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América Latina

'Se o Brasil tivesse pressionado Maduro, cenário poderia ser outro', diz especialista

Para Gabriel Petrus, professor da universidade Sciences Po, em Paris, e especialista em relações internacionais e negociações globais, a crise aberta pela prisão de Nicolás Maduro nos Estados Unidos poderia ter sido evitada se o Brasil e outros países tivessem sido mais incisivos na cobrança por eleições livres na Venezuela. "Se o Brasil tivesse pressionado Maduro a sair do poder ou a fazer uma transição democrática, talvez não estivéssemos diante dessa situação", disse em entrevista à RFI.

6 jan 2026 - 10h15
(atualizado às 13h36)
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Petrus avalia que a captura de Nicolás Maduro por forças norte‑americanas em Caracas criou um precedente de difícil reversão. Para ele, a operação ultrapassou uma linha vermelha ao normalizar uma ação militar direta em um contexto que, há duas ou três décadas, teria provocado rejeição internacional muito mais ampla.

O professor associa esse movimento a uma mudança no ambiente global, marcado por maior tolerância a decisões unilaterais e pelo enfraquecimento de consensos multilaterais. "É difícil, depois da criação desse precedente militar, voltar atrás. A normalização que a gente vê hoje de ações que antes seriam consideradas absurdas indica uma tentativa de explorar essas oportunidades."

Petrus avalia que a captura de Nicolás Maduro por forças norte‑americanas em Caracas criou um precedente de difícil reversão. Para ele, a operação ultrapassou uma linha vermelha ao normalizar uma ação militar direta em um contexto que, há duas ou três décadas, teria provocado rejeição internacional muito mais ampla.

O professor associa esse movimento a uma mudança no ambiente global, marcado por maior tolerância a decisões unilaterais e pelo enfraquecimento de consensos multilaterais. "É difícil, depois da criação desse precedente militar, voltar atrás. A normalização que a gente vê hoje de ações que antes seriam consideradas absurdas indica uma tentativa de explorar essas oportunidades."

Fragmentação global e cálculo estratégico

Na leitura de Petrus, a decisão do presidente Donald Trump deve ser entendida à luz de um mundo profundamente fragmentado, inclusive no interior de organizações tradicionais. Segundo ele, a erosão da coesão em instâncias como a União Europeia e a Otan cria um ambiente em que o uso da força ganha peso desproporcional nas relações internacionais.

"Vivemos um cenário de fragmentação muito grande. Nesse contexto, o jogo da força, infelizmente, pesa mais do que deveria", afirmou, acrescentando que a intervenção na Venezuela se insere numa estratégia de afirmação geopolítica mais ampla.

A janela energética e o risco de concentração

Na avaliação de Petrus, a dimensão energética é central para entender a operação americana. A Venezuela é o país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, ainda em grande parte não exploradas, sobretudo em razão da nacionalização do setor ao longo de mais de quatro décadas. Para o professor, uma eventual mudança de regime pode alterar profundamente as regras do jogo e reabrir o país à exploração por empresas estrangeiras.

"A Venezuela participou da fundação da Opep e nacionalizou o petróleo de forma soberana. Hoje, uma possível mudança de regime pode significar também uma mudança das regras, com a reabertura da exploração para empresas multinacionais", afirmou.

Petrus pondera, no entanto, que não está claro se essa abertura resultaria em concorrência efetiva ou em uma concentração de poder econômico sob liderança americana. "A questão é saber se, de fato, outras empresas poderão concorrer — como a Petrobras, no Brasil, ou a Total, na França — ou se os Estados Unidos vão criar uma espécie de monopólio desses bens naturais", disse.

Segundo ele, a dúvida está diretamente ligada à nova doutrina de política externa anunciada recentemente por Trump. "A política externa americana passou a privilegiar explicitamente os interesses estratégicos dos Estados Unidos, incluindo o domínio de recursos naturais considerados essenciais para a segurança nacional."

Para Petrus, esse reposicionamento explica por que a Venezuela se tornou um alvo central. "Estamos falando de um país com um potencial de exploração de petróleo talvez único hoje, justamente porque esse recurso ficou nacionalizado por décadas. A mudança política ali tem implicações que vão muito além da democracia ou da geopolítica regional."

No Congresso americano, parlamentares democratas e republicanos exigem explicações sobre a legalidade da operação, os custos envolvidos e, principalmente, sobre o que os Estados Unidos pretendem fazer com a Venezuela a partir de agora.

Multilateralismo sob pressão e o 'dia seguinte'

Petrus define o momento atual como um "momento de perigo" para a ordem internacional, não apenas pela operação na Venezuela, mas pelo acúmulo de crises que enfraquecem o multilateralismo. Ainda assim, defende que organizações internacionais seguem sendo insubstituíveis na gestão de transições políticas.

"Não podemos perder a esperança nas organizações internacionais. No final do dia, elas são as mais bem posicionadas para encontrar saídas para conflitos e vácuos de poder", afirmou.

Como referência, ele cita a crise haitiana de 2004, quando a ONU, com apoio de países como Brasil, França e Canadá, criou a Minustah para estabilizar o país e organizar novas eleições. No caso venezuelano, Petrus considera que ONU e OEA poderiam desempenhar papel semelhante na reconstrução institucional e no desenho de um processo eleitoral legítimo. 

Trump afastou a ideia de qualquer eleição na Venezuela nos próximos 30 dias, afirmando em entrevista à NBC que os Estados Unidos precisam "primeiro colocar o país de pé".

O papel do Brasil

Para o professor, o Brasil reúne condições políticas, diplomáticas e econômicas para pesar no cenário atual. Além de dividir uma das maiores fronteiras terrestres com a Venezuela, o país foi um investidor relevante e tem assento em fóruns decisivos.

Ele defende que Brasília busque articulações regionais, especialmente com a Colômbia, e construa uma coalizão ampliada com parceiros europeus. A União Europeia, observa, também vive tensões internas e não respondeu de forma uníssona à operação americana, mas isso não reduz o espaço para iniciativas diplomáticas conjuntas.

Risco de interferência política e impacto eleitoral

Petrus alerta que, uma vez ultrapassada a linha militar, o risco de interferência política externa cresce, inclusive por meio de ações indiretas, como financiamentos de partidos políticos e campanhas de influência. "Depois de uma intervenção militar desse tipo, uma intervenção política não é algo impensável", afirmou.

No Brasil, que vive um ano eleitoral, ele acredita que o episódio venezuelano será explorado no debate político. De um lado, como reforço da defesa do multilateralismo e da não intervenção; de outro, como argumento de que o país não teria feito o suficiente para pressionar por uma transição democrática na Venezuela antes das eleições de 2024, consideradas fraudadas.

"Talvez o Brasil pudesse ter feito mais como liderança regional para cobrar uma mudança. Esse argumento certamente vai aparecer no debate eleitoral", concluiu.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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