Somália e nações africanas criticam reconhecimento da Somalilândia por Israel
A Somália e a União Africana (UA), organização internacional formada por 55 nações do continente, reagiram com indignação depois que Israel se tornou o primeiro país a reconhecer formalmente a região da Somalilândia como um Estado independente. Além disso, o grupo armado islâmico Al-Shabaab fez ameaças de retaliação, caso Tel Aviv tente aumentar sua influência naquele território.
Situada no extremo nordeste do Chifre da África, com uma área do tamanho do Uruguai (175 mil km²), a Somalilândia declarou sua independência da Somália em 1991, quando o país enfrentava um cenário de caos após a queda do regime militar do autocrata Siad Barre.
Nesta sexta-feira (26), Israel se tornou o primeiro país a reconhecer o território, que funciona de forma autônoma e se distingue por uma relativa estabilidade em comparação à Somália, afetada por insurgências islâmicas e conflitos políticos.
A Somalilândia é "um Estado independente e soberano", afirma um comunicado divulgado pelo gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. A decisão, no entanto, foi condenada pela Somália e pela União Africana.
Dadas as repercussões geopolíticas, Turquia, Djibuti, que tem fronteira com a Somalilândia, Egito e a Autoridade Palestina, que administra parcialmente a Cisjordânia ocupada, também rejeitaram o anúncio.
Em entrevista ao New York Post, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que se opõe ao reconhecimento do território e que Washington não seguiria os passos de Israel, seu aliado.
"Não", respondeu o bilionário republicano ao jornal quando foi perguntado sobre o reconhecimento da região, e acrescentou: "Alguém sabe realmente o que é a Somalilândia?".
Ameaças de retaliação
O Al-Shabaab, grupo armado islâmico ligado à Al-Qaeda que luta contra o governo somali desde 2006, afirmou neste sábado (27) que "lutará" contra qualquer tentativa por parte de Israel de "usar" a Somalilândia, após o governo de Netanyahu ter reconhecido oficialmente a autoproclamada república.
O Al-Shabaab "rejeita a ambição israelense de reivindicar ou usar partes de nossos territórios. Não aceitaremos e lutaremos contra isso, se Deus quiser", disse o porta-voz Ali Dheere em um comunicado.
"É uma humilhação da mais alta ordem ver hoje alguns somalis comemorando o reconhecimento pelo primeiro-ministro israelense Netanyahu", quando Israel é "o maior inimigo da sociedade islâmica", concluiu.
"Ataque à soberania"
Em Hargeisa, capital da Somalilândia, centenas de pessoas saíram às ruas durante a noite com bandeiras e gritos de "vitória".
A Somália condenou um "ataque deliberado contra sua soberania" por parte de Israel e advertiu que o anúncio exacerba "as tensões políticas e de segurança na região".
Em comunicado, a União Africana alertou sobre o "risco de criar um precedente perigoso com consequências consideráveis para a paz e a estabilidade em todo o continente".
Posição estratégica
A Somalilândia tem uma posição estratégica na entrada do Estreito de Bab el-Mandeb, em uma das rotas comerciais mais movimentadas do mundo, que liga o Oceano Índico com o Mar Vermelho e o Canal de Suez, mais ao norte. Analistas acreditam que a decisão de Tel Aviv foi motivada por interesses de segurança regional.
"Israel precisa de aliados na região do Mar Vermelho por muitas razões estratégicas, incluindo a possibilidade de uma futura campanha contra os huthis (rebeldes iemenitas apoiados pelo Irã)", afirmou o Instituto de Estudos de Segurança Nacional em um documento publicado no mês passado.
A costa do Iêmen fica próxima da Somalilândia e Israel atacou alvos neste país de forma reiterada após o início da guerra na Faixa de Gaza, em outubro de 2023. Os bombardeios foram respostas aos ataques dos huthis lançados contra o Estado hebreu em solidariedade aos palestinos do enclave.
Além disso, Tel Aviv tenta fortalecer suas relações com países do Oriente Médio e da África. Os históricos Acordos de Abraão, alcançados no final do primeiro mandato de Trump em 2020, estabeleceram relações entre Israel e países muçulmanos como Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Bahrein e Sudão. Mas os esforços foram interrompidos pela guerra de Gaza.
"Estou muito, muito feliz e muito orgulhoso deste dia, e quero desejar a você e ao povo da Somalilândia o melhor", declarou Netanyahu ao presidente da Somalilândia, Abdirahman Mohamed Abdulahi.
O território buscava reconhecimento internacional há décadas. O presidente Abdulahi afirmou que esta era sua prioridade ao assumir o cargo, no ano passado.
"É um momento histórico", celebrou o presidente, conhecido como "Irro".
Com AFP