Em entrevista à RFI, António Guterres ressalta importância da ONU na África em meio a crises globais
Em entrevista à RFI em Addis Abeba, na Etiópia, durante a 39ª Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da União Africana, o secretário‑geral das Nações Unidas, António Guterres, falou sobre o trabalho da ONU em favor da paz e da segurança no continente africano, reafirmou sua defesa firme da ordem constitucional e comentou o papel da instituição em um mundo marcado por guerras prolongadas e pelo desafio climático.
Cristiana Soares, enviada especial da RFI a Addis Abeba (Etiópia)
Uma questão hoje em debate é o futuro do multilateralismo e se as Nações Unidas ainda têm capacidade para enfrentar desafios globais, como conflitos prolongados, tensões políticas e a crise climática.
"Muitas vezes, acusam as Nações Unidas ONU por problemas criados pelos próprios Estados‑membros", disse. "A ONU é um instrumento essencial para apoiar os países em direitos humanos e desenvolvimento. Obtivemos recentemente um avanço muito importante: constituímos o primeiro comitê científico independente sobre inteligência artificial, que será a autoridade global no tema que mais preocupa as pessoas", destacou.
"É evidente que não temos Exército. Não temos sanções, exceto as aprovadas pelo Conselho de Segurança - que, infelizmente, costuma refletir as divisões geopolíticas do mundo", lamentou.
Na sua última Cúpula da União Africana como secretário‑geral da ONU, Guterres apontou resultados concretos na prevenção de conflitos e na manutenção da paz. "A cooperação entre as Nações Unidas e a União Africana é exemplar, e essa cooperação nunca falhou."
Ele reconheceu, entretanto, que "muitos desafios e dificuldades" permanecem. "As interferências externas e mecanismos que minam a confiança entre as forças em confronto em vários cenários africanos tornam muito difícil a ação das Nações Unidas e da União Africana."
'A carnificina tem que parar' no Sudão
Sobre o Sudão, onde ocorre uma das piores crises humanitárias da atualidade, Guterres afirmou que a ONU tem atuado como catalisadora de esforços internacionais em busca da paz, ao promover uma reunião conjunta com a Liga Árabe, a União Africana e o IGAD (Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento) para coordenar ações.
"Estamos buscando formas de consenso que permitam um cessar‑fogo e a desmilitarização de algumas zonas. Seguimos muito ativos na busca de soluções, de acesso humanitário e de desmilitarização, e não desistiremos até alcançar um resultado positivo", garantiu. "Infelizmente, os dois grupos em combate acreditam que podem vencer a guerra, o que dificulta a paz. E há também interferência externa, inclusive com fornecimento de armas aos beligerantes", denunciou.
"A população sofre terrivelmente. A carnificina que vemos no Sudão é totalmente intolerável", alertou.
Guterres ainda manifestou grande preocupação com o terrorismo na província de Cabo Delgado, em Moçambique, e apelou à comunidade internacional, especialmente à União Europeia, para reforçar o apoio ao país.
Em Moçambique, o avanço do terrorismo no norte do país chamam a atenção da ONU. "O terrorismo em Cabo Delgado é mais uma expressão da expansão do terrorismo na África, que nos preocupa profundamente", lamentou. "No Sahel, na Somália, no norte do Congo - em todas essas regiões, a atuação de grupos terroristas é inquietante."
Clima: 'estamos no caminho errado'
O secretário-geral ressaltou o papel das Nações Unidas na luta contra as mudanças climáticas e na defesa de políticas de redução das emissões de gases de efeito estufa, além do apoio aos países mais vulneráveis. "Ninguém além das Nações Unidas tem apoiado de forma tão constante as pequenas ilhas, talvez as mais expostas", citou.
António Guterres reforçou ser "vital compreender que estamos no caminho errado" no combate à crise climática. "O limite de 1,5°C será ultrapassado globalmente. Ainda é possível que, até o fim do século, o aumento da temperatura se mantenha próxima de 1,5°C, mas isso implica uma drástica redução das emissões agora", frisou. "Isso exige acelerar a transição dos combustíveis fósseis para energias renováveis e ampliar substancialmente os mecanismos de apoio aos países que sofrem as consequências", destacou.
Sobre a situação política na Guiné‑Bissau, que enfrentou recentemente uma nova tentativa de golpe de Estado, Guterres defendeu "a manutenção da ordem constitucional e da democracia" nas nações africanas. Ele lembrou que "houve eleições, havia resultados, e um golpe de Estado impede sua divulgação, criando uma situação que precisa terminar", apelou.