Morte de militante da ultradireita abala política francesa
Ataque mortal contra estudante de 23 anos acirra tensões às vésperas de eleições municipais vistas como prévia da corrida presidencial de 2027.A morte de um ativista de ultradireita acirrou os ânimos às vésperas das eleições municipais de março na França, tidas como uma prévia da corrida presidencial de 2027, na qual o partido de ultradireita Reunião Nacional (RN) é visto como tendo sua melhor chance até hoje de conquistar o cargo máximo.
Quentin Deranque, um estudante de matemática de 23 anos, morreu no sábado passado (14/02) após ser espancado por várias pessoas na quinta-feira anterior, à margem de um protesto da ultradireita contra um evento com a presença de uma política de esquerda numa universidade de Lyon, no sudeste da França.
Ex-membro do movimento monarquista Action Française em Vienne (leste da França), Deranque era um ativista de um "grupo nacionalista-revolucionário local", disse à agência de notícias AFP um porta-voz de outro grupo nacionalista em Lyon, o Audace.
As autoridades abriram uma investigação por homicídio doloso, disse o procurador de Lyon, Thierry Dran, acrescentando que ainda não houve prisões e que a investigação para identificar os autores está em andamento.
O caso gerou uma tempestade política na França. O presidente francês, Emmanuel Macron, pediu no sábado "calma, moderação e respeito" e disse que "os autores dessa ignomínia" deverão ser levados à Justiça.
O incidente reacendeu temores de confrontos violentos entre a ultradireita e a esquerda radical num clima de crescente polarização, às vésperas das eleições municipais de março, vistas como uma prévia da eleição presidencial de 2027.
Governo já tem um culpado
O governo francês apontou o dedo para o partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI). "Foi a extrema esquerda que o matou, isso é inegável", declarou o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, no domingo.
Ele denunciou "a cumplicidade da França Insubmissa com a violência política" e afirmou que "a retórica política, particularmente a da LFI, infelizmente leva à violência extrema, tanto nas redes sociais quanto no mundo real".
A porta-voz do governo francês, Maud Bregeon, atribuiu uma "responsabilidade moral" ao partido, que acusou de há anos incentivar um clima de violência.
O veterano líder da LFI e três vezes candidato à presidência, Jean-Luc Mélenchon, negou qualquer responsabilidade pelo incidente, que reacendeu o debate sobre violência política antes das eleições municipais do próximo mês.
Suspeita recai sobre grupo antifascista
Nesta terça-feira, fontes próximas ao caso disseram à AFP que vários suspeitos foram identificados como ligados à extrema esquerda, sem dar maiores detalhes.
Um coletivo anti-imigração chamado Némésis, que afirma combater a violência contra "mulheres ocidentais", disse que Deranque estava no protesto para proteger seus integrantes e foi atacado por "ativistas antifascistas".
O Némésis atribuiu a morte à La Jeune Garde (Jovem Guarda), um grupo juvenil antifascista cofundado por um deputado da LFI antes de sua eleição para o parlamento e dissolvido em junho de 2025.
O grupo negou qualquer ligação com os "eventos trágicos" de domingo e afirmou que "suspendeu todas as suas atividades" depois de sua dissolução. A Jovem Guarda foi criado por Raphaël Arnault, hoje deputado pela LFI e que expressou seu "horror e repulsa" pela morte do estudante.
Na segunda-feira, a presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, anunciou a suspensão do direito de acesso à Assembleia para Jacques-Elie Favrot, assessor parlamentar de Arnault, "cujo nome foi mencionado por diversas testemunhas" em conexão com o ataque.
Favrot, por meio de seu advogado, "negou formalmente a responsabilidade por essa tragédia" e anunciou que se afastará de suas funções como assistente parlamentar enquanto a investigação estiver em andamento.
"Traumatismo cranioencefálico grave"
Segundo uma fonte próxima à investigação, o ataque ocorreu na tarde de quinta-feira, em meio a "um confronto entre grupos de extrema esquerda e extrema direita".
Deranque foi derrubado e espancado por "pelo menos seis" indivíduos encapuzados à margem de um evento com a eurodeputada da LFI Rima Hassan, afirmou o representante do Ministério Público.
Hassan é conhecida por suas posições extremistas, como a recusa em condenar os atentados terroristas de 7 de outubro de 2013 em Israel.
Ao ser atendido pelos serviços de emergência, o jovem "apresentava essencialmente ferimentos na cabeça", incluindo "um traumatismo cranioencefálico grave", acrescentou Dran.
Um suposto vídeo do ataque, transmitido pela emissora TF1, mostra cerca de dez pessoas espancando três jovens no chão. Dois deles conseguem escapar. Uma testemunha disse à agência de notícias AFP que "eles estavam se batendo com barras de metal".
Teste para a presidencial de 2027
As eleições de março são consideradas um teste para a eleição presidencial de 2027, que escolherá o sucessor do presidente Emmanuel Macron, que não poderá concorrer após dois mandatos consecutivos.
As pesquisas de opinião apontam o partido de ultradireita Reunião Nacional (RN) como favorito. Com Marine Le Pen como candidata, a RN chegou ao segundo turno nas duas eleições presidenciais vencidas por Macron.
No entanto, a líder nacionalista de direita está atualmente impedida de ocupar cargos públicos devido a uma condenação por desvio de verbas públicas e, após recorrer, aguarda a decisão final, prevista para julho. Caso a inelegibilidade seja mantida, seu protegido, Jordan Bardella, deverá ser o candidato presidencial da RN.
De acordo com uma pesquisa divulgada no domingo, este jovem e popular político de 30 anos seria o candidato preferido entre os franceses, à frente de Le Pen e do ex-primeiro-ministro de centro-direita Édouard Philippe, que anunciou sua candidatura em setembro de 2024.
md/as (AFP, Efe)