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Depoimento: pesquisadora indígena reforça importância da valorização da imagem das mulheres cientistas

No ambiente acadêmico, ainda é comum a ideia de que mulheres deveriam estar em áreas do conhecimento ou profissões associadas a papéis tradicionais de cuidado e com menor prestígio ou remuneração

11 fev 2026 - 13h11
(atualizado às 14h35)
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Por que devemos fortalecer a imagem das mulheres cientistas? Essa é uma questão que parece cada vez mais ser urgente se quisermos preencher a lacuna do respeito às mulheres, não só no campo profissional, mas na vida.

Sou pesquisadora do Projeto Museu-Lab de arte, ciência e tecnologia, em execução no Instituto de Física da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Nos últimos anos, tenho desenvolvido pesquisas focadas na difusão e popularização da ciência, com o objetivo de fortalecer o reconhecimento científico-tecnológico de maneira geral. Interesso-me, especialmente, na presença e o papel das mulheres na ciência.

Do gueto ao feminicídio, violências cotidianas

Mato Grosso tem registrado altos índices de violências contra as mulheres nos últimos anos. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgado em julho de 2025, mostra que o estado liderou o ranking nacional de feminicídio no ano de 2024.

Dados divulgados pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso apontam que, de janeiro a outubro de 2025, o estado registrou 46 feminicídios. Um aumento de 18% em relação ao mesmo período de 2024 . Já o Painel PE - Feminicídio e Violência Doméstica - Sistema OMNI apresenta, para o período de janeiro a dezembro de 2025, cerca de 5 mil casos com ações penais em Comarcas desse estado.

Mas o feminicídio é o ato mais grave de uma série de violências contra as mulheres, que ocorrem diariamente em diferentes contextos, inclusive no universitário. No contexto acadêmico, essa violência ocorre por questões diversas, entre elas a ideia de que mulheres estão — ou deveriam estar — em áreas do conhecimento ou profissões associadas a papéis tradicionais de cuidado e com menor prestígio ou remuneração. Essa ideia reforça estereótipos que acabam por distanciar as mulheres de outras áreas de conhecimento ou por criar "guetos femininos".

Alguns dados chamam a atenção sobre a existência destes guetos. O curso de Física da UFMT, por exemplo, nos aponta algumas questões tanto na lista de formandos dos anos de 2024 e 2025, quanto em conversas realizadas com algumas estudantes da licenciatura e bacharelado. De acordo com a lista de formandos do segundo semestre de 2024, apenas duas mulheres colaram grau no curso de Bacharelado em Física, de um conjunto de nove alunos.

Já na Licenciatura, também colaram grau duas mulheres, mas eram as únicas duas estudantes a concluir a licenciatura nesse período. Para o semestre letivo de 2025/01, a licenciatura teve cinco graduados, sendo duas mulheres.

Diante desses dados, interessou-me entender um pouco sobre como as alunas de Física vêem sua permanência no curso. Por isso, realizei uma breve apreensão de percepções de professora e alunas do projeto de extensão Mulheres nas Ciências, vinculado ao Instituto de Física da UFMT.

São cerca de dez alunas que desenvolvem debates de temas relacionados às mulheres e atividades focadas no aumento da participação feminina nas Ciências Exatas, em especial dentro da própria instituição.

Essas estudantes apontam alguns desafios. Elas entendem que, como é considerado um curso 'masculino', a construção das subjetividades e do papel fundamental das mulheres no desenvolvimento de estudos no campo da Física ainda precisa ser constantemente disputada e questionada. Elas destacam que muitas mulheres não chegam a concluir o curso: existe um equilíbrio na admissão, mas não na conclusão.

Sustentabilidade e bem comum: dialogando sobre a questão feminina

A discussão sobre a presença feminina em áreas de maior concentração masculina tornou-se um assunto importante no contexto da minha pesquisa, visto que, como pesquisadora das Ciências Humanas e Sociais, aposto nas intersecções entre áreas para atingir o objetivo de popularização da ciência.

Diante desse interesse, prossegui com a pesquisa, através das visitas à Instituições e espaços que se denominam Museus de ciência. Além disso, apliquei um formulário com educadores da educação básica, na expectativa de compreender a importância de espaços para a difusão das ciências.

Também realizei a leitura de documentos referenciais da educação brasileira, em especial a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é um indicador essencial para alicerçar o tema Mulheres na ciência no produto final deste Projeto de pesquisa. Vale lembrar que a BNCC é um documento que define o conjunto de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem obter ao longo da sua trajetória na educação básica brasileira.

O documento orienta os currículos e as propostas pedagógicas de todas as escolas públicas e privadas em todo o Brasil, para que os estudantes se desenvolvam nas suas dimensões humanas e estejam conectados as realidades do mundo. Para que isso ocorra, ele é constituído das chamadas "competências", que atravessam todas as disciplinas e a maneira como devem ser desenvolvidas no decorrer de toda a Educação Básica e em cada etapa da escolarização.

Nossas análises têm sido direcionadas para as competências da área de Ciências da Natureza, que têm como um dos seus compromissos estabelecidos pela BNCC o fortalecimento do letramento científico, desenvolvendo nos estudantes a capacidade de interpretar o mundo (natural, social e tecnológico) e um olhar pautado nos princípios da sustentabilidade e do bem comum.

Arte, tecnologia e respeito

O ideal inovador e criativo desta caminhada é o de reconhecer e conciliar as expertises das artes com os experimentos e tecnologias, lembrando a potência das artes enquanto mediadora de mundos.

Conseguimos recentemente a cessão de um local pela UFMT para a realização do projeto e estamos em fase de construção do espaço, investindo no conceito de exposições de arte e buscando reunir imagens, textos, objetos, sons e demais materialidades capazes de aproximar o público da atuação de mulheres na ciência.

Utilizo do meu repertório como curadora, artista e mulher indígena para desenhar um espaço que aguce os sentidos e dê sentido a essa proposta.

O local contará com três núcleos motivados pelo próprio processo de pesquisa e seus resultados preliminares. Um deles, relaciona-se à difusão de perfis de cientistas mulheres. Estamos trabalhando com um conjunto representativo de pelo menos dez mulheres oriundas de grupos étnicos, sociais e nacionalidades distintas, assim como áreas de atuação diversas.

Esse núcleo traz forte o grito das próprias mulheres indígenas de que a resposta à questão das muitas violências que sofremos somos nós: mulheres, mães, filhas. Conhecer suas histórias vai fortalecer no público o sentimento de respeito e dignidade feminina e o reconhecimento da presença das mulheres nas ciências.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Naine Terena não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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