é visto com uniforme militar norte-coreano, Cao de Benós se gaba de seu acesso e influência ao regime de Pyongyang.

Depois, surge Jim Latrache-Qvortrup, descrito como um ex-legionário francês e traficante de cocaína condenado. Latrache-Qvortrup é um ator contratado para fazer o papel de traficante internacional de armas, o que ele faz usando uma variedade de ternos chamativos.

Quem dá as cartas no filme é o diretor, Mads Brügger, que se autodenomina "o mestre das marionetes". Ele afirma ter passado 10 anos trabalhando em seu filme — uma produção conjunta da BBC com emissoras escandinavas.

O filme é engraçado, grotesco e, às vezes, quase inacreditável.

"Sou um cineasta que anseia por sensações", admite Brügger no filme.

Mas Hugh Griffiths, que foi coordenador do Painel de Especialistas da ONU sobre a Coreia do Norte entre 2014 e 2019, chamou as revelações do filme de "altamente críveis".

"Este filme é o constrangimento mais severo para o presidente Kim Jong-un que já vimos", disse Griffiths. "Só porque parece amador, não significa que não haja intenção de vender e ganhar receita em moeda estrangeira [com venda de armas]. Elementos do filme realmente correspondem ao que já sabemos."

A Coreia do Norte está sob sanções da ONU desde 2006 por causa de suas ambições nucleares — o desenvolvimento e testes de seu programa nuclear foram documentados em relatórios regulares de um Painel de Especialistas desde 2010.

Mas é algo inédito ver autoridades norte-coreanas, em filme, discutindo como escapar de sanções para a exportação de armas.

Em um momento crucial do filme, Ulrich Larsen, o ex-chef e "informante" do título, filma Jim Latrache-Qvortrup, também conhecido como "Mr James" (o traficante de armas) assinando um contrato com o representante de um fábrica norte-coreana de armas, com a presença de funcionários do governo.

O encontro ocorre em um restaurante espalhafatoso no subsolo de um subúrbio de Pyongyang. Nem todos os coreanos presentes estão devidamente identificados e, mais tarde, dando risada, Latrache-Qvortrup lembra que teve que inventar um nome de empresa quando interrogado por um dos funcionários coreanos.

Parece incrível que a equipe não tivesse pensado antes em um detalhe tão básico, assim como desafia a credulidade pensar que autoridades coreanas genuínas permitiriam que tal reunião fosse filmada e que documentos fossem assinados e trocados.

O documento assinado traz a assinatura de Kim Ryong-chol, presidente da Narae Trading Organization.

Narae é um nome comum na Península Coreana, mas o relatório mais recente do Painel de Peritos da ONU, datado de 28 de agosto de 2020, diz que uma empresa chamada Korea Narae Trading Corporation "está envolvida em atividades relacionadas à evasão de sanções com o objetivo de gerar receita que apoia as atividades proibidas da República Popular Democrática da Coréia".

Coreia do Norte enfrenta sanções da ONU por causa de seu programa nuclear
Coreia do Norte enfrenta sanções da ONU por causa de seu programa nuclear
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Griffiths, o ex-funcionário da ONU, disse que os coreanos presentes aparentemente estavam dispostos a negociar com um empresário da iniciativa privada sobre o qual nada sabiam. "Isso mostra que as sanções da ONU estão funcionando. Os norte-coreanos estão claramente desesperados para vender suas armas", disse ele.

Em um determinado momento, durante uma reunião em Kampala, Uganda, em 2017, Latrache-Qvortrup é questionado por "Sr. Danny" (descrito como um "traficante de armas norte-coreano") se ele seria capaz de entregar armamentos norte-coreanos à Síria. A pergunta reflete a dificuldade crescente da Coreia do Norte em fazer isso por conta própria, disse Griffiths.

"Mr James" está em Uganda, acompanhado por alguns dos mesmos funcionários norte-coreanos vistos em Pyongyang, para discutir a compra de uma ilha no Lago Vitória.

As autoridades ugandenses são informadas que é para a construção de um resort de luxo, mas James e os coreanos planejam secretamente construir uma fábrica subterrânea para fabricar armas e drogas.

Novamente, parece fantástico, mas a Coreia do Norte já fez esse tipo de coisa antes. O regime construiu uma fábrica de munições em uma mina de cobre desativada no Vale do Leopardo, na Namíbia. Eles fingiam estar no país para construir estátuas e monumentos.

As atividades da Coreia do Sul Mining Development Trading Corporation (Komid) foram investigadas pelo Painel de Especialistas da ONU entre 2015 e 2018. A pressão da ONU sobre a Namíbia ajuda a explicar por que os norte-coreanos passaram a atuar na Uganda em vez da Namíbia, disse Griffiths.

"Os projetos norte-coreanos na Namíbia foram encerrados", disse o ex-funcionário da ONU. "Em 2018, Uganda era um dos poucos países africanos (...) onde os negociadores norte-coreanos de armas ainda podiam viajar à vontade."

Outro aspecto do filme que interessa aos observadores internacionais é o aparente envolvimento de diplomatas norte-coreanos credenciados em embaixadas no exterior para ajudar em iniciativas para burlar sanções da ONU. Em uma sequência, Ulrich Larsen visita a embaixada da Coreia do Norte em Estocolmo, onde recebe um envelope com os planos para o projeto em Uganda de um diplomata descrito como "Sr. Ri".

Como muitas das cenas principais do documentário, o encontro é filmado secretamente por Larsen. Ao sair, o Sr. Ri o avisa para ser discreto.

"Se algo acontecer, a embaixada não sabe nada sobre isso, ok?", diz o Sr. Ri.

De acordo com Griffiths, a sequência "se encaixa em um padrão".

"A grande maioria das investigações de sanções pelo Painel da ONU descobriu que as instalações diplomáticas norte-coreanas ou os detentores de passaportes estavam envolvidos nas violações reais ou tentadas", disse ele.

Nenhum dos negócios discutidos no filme jamais se concretizou. Eventualmente, conforme os sócios começam a exigir dinheiro, Brügger faz o "Sr. James" desaparecer. Os cineastas dizem que suas evidências foram apresentadas à embaixada da Coreia do Norte em Estocolmo, mas não houve resposta.

Cao de Benós, o fundador do KFA, disse que estava apenas "encenando" para as câmeras e que o filme era "enviesado, encenado e manipulador".

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