Ascensão da Índia redefine a estratégia econômica do Ocidente
Diante da crescente incerteza nos mercados chinês e norte‑americano, a Índia se consolida como o novo polo de atração para os investimentos ocidentais. Impulsionado por um forte crescimento econômico e por um mercado interno em rápida expansão, o país desperta o interesse da Europa, que o vê como um parceiro mais complementar e menos competitivo do que a China.
Aída Palau, da RFI em Paris
Empresas europeias, estimuladas pela demanda indiana em setores como infraestrutura, tecnologia, energia e defesa, buscam se estabelecer no país. Ao mesmo tempo, Nova Délhi tem favorecido cada vez mais alianças com atores europeus, reduzindo sua dependência tradicional de China e Rússia.
Com a crescente incerteza nos mercados chinês e norte‑americano, a Índia desponta como o novo polo de atração para investimentos ocidentais. O país, que cresce de forma consistente e abriga um mercado interno em rápida expansão, passou a ocupar um espaço estratégico para empresas europeias em busca de alternativas mais estáveis e complementares. A avaliação é de Alicia García-Herrero, economista‑chefe para Ásia‑Pacífico no banco Natixis, que analisa a mudança de rota das potências econômicas.
Segundo a economista, tanto a China quanto os Estados Unidos deixaram de oferecer previsibilidade aos investidores. No caso chinês, a competição interna se tornou tão intensa que até empresas locais têm dificuldade para manter margens de lucro. "É um mercado onde já não se ganha dinheiro, a concorrência é brutal, nem mesmo as empresas chinesas conseguem lucrar. É o que chamamos de 'involução': vendem, mas quase sem margem, às vezes até com prejuízo. Já nos Estados Unidos, o problema é a política altamente protecionista de Trump, que gera enorme incerteza. Lá, não é uma questão de margens, mas de perspectivas de negócio", afirmou.
Diante desse cenário, a Índia surge como o maior mercado promissor do mundo. Sua economia já se aproxima do tamanho da japonesa e deve ultrapassá‑la em breve, impulsionada por um crescimento anual próximo de 7%. Para García-Herrero, empresas globais estão se posicionando para aproveitar esse potencial, especialmente porque o mercado indiano é essencialmente doméstico, ao contrário da China.
"O mercado interno indiano é diferente do chinês: a China também era uma plataforma de exportação, enquanto a Índia tem mais dificuldade nisso; é sobretudo um mercado doméstico. Por isso, as empresas querem investir lá para vender diretamente ao consumidor indiano", resumiu, em entrevista à RFI.
Um parceiro mais complementar que a China
A economista destaca que a Índia se tornou um parceiro mais confiável para a Europa não por razões ideológicas, mas por complementaridade econômica. Enquanto a China produz praticamente os mesmos bens que a Europa e compete diretamente com ela em mercados globais, a Índia ainda não possui a mesma capacidade industrial. Isso a torna dependente de importações de máquinas, produtos químicos e peças automotivas, setores nos quais a Europa é forte.
"O problema é que, hoje, a Índia importa muito mais tudo isso da China do que da Europa", explicou a economista.
A expectativa europeia é que um acordo de livre‑comércio com Nova Délhi possa melhorar o acesso das empresas do continente, embora competir com os preços chineses continue sendo um desafio. A Índia, porém, tem um incentivo estratégico para diversificar fornecedores: não quer depender de seu vizinho e rival, com quem mantém uma fronteira historicamente tensa.
Setores estratégicos para a Europa
Embora a Europa não consiga competir com a China em preço no setor de energias renováveis, segmento crucial para a Índia, há uma vantagem importante: Nova Délhi prefere investimentos diretos europeus a grandes projetos controlados por empresas chinesas.
"Tudo o que a Europa fez na China pode voltar a fazer na Índia. Talvez não exportem tanto no início, como aconteceu com a China, mas o mercado indiano já é enorme, então isso não é um problema", afirma García-Herrero, referindo‑se à criação de cadeias de produção locais.
A infraestrutura é um dos setores mais promissores. Empresas espanholas, por exemplo, já se comprometeram a investir em estradas e rodovias, áreas em que a Índia ainda está muito atrás da China e carece de grandes construtoras nacionais.
Para a França, a aviação e a energia nuclear são os principais trunfos. A Airbus, liderada pela França dentro do consórcio europeu, vê na Índia um mercado em expansão. Além disso, a necessidade indiana de reduzir a dependência energética da China abre espaço para a cooperação em energia nuclear. O setor de defesa também é estratégico: a Índia busca diminuir sua dependência da Rússia, e a França tem se posicionado como fornecedora de equipamentos militares de alta tecnologia.
Para García-Herrero, a Índia vê a Europa como um parceiro menos conflituoso e mais confiável do que China ou Rússia, o que cria uma janela de oportunidade rara para o bloco europeu.