Onde surgiu nossa espécie? Estudo da Nature reforça aparecimento do Homo sapiens na África
Fósseis descobertos no Marrocos e recentemente datados em 773 mil anos reforçam a hipótese de uma origem africana do Homo sapiens, segundo um estudo publicado nesta quarta-feira (7) na revista científica Nature.
Até hoje, o fóssil mais antigo de Homo sapiens foi encontrado em Jebel Irhoud, no Marrocos, e data de cerca de 300 mil anos.
No entanto, os ancestrais da nossa espécie teriam se separado bem antes — entre 750 mil e 550 mil anos atrás — das linhagens eurasiáticas que deram origem aos neandertais e aos denisovanos, dois parentes humanos hoje extintos.
Até agora, no oeste do chamado Velho Mundo, os principais fósseis de hominíneos arcaicos desse período haviam sido encontrados na Espanha, no sítio de Atapuerca. Datado de cerca de 800 mil anos, o chamado Homo antecessor combinava características mais antigas, semelhantes às do Homo erectus, com outros traços que se aproximam tanto dos Homo sapiens quanto dos neandertais e denisovanos.
Essa combinação levou à hipótese — ainda debatida — de que o Homo sapiens teria surgido fora da África, antes de retornar ao continente.
"Havia um verdadeiro vazio no registro fóssil africano", explica o paleoantropólogo Jean-Jacques Hublin, principal autor do estudo.
Esse vazio começa agora a ser preenchido com a datação de fósseis da chamada "Gruta dos hominíneos", descoberta em 1969 em Casablanca, na costa atlântica do Marrocos. Atualmente, os cientistas preferem o termo "hominíneos" para se referir aos seres humanos e a seus ancestrais.
O local foi ocupado de forma esporádica por hominíneos, que deixaram ali ferramentas de pedra típicas da indústria acheulense, e também serviu como abrigo para carnívoros. Isso é comprovado por um fêmur humano com marcas de consumo, provavelmente por uma hiena, já analisado em um estudo anterior.
Cerca de 30 anos de escavações, conduzidas por uma equipe franco-marroquina, permitiram a descoberta de vértebras, dentes e fragmentos de mandíbulas humanas, cuja morfologia chamou imediatamente a atenção dos pesquisadores.
Em especial, uma mandíbula muito delicada, descoberta em 2008. "Os hominíneos que viveram há meio milhão ou um milhão de anos geralmente não tinham mandíbulas pequenas. Ali, era evidente que se tratava de algo estranho. E nós nos perguntávamos qual poderia ser a idade daquele fóssil", relembra Hublin.
Inversão do campo magnético da Terra
Várias tentativas de datação falharam, até que, em 2022, os pesquisadores recorreram a um método baseado na inversão da polaridade magnética da Terra.
Há 773 mil anos, o campo magnético terrestre se inverteu: até então, o polo norte magnético ficava próximo ao polo sul geográfico. Em todo o planeta, as rochas preservaram vestígios desse fenômeno.
Os fósseis da Gruta dos hominíneos foram encontrados exatamente nos níveis geológicos correspondentes a essa inversão, o que permitiu uma datação considerada "muito, muito precisa", segundo Hublin.
Com essa nova datação, a ideia de uma "ausência de ancestrais plausíveis" do Homo sapiens na África deixa de existir, comemora o pesquisador.
Em um comentário também publicado na Nature, o paleobiólogo Antonio Rosas, que não participou do estudo, avalia que Hublin e seus colegas reforçam uma visão cada vez mais aceita, segundo a qual tanto as origens do Homo sapiens quanto as do último ancestral comum entre sapiens, neandertais e denisovanos se situam na África. O trabalho também sugere que a divergência evolutiva da linhagem sapiens pode ter começado mais cedo do que se imaginava até agora.
Assim como o Homo antecessor, os hominíneos de Casablanca apresentam um "mosaico de características primitivas e derivadas", explica Hublin, que prefere classificá-los como "Homo erectus tardios, em sentido amplo".
Embora próximos, os fósseis marroquinos e espanhóis não são idênticos, o que indica a existência de populações em processo de separação e diferenciação, acrescenta o paleoantropólogo.
Se o Oriente Médio é considerado a principal rota migratória dos hominíneos para fora da África, a queda do nível do mar em certos períodos pode ter criado passagens entre a Tunísia e a Sicília, além da região do estreito de Gibraltar.
Esses fósseis representam, segundo Hublin, "mais uma peça a ser colocada no conjunto de evidências que sustentam a hipótese de trocas possíveis" entre o norte da África e o sudoeste da Europa.
Com AFP