Missão da ONU no Sudão constata "intenção de genocídio" de milícia em El-Fasher
A missão independente de apuração de fatos da ONU sobre o Sudão relatou nesta quinta-feira (19) "atos de genocídio" em El-Fasher, no norte, palco de atrocidades após ser tomada pelas Forças de Apoio Rápido (RSF), no final de outubro. "Com a expansão do conflito para a região de Kordofan, a proteção urgente de civis é mais necessária do que nunca", alertou Joy Ngozi Ezeilo, especialista da missão.
Desde a queda de El-Fasher em Darfur, a vizinha Kordofan, uma vasta região fértil e rica em petróleo ao sul de Cartum tornou-se a frente mais disputada do conflito que opõe o exército regular às RSF desde abril de 2023. Nos últimos meses, os ataques com drones intensificaram a violência.
No relatório intitulado "Características do Genocídio em El-Fasher", a missão da ONU concluiu que "a intenção genocida é a única conclusão razoável que pode ser tirada das ações sistemáticas das Forças de Apoio Rápido (RSF)".
Esses atos são "caracterizados por assassinatos com motivação étnica, violência sexual, destruição e declarações públicas que incitam explicitamente a eliminação de comunidades não árabes, particularmente os Zaghawa e os Fur", detalha um comunicado de imprensa que acompanha o relatório.
Pelo menos 6 mil mortos
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos estimou que, nos três primeiros dias da ofensiva das Forças de Apoio Rápido, pelo menos 6 mil pessoas foram mortas, das quais 4 mil dentro da cidade e mais de 1,6 mil durante a fuga.
Em meados de novembro, após uma sessão especial, o Conselho de Direitos Humanos ordenou uma investigação pela Missão Independente de Apuração de Fatos das Nações Unidas sobre o Sudão. De acordo com suas conclusões, "pelo menos três atos que constituem genocídio foram cometidos".
As violências incluem "o assassinato de membros de um grupo étnico protegido, graves danos físicos e mentais, e imposição deliberada de condições de vida calculadas para provocar a destruição física do grupo, total ou parcial".
As atrocidades documentadas pela missão "são verdadeiramente horríveis", reagiu a secretária de Estado de Relações Exteriores britânica, Yvette Cooper, que pretende mencionar o relatório em uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre o Sudão, nesta quinta-feira.
Ataque mata ao menos 15 crianças
Na segunda-feira, um ataque aéreo contra um campo de deslocados internos no oeste de Kordofan matou pelo menos 15 crianças e feriu outras 10, anunciou o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) na noite de quarta-feira (18), sem atribuir a autoria a nenhum grupo específico.
Na quinta-feira, outro ataque aéreo matou uma pessoa na cidade de Kurmuk, na fronteira com a Etiópia, segundo uma fonte governamental pró-exército que acusou as Forças de Apoio Rápido (RSF). Um ataque aéreo a um mercado em Kordofan do Norte no domingo matou pelo menos 28 pessoas.
"A escala, a coordenação e o apoio público dado à operação por altos funcionários das RSF demonstram que os crimes cometidos em El-Fasher e arredores não foram atos isolados de guerra", disse Mohamad Chande Othman, chefe da missão da ONU, citado no comunicado de imprensa.
Antes da captura de El-Fasher, o cerco de 18 meses "enfraqueceu sistematicamente a população por meio da fome, privações, traumas e confinamento", deixando-a "indefesa contra a violência extrema que se seguiu", observou a missão. No início da ofensiva das RSF, milhares de pessoas foram "mortas, estupradas ou desapareceram durante três dias de horror absoluto", diz o documento.
O relatório alerta que "na ausência de medidas eficazes de prevenção e responsabilização, o risco de novos atos de genocídio permanece grave e persistente". "Quando há evidências de genocídio, a comunidade internacional tem uma obrigação ainda maior de prevenir, proteger e garantir que a justiça seja feita", enfatizou Othman.
Quase três anos de guerra deixaram dezenas de milhares de mortos e mais de 11 milhões de pessoas deslocadas no Sudão, criando o que a ONU chama de "a pior crise humanitária do mundo".
Com AFP