Entenda as semelhanças entre os cenários eleitorais no Brasil e na Colômbia
Em 2026, Brasil e Colômbia viverão eleições presidenciais sob condições políticas que combinam aumento da polarização, fortalecimento de forças conservadoras e tensões institucionais, com crises entre os diferentes poderes
A partir de hoje, o The Conversation Brasil inicia uma parceria de conteúdo com pesquisadores e pesquisadoras da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) para a produção e veiculação de artigos que aprofundam questões como o processo eleitoral brasileiro e na América Latina, a erosão da democracia norte-americana, a expansão da extrema direita e outros temas relevantes dos cenários políticos no Brasil e no exterior._
O ano de 2026 se apresenta como um ano eleitoral crucial para dois países latino-americanos: Brasil e Colômbia viverão eleições presidenciais sob condições políticas que combinam aumento da polarização, fortalecimento de forças conservadoras e tensões institucionais, com crises entre os diferentes poderes.
Ambos os países são atualmente governados por presidentes progressistas, mas o que se nota é um ambiente de menor tolerância a falhas de gestão. Nesse sentido, tanto o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, quanto o governo de Gustavo Petro, na Colômbia, enfrentam restrições que podem dificultar a sua margem de manobra para garantir um novo mandato, com a redução da capacidade de produção de resultados o que, por consequência, reduz as condições de continuidade do projeto político da esquerda na região.
O cenário brasileiro
No Brasil, o terceiro mandato de Lula se desenvolve em um cenário político caracterizado por alta polarização: a oposição tem dado sinais enfáticos de desagrado e contestação; alguns elementos continuam sem aceitar como legítimos os resultados da última eleição.
O período pós-2016 consolidou um padrão de competição marcado pela erosão dos grupos que compõem o centro político e pela construção de identidades com os partidos mais rígidas, frequentemente associadas ao fenômeno que ficou conhecido por "polarização afetiva".
De acordo com esse conceito, a rejeição ao campo adversário é capaz de mobilizar mais esforços que as preferências por diferentes de políticas públicas. O próprio fato de a pessoa ser de um grupo ou de outro, já faz com que se odeiem, mesmo que possam, eventualmente, gostar de políticas parecidas.
Nesse ambiente, o Poder Executivo federal opera sob uma lógica em que, para governar, depende da construção de coalizões com grupos muito heterogêneos e de negociações permanentes com um Congresso fragmentado. Nesse cenário, a coordenação política se torna central para que se tente aprovar quaisquer políticas públicas e para a própria sustentação do governo.
As pesquisas de opinião pública mais recentes refletem esse ambiente de intensa polarização. Levantamentos indicam que o eleitorado segue dividido entre campos políticos bem definidos, com o presidente Lula mantendo índices de aprovação suficientes para sustentá-lo como figura central do debate público, mas enfrentando rejeição igualmente expressiva entre apoiadores do bolsonarismo e de outros setores conservadores.
Em cenários eleitorais, observa-se a repetição da dinâmica que marcou os últimos pleitos: um núcleo consistente de apoio ao atual governo, uma oposição consolidada à direita e um espaço reduzido para alternativas de centro.
A avaliação do desempenho econômico, a percepção sobre políticas sociais e a relação do Executivo com o Congresso aparecem como variáveis decisivas na formação do voto. Esse conjunto de fatores indica que o Brasil caminha para uma disputa novamente polarizada, em que a capacidade de Lula de ampliar alianças políticas — ou de construir uma candidatura sucessora competitiva — tende a ser determinante para o desfecho eleitoral.
O cenário colombiano
Mas esta conjuntura desafiadora não ocorre apenas no Brasil. Um pouco mais ao norte, na Colômbia, a eleição de Gustavo Petro em 2022 representou uma ruptura histórica ao consolidar, pela primeira vez, a vitória de uma coalizão de esquerda em um país tradicionalmente governado por conservadores ou centristas.
Contudo, a experiência de governo tem sido atravessada por tensões institucionais relevantes, incluindo resistências legislativas, conflitos com órgãos de controle e contestação de setores econômicos e militares. Esses elementos evidenciam a existência de limites à capacidade do Estado de conduzir políticas que possibilitem alguma transformação, algo típico de governos que chegam ao poder com agendas de reformas ambiciosas em contextos de coalizões partidárias frágeis e elevada desconfiança das elites tradicionais.
Nesse cenário, o governo Petro tenta simultaneamente avançar em reformas estruturais — como saúde e tributação —, conduzir uma agenda de transição energética e gerir um tema historicamente central no país: as negociações envolvendo paz e segurança interna. Essas frentes, embora programaticamente consistentes com o projeto político do governo, produzem conflitos intensos, alimentando a polarização e ampliando os custos de governabilidade. Além disso, investigações e controvérsias relacionadas à campanha de 2022 adicionam uma dimensão de instabilidade.
Do ponto de vista eleitoral, a dinâmica colombiana apresenta ainda maior volatilidade que a brasileira, em razão da fragmentação partidária e da instabilidade das coalizões. Pesquisas eleitorais sugerem competição ainda aberta e com elevado contingente de indecisos, o que torna o cenário particularmente sensível.
Eventos conjunturais, escândalos, mudanças na economia ou reposicionamentos de lideranças podem transformar tudo do dia para a noite. Esse quadro aponta para uma disputa em que a esquerda ainda é competitiva, mas não suficientemente hegemônica, abrindo espaço para recomposição da direita e do centro político.
Ciclos de polarização
Em perspectiva comparada, Brasil e Colômbia compartilham dilemas típicos de democracias presidenciais latino-americanas em ciclos de polarização: grande dificuldade de governabilidade, presença de atores com capacidade de veto, isto é, de imobilizar os governos, fragilidade de consensos mínimos e intensificação da disputa simbólica.
Além disso, ambos os casos se inserem em um ambiente internacional em que projetos progressistas enfrentam pressões adicionais, incluindo o recente retorno dos Estados Unidos a uma atuação mais incisiva na região. A Venezuela, afinal, faz fronteira com ambos os países.
Contudo, há diferenças relevantes: enquanto no Brasil a eleição de 2026 envolve diretamente a lógica do incumbente e a busca por reeleição, na Colômbia o processo se organiza em torno da sucessão e da capacidade de continuidade sem o próprio presidente como candidato; já que Petro não pode se reeleger.
Assim, observar a trajetória eleitoral de Brasil e Colômbia em 2026 permite compreender como governos de esquerda na região lidam com limitações institucionais, competição polarizada e desafios econômicos, ao mesmo tempo em que tentam sustentar coalizões, implementar reformas e produzir legitimidade política em cenários adversos.
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Soraia Marcelino Vieira recebe financiamento da FAPERJ e é diretora de publicações da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP).
Luciana Santana é secretária executiva da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP)