Bad Bunny 'é uma espécie de antítese cultural do poder atual nos EUA', diz especialista
Donald Trump qualificou neste domingo (8) o show de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl como "uma afronta à grandeza da América". O cantor porto-riquenho evitou mencionar o presidente americano ou sua política migratória durante a apresentação, que transmitiu uma mensagem de unidade para o continente americano. Ao cantar em espanhol, o artista transforma o palco pop em tribuna de resistência cultural, afirma à RFI Ons Barnat, etnomusicólogo e professor da Universidade de Quebec, em Montreal.
Por Yann le Ny, da redação da RFI em Paris
Bad Bunny se apresentou no Super Bowl neste domingo, em Santa Clara, na Califórnia, uma semana depois de ganhar o Grammy de Álbum do Ano. Após sua performance ao lado de artistas como Lady Gaga e Ricky Martin, o cantor porto-riquenho, vestido inteiramente de branco, exibiu uma bola oval com as palavras: "Juntos, nós somos a América".
No fim do show, bandeiras de todo o continente americano foram estendidas no palco, enquanto aparecia no telão do estádio de Santa Clara: "só o amor é mais forte que o ódio". Em um contexto tenso, o artista porto-riquenho, que critica a dura política anti-imigração de Donald Trump, não usou a plataforma única da grande final da NFL para enviar uma mensagem política direta. Trump assumiu esse papel, denunciando rapidamente a performance como "uma afronta à grandeza da América".
Ao cantar em espanhol e reivindicar suas raízes, Bad Bunny desafia os códigos de uma indústria musical por muito tempo dominada pelo inglês. No momento em que a comunidade latino-americana é atacada pela administração Trump, o artista mais ouvido do mundo em 2025 transforma o palco pop em tribuna de resistência cultural, analisa Ons Barnat, em entrevista à RFI.
RFI: Bad Bunny é o primeiro artista que canta apenas em espanhol a ganhar o Grammy de álbum do ano. Neste domingo, ele faz o famoso show do intervalo do Super Bowl. Ele seria uma figura de resiliência, ou até de resistência, para a comunidade latino-americana?
Ons Barnat: Com certeza, é realmente uma forma de resistência sendo autêntico e fiel à sua identidade e cultura porto-riquenha. Ele se torna o novo símbolo dessa América em transformação. Ele não se força a falar inglês com um sotaque que seria bem-visto pelas populações mais conservadoras. Ele fez vários discursos no Grammy, e um deles foi em espanhol. Ao assumir isso, mostra que essa é uma língua que se tornou indispensável nos Estados Unidos. Há realmente uma postura política na maneira como fala e como se apresenta.
Com tantas tensões políticas, Bad Bunny acaba encarnando um pouco tudo o que a administração atual combate. Ele é uma verdadeira antítese cultural do poder atual em Washington. E se coloca como defensor de todas essas pessoas que vivem momentos tão intensos desde o segundo mandato de Trump.
No Grammy, fez discursos muito concisos, mas muito poderosos, que indicam entender claramente que se posiciona de maneira firme contra as políticas antimigratórias da administração Trump. Ele não fez as denúncias abertamente, exceto quando disse "ICE out". Ele não entra em proselitismo. Seu discurso foi quase universalista quando disse que "o que enfrentamos é ódio, e a única forma de combater isso é com amor". Ele quer superar as divisões políticas de uma maneira muito serena.
Seu prêmio e suas falas podem reforçar o sentimento de pertencimento e orgulho entre latino-americanos nos EUA?
O Grammy de Álbum do Ano com um disco totalmente em espanhol representa uma grande mudança. E a maior parte de seus discursos visava diretamente a comunidade latino-americana discriminada e marginalizada. Mudanças culturais já estão em curso há muito tempo nos EUA, e agora Bad Bunny se torna tão mainstream que percebemos que não dá mais para falar de "margem". A margem vira centro e ocupa até o topo da hegemonia da música pop mundial.
É a primeira vez que vemos um artista latino assumir sua identidade sem qualquer constrangimento, diferente do que acontecia antes. Quando ele participou do Super Bowl com Shakira em 2020, ainda era preciso cantar essencialmente em inglês.
As gerações anteriores de artistas latinos eram pressionadas a apagar sua identidade e cantar em inglês?
Exatamente, era isso que a indústria musical norte-americana considerava fundamental. Para fazer sucesso, precisava ser em inglês porque se via o modelo norte-americano essencialmente como anglófono.
Hoje, os latino-americanos representam mais de 20% da população dos EUA. Isso significa que houve uma mudança demográfica que aparece na cultura e acaba influenciando a política. O que aconteceu no Grammy é quase como a validação, pela indústria mainstream, dessas mudanças demográficas e culturais que já estavam em andamento.
Esse tipo de evolução musical mostra o vínculo entre o social e o musical. Essas tomadas de posição permitem analisar de maneira muito mais profunda o que acontece dentro dos EUA. Isso contraria o discurso político da administração atual, que tenta demonizar toda essa população latino-americana que, pouco a pouco, se torna dominante no país.
Bad Bunny decidiu não se apresentar recentemente em solo americano por medo de intervenções da polícia de imigração (ICE) durante seus shows. Trump afirmou querer enviar o ICE após o Super Bowl. Como Bad Bunny protege seu público diante dessas ameaças?
O que é certo é que a situação pode ser explosiva. O esquema de segurança no Super Bowl nunca foi tão importante quanto neste ano. Seus opositores estão esperando qualquer deslize. Houve até um "contra-show de intervalo" organizado por apoiadores de Trump, muito menor, com Kid Rock e outros artistas alinhados à administração atual. Com manifestações em Minneapolis, poderia ocorrer excessos, mas isso ultrapassa o que Bad Bunny pode controlar no palco. Pelos discursos que fez no Grammy, percebemos que sua prioridade é garantir a segurança de todos e dizer que não se deve ter medo.