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Morre Nelson Mandela, a lança da nação africana

“Madiba”, um dos libertadores da África Colonizada, morreu aos 95 anos

6 dez 2013 07h24
| atualizado às 07h31
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Mandela acena para simpatizantes durante comício no dia 30 de janeiro de 1994, em   Rustenburg, às vésperas da eleição presidencial
Mandela acena para simpatizantes durante comício no dia 30 de janeiro de 1994, em Rustenburg, às vésperas da eleição presidencial
Foto: AFP

Aos 95 anos de idade, desaparece um dos libertadores da África Colonizada e um dos últimos campeões africanos que lutou contra o colonialismo europeu. Nelson Mandela, nascido em 18 de julho de 1918 na cidade de Qunu (África do Sul), pertenceu a uma geração formidável de rebeldes e revolucionários terceiro-mundistas que emergiu no após-Segunda Guerra Mundial. A meta deles era simples: livrar seus países, e milhões de africanos, do domínio estrangeiro, do jugo do homem branco. Algo que se prolongava desde o século 16 e, de modo mais intenso, no transcorrer do século 19.

Por primeiro, os europeus vieram na forma de traficantes de especiarias e escravos, plantando inúmeras feitorias no litoral da África Ocidental, principalmente no golfo de Guiné e de Angola. Assim por alto, se acredita que sugaram do solo africano 9 milhões de homens e mulheres, levados sob ameaça do chicote para diversas partes do Novo Mundo nos porões tétricos e fétidos dos navios negreiros, expondo as páginas mais terríveis da história da humanidade em qualquer tempo.

Acicatados pela competição, as principais potências colonialistas da Europa (Grã-Bretanha, França, Alemanha, Portugal, Bélgica e Itália), pelas alturas da segunda metade do século 19, tratam de, cada uma, reservar um naco do território africano. O interior do Continente Negro, ainda não devassado, foi conquistado por expedições organizadas a partir do litoral. No final daquele século, a África por inteiro havia sido retalhada pelos europeus que, cada um a seu modo, fixaram as respectivas fronteiras das suas possessões.

Desta feita, com a supressão geral da escravidão no Mundo Ocidental, a partir de 1848, eram os recursos minerais e agrícolas que interessavam aos exploradores forâneos. Em grilhões, a África, "colônia de todas as metrópoles", permaneceu assim até o pós-Segunda Guerra Mundial.

Eviscerado, exausto e abatido por duas grandes guerras, a de 1914-1918 e a de 1939-1945, o Poder Colonial começou a enfraquecer. Aproveitando-se da hesitação do braço do feitor, milhares de africanos começaram a se mobilizar em favor da libertação do seu infeliz continente. Surgiram então, por todos os lados, os líderes que iriam insuflar as massas colonizadas à rebelião: Ahmed Sékou Touré, Félix Houphouët-Boigny, Kwame Nkrumah, Robert Mugabe, Julius Nyerere, Patrice Lumumba, Jomo Kenyatta, Samora Machel, José Eduardo dos Santos e, entre eles, Nelson Mandela. No panorama internacional, ele foi precedido por Mahatma Gandhi, o libertador da Índia, e pelo reverendo norte-americano Martin Luther King, seu contemporâneo, que liderou o movimento pelos Direitos Humanos a favor dos negros americanos (1956-1968).

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Apartheid, a peculiaridade da África do Sul
Enquanto a maioria dos líderes emancipadores obtinha sucesso (a maioria das novas nações africanas conseguira a independência entre 1956 e 1975), a África do Sul mantinha-se na mesma. Uma minoria de brancos de origem inglesa e holandesa (os descendentes dos bôeres), prevenindo-se, desde 1948 instituíram o regime do Apartheid ("separação"). Os brancos, 1/5 da população, eram os donos das terras, dos negócios, das minas e da vida política na sua totalidade. Os africanos foram relegados oficialmente a uma posição de inferioridade social absoluta. Não tinham cidadania nem direitos outros.

Distribuição dos grupos étnicos sul-africanos - população total: 45 milhões
Negros: 79,0%
Brancos: 9,6%
Mestiços: 8,9%
Indianos e asiáticos: 2,5%

O regime que Hitler ambicionava impor na Europa, baseado na raça, derrotado em 1945, renascia pelas mãos dos brancos sul-africanos. Sustentaram-no abertamente tanto o Reino Unido como os Estados Unidos. O motivo que "os defensores do Mundo Livre" alegaram, aceitando os argumentos dos racistas, era de que num mundo dividido entre o capitalismo e o comunismo, uma emancipação dos africanos certamente corresponderia a uma vitória estratégica e ideológica da URSS. Evidentemente, contou nesta atitude deles de "fechar de olhos" para as injustiças do segregacionismo o fato de a África do Sul, controlada pelos brancos anticomunistas, possuir um manancial de riquezas sem fim (ouro, platina, diamantes, minerais estratégicos etc.), o que fez com que as pressões externas para por fim àquele regime iníquo terem sido atenuadas.

Nelson Mandela, que integrava o Conselho Nacional Africano (fundado em 1942), convertido à estratégia da luta armada contra o regime odioso, foi condenado à prisão perpétua em 1964. Enquanto a maioria dos estados africanos celebrava sua emancipação, Mandela viu-se confinado ao cárcere da ilha Robben. Tornou-se um símbolo mundial da resistência ao Apartheid.

Só o libertaram em fevereiro de 1990, 26 anos depois da condenação. Com o fim da Guerra Fria e devido ao enorme peso que a opinião pública ocidental exerceu sobre o regime segregacionista sul-africano, ameaçando retirar seus investimentos do país, o racismo tornado instituição viu-se sitiado por uma insuperável pressão. Com o desaparecimento da ameaça comunista, o pretexto usado pelos defensores do Apartheid esfumaçara-se. Um raro encontro entre a Consciência e o Dinheiro pôs fim à odiosa estrutura do regime.

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A conciliação das raças
Anunciando uma política de conciliação entre as raças e as classes, Mandela, conhecido pelos seus como Madiba, consagrou-se como o primeiro africano a assumir a presidência do país em 17 de abril de 1994. Não pregou a vingança contra seus opressores brancos, mas a integração deles numa sociedade democrática que fora marcada pela desigualdade racial.

Galardoado como Prêmio Nobel da Paz, em 1993, teve a sabedoria de manter os brancos no país, visto que eram eles que detinham as propriedades bem como o saber tecnológico e o conhecimento no sentido mais amplo. A ideia dele era executar um projeto de gradativa transferência daqueles poderes e saberes, a começar pelo poder político, para as mãos dos nativos, tornando-os cada vez mais aptos e habilitados no gerenciamento do país no futuro, evitando deste modo que a nação multirracial afundasse no caos econômico e na desordem.   

Aproximam-se os 20 anos da estratégia adotada por Mandela e a expectativa é de que o seu desaparecimento não provoque nada que lembre um "acerto de contas" com o passado, abrindo as portas para um banho de sangue. Se isto ocorrer, ficaria manchada para sempre a solução da conciliação racial entre brancos e negros. Política que, até agora, tem se mostrado capaz de manter a estabilidade interna e a prosperidade da África do Sul.

Veja a trajetória do ex-presidente Nelson Mandela em fotos

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Fonte: Especial para Terra
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