Geopolítica da conectividade: cabos submarinos no centro da disputa entre potências
O mundo discute guerras, eleições e sanções, mas quase ninguém fala do que talvez seja a artéria mais sensível da economia global de hoje: os cabos submarinos de dados e a forma como os Estados Unidos estão, pouco a pouco, tratando essa infraestrutura como uma questão de segurança. É um tema que parece técnico demais para o noticiário diário, mas seu impacto potencial sobre finanças, comércio, inovação e poder geopolítico é enorme.
Thiago de Aragão, analista político
Quase todo o tráfego internacional de dados passa por fibras ópticas enterradas no fundo dos oceanos. Não é uma figura de estilo. São transações financeiras, mensagens diplomáticas, backups de nuvem, videoconferências entre multinacionais, treinamento de modelos de inteligência artificial. Em grande parte, esses cabos pertencem a consórcios onde empresas americanas de tecnologia e telecomunicações têm peso significativo, e muitos pontos de aterragem estão em território sob jurisdição direta ou indireta dos Estados Unidos. O que antes parecia um detalhe de infraestrutura virou uma alavanca estratégica.
Com o aumento da rivalidade entre grandes potências, cabos submarinos deixaram de ser apenas um negócio de engenharia marinha para se tornarem potencial alvo de operações de espionagem, sabotagem e pressão política. Episódios recentes no Báltico e em regiões próximas a pontos sensíveis do Indo Pacífico acenderam luzes amarelas em governos e serviços de inteligência. A vulnerabilidade é óbvia. Poucos ativos concentram tanto valor e, ao mesmo tempo, são tão difíceis de proteger continuamente em termos físicos. No limite, cortar ou danificar um cabo crítico entre dois continentes pode ter impacto econômico imediato maior que a interrupção de um oleoduto.
A resposta de Washington tem sido silenciosa, mas consistente. Agências regulatórias e órgãos de segurança passaram a olhar para licenças de operação, participação societária em projetos de cabos e localização de pontos de aterragem com uma lente de segurança nacional. Projetos com participação de capitais classificados como "adversários estratégicos" enfrentam hoje muito mais escrutínio. Em paralelo, cresce a ideia de que atacar ou manipular cabos de forma deliberada deve ser enquadrado como ato hostil de alta gravidade, com espaço para sanções, retaliações e até cláusulas de defesa coletiva entre aliados.
Malha de cabos dos EUA
O resultado é que a geopolítica da conectividade caminha para algo parecido com o que já se viu na energia e na vigilância de rotas marítimas tradicionais. Só que em vez de oleodutos e gargalos de navegação, entram em cena mapas de cabos, consórcios tecnológicos e data centers costeiros. Os Estados Unidos tendem a consolidar um papel de núcleo de um "bloco de dados" ocidental, onde parceiros aceitam padrões de segurança, interceptação e compartilhamento de informações em troca de acesso estável a capacidade de transmissão e a ecossistemas de nuvem de alta performance.
Para a Europa, o Japão, partes da América Latina e da região Indo Pacífico, essa ancoragem pode ser vista como seguro geopolítico. Estar plugado em uma malha de cabos sob guarda estratégica americana reduz a probabilidade de interrupções catastróficas e garante proximidade com os grandes provedores de serviços digitais e financeiros. Mas também implica um grau maior de exposição a instrumentos de pressão que passam a ir além de sanções financeiras. Se hoje a exclusão de sistemas de pagamento em dólar é a arma preferida, amanhã poderá ser a priorização ou restrição de rotas de dados críticas em situações extremas.
Rivais dos EUA aceleram seus próprios projetos de cabos
Do outro lado, rivais dos Estados Unidos aceleram seus próprios projetos de cabos, consórcios alternativos e rotas que evitem pontos de estrangulamento controlados por Washington ou seus aliados. Isso cria uma tendência de fragmentação da internet física, uma espécie de multipolaridade de infraestrutura. Em vez de uma rede verdadeiramente global, tende a surgir um mosaico de "esferas de dados" em que trânsito, armazenamento e processamento obedecem a padrões jurídicos e de segurança distintos, muitas vezes incompatíveis entre si. Para empresas multinacionais, bancos e plataformas digitais, navegar esse ambiente será cada vez mais complexo.
Há ainda um componente financeiro que passa quase despercebido. Mercados de capitais, moedas e commodities dependem de latência mínima e comunicação estável. Uma boa parte da eficiência dos mercados globais vem da capacidade de negociar, arbitrar e compensar posições em milissegundos entre centros financeiros separados por oceanos. Essa sincronização é literalmente sustentada por cabos submarinos. Qualquer reconfiguração dessa infraestrutura por razões geopolíticas, seja por novas exigências regulatórias, seja por decisões estratégicas de empresas de tecnologia e governos, tem impacto direto sobre custos de transação, liquidez e formação de preços.
Para investidores, isso abre um campo pouco explorado de risco e oportunidade. Há o risco operacional óbvio, ligado a interrupções e ataques. Mas há também riscos regulatórios e de fragmentação, capazes de redesenhar fluxos de dados e de capital no médio prazo. Ao mesmo tempo, empresas envolvidas em construção, manutenção, segurança e monitoramento de cabos tendem a ganhar importância estratégica. De certo modo, são o equivalente moderno de construtoras de ferrovias do século XIX ou de grandes players de energia no século XX, só que com muito menos visibilidade pública hoje.
Controlar acesso ao "encanamento" de dados
Do ponto de vista dos Estados Unidos, a securitização dos cabos submarinos é coerente com uma visão mais ampla de poder. Em um mundo em que o uso geopolítico da moeda americana já gera reação de parceiros e rivais, a infraestrutura digital surge como segundo pilar de influência estrutural. Controlar ou condicionar acesso ao "encanamento" de dados confere vantagens em termos de inteligência, defesa, regulação e, em última instância, capacidade de impor custos a adversários. A linha entre política industrial, política de concorrência tecnológica e política de segurança nacional tende a ficar cada vez mais difusa.
O tema permanece discreto justamente porque os grandes debates públicos se concentram em conteúdos e plataformas, não na camada física da rede. Discute-se moderação de discurso, privacidade, algoritmos de recomendação, inteligência artificial. Pouco se discute quem desenha a malha de cabos que torna tudo isso possível e quais critérios geopolíticos guiam essas decisões. Para quem observa o cenário estratégico de médio prazo, essa é uma zona cinzenta interessante. Silenciosa, técnica, invisível ao usuário comum, mas muito próxima do coração do sistema.
Em um momento em que todos parecem olhar para drones, semicondutores e baterias, vale a pena voltar os olhos para o fundo do oceano. É ali que se decide boa parte da resiliência e da vulnerabilidade do sistema que sustenta o comércio, as finanças, a comunicação e a própria capacidade de projetar poder dos Estados Unidos e de seus parceiros. Quem ignorar essa camada provavelmente será surpreendido pela próxima crise que não virá pelas manchetes, mas pelo súbito silêncio dos cabos.