Como será a participação africana nas Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina?
A África esteve representada em várias competições ao longo da história das Olimpíadas de Inverno e continua à espera de sua primeira medalha na competição. O evento começa oficialmente nesta sexta-feira (6), com a cerimônia de abertura no estádio San Siro, em Milão.
Farid Achache, da RFI em Paris, e Christophe Diremszian, enviado especial a Milão
Entre 1960 e 2022, 15 países africanos participaram das Olimpíadas de Inverno. A lista inclui Argélia, Madagascar, África do Sul, Marrocos, Senegal, Quênia, Gana, Togo, Egito, Essuatíni, Camarões, Etiópia, Zimbábue, Nigéria e Eritreia.
A África do Sul foi a primeira nação a participar, em 1960, mas devido aos boicotes políticos ao apartheid, os sul-africanos só retornaram em Lillehammer, na Noruega, em 1994, com o patinador artístico Dino Quattrocecere e a patinadora de velocidade Cindy Meyer.
Em 2018, em PyeongChang, na Coreia do Sul, oito países africanos estiveram representados. Quatro anos depois, em Pequim, a África enviou seis atletas de cinco países: Eritreia, Gana, Madagascar, Marrocos e Nigéria.
Em 1984, em Sarajevo, foi a vez de o Senegal estrear na competição, com Lamine Gueye, que deixou sua marca. Natural de Dakar, ele foi, aos 23 anos, o primeiro esquiador da África Subsaariana a participar da competição. Fundador da Federação Senegalesa de Esqui em 1979, participou de três edições das Olimpíadas de Inverno, cinco campeonatos mundiais e 25 Copas do Mundo.
Neto de um ex-presidente da Assembleia Nacional, ele foi enviado para um internato na Suíça para estudar, onde descobriu o esqui durante as atividades organizadas nos fins de semana. "Aquela sensação de deslizar… eu não fazia ideia do que era. O esqui e eu temos uma história de amor que começou naquela época", contou ao jornal regional Ouest-France. Hoje, ele luta para que o maior número possível de atletas africanos participe das Olimpíadas de Inverno.
Gana participou pela primeira vez em Vancouver, em 2010, graças a Kwame Nkrumah-Acheampong, nascido na Escócia, que competiu no slalom masculino. Alguns atletas se destacaram na história dos jogos mesmo sem ganhar medalhas, como o esquiador de fundo Philip Boit, que representou o Quênia em 1998, 2002 e 2006.
Em 12 de fevereiro de 1998, em Hakuba, na prova de 10 km clássico nos Jogos de Nagano, Boit terminou em último lugar. Mas foi recebido na linha de chegada pelo vencedor, Bjorn Daehlie, que o parabenizou. A imagem correu o mundo. "Meu treinador tinha me falado dele e eu o tinha visto na TV. Eu não conseguia acreditar que o melhor esquiador do mundo tinha ficado ali para me parabenizar", contou Boit ao site oficial dos Jogos, Olympics.com.
Madagascar participou de três edições dos Jogos de Inverno: 2006, 2018 e 2022. A esquiadora alpina Mialitiana Clerc, sua única representante, foi a única mulher africana em competição em 2022, em Pequim. Ela já havia participado dos Jogos da Coreia do Sul, em 2018, com apenas 16 anos.
Mialitiana Clerc descobriu o esqui apenas alguns anos antes, nos Alpes franceses, onde cresceu com sua família adotiva. Nascida perto da capital Antananarivo, ela foi adotada com um ano de idade, mas sempre manteve contato com sua família biológica. "Eu me considero alguém de sorte, porque, sim, não há muitas mulheres africanas no mundo do esqui", declarou à Olympics.com, site oficial da competição.
As nigerianas Seun Adigun, Ngozi Onwumere e Akuoma Omeoga fizeram história ao se tornarem a primeira equipe africana de bobsleigh, em 2018, na Coreia do Sul. Em PyeongChang, a África teve outra representante: Sabrina Wanjiku Simader. A queniana tornou-se a primeira esquiadora africana a disputar as Olimpíadas de Inverno. Ainda na Coreia do Sul, seu compatriota Samuel Ikpefan também teve a honra de representar o país nas provas de esqui de fundo.
Evento será realizado em sete locais
A abertura das Olimpíadas de Inverno é marcada pela chegada da tocha olímpica a Milão, carregada da Vila Olímpica até a famosa Praça do Duomo nesta sexta. Stefano, voluntário vindo de Pisa, não esperou pela passagem da tocha para entrar no clima.
"Na quarta-feira (4), estávamos no San Siro para os ensaios do desfile e agora vou a Santa Giulia para o primeiro jogo de hóquei. Sei que alguns milaneses reclamam do trânsito, sobretudo com a chegada de 80 chefes de Estado, o que paralisa um pouco a cidade. Mas, pelos Jogos, acho que vale a pena", pondera o voluntário. Desde 2 de fevereiro, a polícia de Milão instaurou cinco zonas vermelhas, perímetros de segurança quase barricados onde será preciso apresentar identificação para circular.
Durante duas semanas, 2.900 atletas participarão das competições. O espetáculo ocorrerá na capital lombarda e em outros quatro locais. A área total das competições cobre 22 mil quilômetros quadrados, da Lombardia ao Vêneto, no norte da Itália.
As competições serão realizadas em sete locais. Em Milão, ocorrerão as provas de hóquei no gelo e patinação. Bormio vai sediar o esqui alpino masculino. Em Cortina, a mais de 300 km, serão realizadas as provas femininas, esportes de deslize, bobsleigh e luge. Anterselva vai sediar a competição de biatlo, perto da fronteira austríaca.
A ideia é respeitar o princípio do Comitê Olímpico Internacional, que consiste em utilizar ao máximo instalações existentes e históricas para reduzir os custos, estimados em mais de € 5 bilhões.
Ainda faltam alguns detalhes para finalizar a organização do evento. A pista de hóquei no gelo de Milão, inaugurada com atraso há menos de um mês, não estava em condições ideais antes do início do torneio feminino nesta quinta-feira (5). O teleférico de Cortina, que deveria transportar milhares de espectadores até a pista de Tofane, ainda está em obras, apesar de ser essencial para aliviar o trânsito na estação.