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Guilherme Mazieiro

Opinião: Ato de Bolsonaro é a chance para direita renascer

A manifestação de domingo, 25, traz uma chance para a direita se distanciar da extrema-direita e reconstruir seu caminho e capital político

23 fev 2024 - 12h23
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Ato em apoio a Bolsonaro em Brasília, mai.21
Ato em apoio a Bolsonaro em Brasília, mai.21
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Desde que deixou a Presidência, Jair Bolsonaro (PL) botará a prova, pela primeira vez, seu capital político. O capitão quer uma fotografia para dimensionar quantos apoiadores ainda o veem como líder.

Bolsonaro anda um pouco enfraquecido e inelegível, ainda que seja uma grande liderança. Queria indicar Ricardo Salles (PL-SP) como candidato a prefeito de São Paulo. Mas não conseguiu dobrar o dono do partido, Valdemar Costa Neto, que decidiu por Ricardo Nunes (MDB), atual gestor da capital paulista. Nem o vice Bolsonaro vai poder escolher. A manifestação de domingo ajudará a medir o quanto ele poderá ou não influenciar nas formações de chapas.

Fora isso, o ato por si só é um pedido de socorro. Esta semana, o ex-presidente que está na mira da Polícia Federal fez um apelo a “todas as autoridades” para que diminuam a pressão.

O ponto é que a manifestação de domingo traz uma chance para a direita se distanciar da extrema-direita e reconstruir seu caminho e capital político. Vamos deixar claro que quem se diz de “direita” e defendeu golpe de Estado é extremista, ok? A direita pode ser conservadora, liberal, social democrata, etc. Há várias cores para se pintar a direita, menos aquelas usadas para escrever “fechamento do Congresso” e “intervenção militar”.

Pelo que sabemos nesta sexta, 23, nem todos os pupilos de Bolsonaro irão ao ato. O governador Romeu Zema (Novo-MG) não confirmou presença. Outros governadores anabolizados à base de suco bolsonarista devem ir, como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Jorginho Mello (PL-SC).

Há um cálculo sendo feito pelos atores políticos para saber se só irão manifestantes extremistas ou se os simpatizantes serão arrastados também. O ato pode mostrar que o capitão está tão vivo quanto em 2022.

Do contrário, se participarem apenas os radicais, será um sinal das ruas de que há uma saída para a direita, talvez, menos extrema. De todo modo, não é porque parte do eleitorado está descontente com Bolsonaro que vai voltar a votar no PSDB a partir de agora.

Opções eleitoralmente viáveis na direita, ou seja, aquelas candidaturas que vão para rua em condições de ganhar eleições, precisam ser reconstruídas. Seria saudável para o país. Hoje, esse segmento não tem voto e vive misturado às lideranças extremas tentando se diferenciar com pequenas divergências, que não as permite alçar voo próprio.

Alguém vai correr o risco de condenar antecipadamente um movimento que no domingo, 25, pode se mostrar tão vivo quanto estava em 2022? Deveria, principalmente se quiser se dissociar para construir algo novo.

A direita como conhecíamos no Brasil, democrática e mais ou menos ao centro, já está morta há uns 8 anos, pelo menos. A morte aconteceu em praça pública logo após a rasteira política que passaram em Dilma Rousseff (PT).

Os partidos e personalidades que tinham força para fazer o impeachment penaram para sobreviver aos últimos anos. Quem colheu o fruto da instabilidade e das crises todas foi a extrema-direita que vinha sendo cultivada por Bolsonaro.

Vou relembrar que em 2018, o então tucano e governador de São Paulo, Geraldo Alckmin teve apoio de nove partidos. Na coligação estavam siglas da direita/centrão como por exemplo PP, PL (à época era PR), DEM (que hoje é parte do União Brasil), PSD e Cidadania (então PPS). Alckmin tinha 11 minutos diários na TV, Bolsonaro 18 segundos - isso mesmo, 18 segundos. O projeto que essa turma toda levou para as ruas não convenceu nem 5% dos eleitores, resultando na última pá de cal sobre a direita e a vitória de Bolsonaro.

Em 2022, nem candidato o PSDB teve. O partido minguou ainda mais e perdeu até o comando de São Paulo. Como o nome “direita” foi apropriado pelos extremistas, tentaram criar uma tal “terceira via”, que já morreu no nascimento.

Alckmin viu que o caminho era a frente ampla e democrática com Lula e se deslocou (um pouquinho) para a centro-esquerda vencendo a coligação de Bolsonaro com o centrão (PP, Republicanos e PL).

O poder político do capitão não é um acaso. Bolsonaro gastou sola de sapato e rodou o Brasil de ponta a ponta durante os quatro anos de seu último mandato (2014-2018). Na esteira da Lava Jato, ele se adaptou e soube usar novas formas de comunicação, pregou sua ideologia radical a policiais, em cultos evangélicos, e por aí vai. Eleito, enraizou ainda mais suas bandeiras.

À esquerda é conveniente que a extrema-direita seja chamada de direita. Reforça a polarização. Cabe à direita gastar sola de sapato para se desvincular do bolsonarismo e ser competitiva - ainda que caminhe por mais uns anos sem voto.

Bom fim de semana!

Este texto foi publicado originalmente na newsletter semanal Peneira Política, assinada por Guilherme Mazieiro. Assine aqui, gratuitamente, e receba os próximos conteúdos.

Fonte: Guilherme Mazieiro Guilherme Mazieiro é repórter e cobre política em Brasília (DF). Já trabalhou nas redações de O Estado de S. Paulo, EPTV/Globo Campinas, UOL e The Intercept Brasil. Formado em jornalismo na Puc-Campinas, com especialização em Gestão Pública e Governo na Unicamp. As opiniões do colunista não representam a visão do Terra. 
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