Eles só usam black tie: estudo do INCT ReDem revela a profunda divisão de classes no Legislativo brasileiro
Dados indicam que, no Brasil, a representação política opera menos pela inclusão de diversos grupos sociais do que pela reprodução institucionalizada das hierarquias que estruturam nossa sociedade
"Eles não usam Black-Tie", peça escrita em 1956 por Gianfrancesco Guarnieri, é um dos grandes textos da dramaturgia brasileira. O protagonista, Otávio, um operário metalúrgico, encarna a possibilidade dos trabalhadores ocuparem o centro do debate político brasileiro. Adaptada ao cinema em 1981, a obra foi premiada em festivais internacionais, com destaque para o Festival de Veneza, onde recebeu o Grande Prêmio do Júri.
Muitas décadas depois, o impasse abordado por Guarnieri ainda define o poder no país. No Legislativo brasileiro, ao contrário da peça, eles só usam black tie (traje a rigor ou gala). Foi o que revelou um estudo inédito do INCT ReDem, no qual analisamos o perfil de 3.591 deputados federais eleitos entre 1998 e 2022. Os dados reunidos indicam que, no Brasil, a representação política opera menos pela inclusão de diversos grupos sociais do que pela reprodução institucionalizada das hierarquias que estruturam nossa sociedade.
O perfil social do Congresso Nacional, com partidos recrutando em nichos de classe opostos e trabalhadores praticamente ausentes, não é um acaso. De modo mais intenso do que na França, no Reino Unido e nos Estados Unidos, vê-se um padrão sistemático que atravessa três décadas sem se alterar, independentemente de reformas, crises ou alternâncias de poder. Há uma polarização social extrema, em que partidos de esquerda concentram trabalhadores e partidos de direita concentram empresários.
Padrões internacionais
Na França, onde o sistema partidário é bem mais sedimentado que o brasileiro, os partidos representados na Assembleia Nacional mantêm perfis sociais estáveis há meio século. Um estudo sobre 6.844 deputados eleitos entre 1958 e 2007 demonstrou que a esquerda recruta majoritariamente seus quadros políticos entre funcionários públicos e professores (58 a 67% ao longo desse período), enquanto a direita concentra o recrutamento parlamentar em empresários, executivos, advogados e profissionais liberais em geral (entre 61 e 78%), independentemente de todas as crises pelas quais a V República passou (A V República francesa teve início em 1958, marcando uma nova fase constitucional sob a liderança de Charles de Gaulle).
No Reino Unido, Pippa Norris e Joni Lovenduski documentaram a escassez de parlamentares de classe trabalhadora na House of Commons (o parlamento britânico). Apesar do vínculo histórico do Labour Party com sindicatos, deputados com origem operária foram progressivamente substituídos por políticos profissionais e funcionários públicos, enquanto Conservatives concentraram cada vez mais empresários, profissionais liberais e "herdeiros" de privilégios de todos os tipos.
Nos Estados Unidos, entre 1959 e 2023, os Republicanos praticamente dobraram sua proporção de ex-empresários (19% para 37%), enquanto Democratas aumentaram modestamente esse contingente (13% para 18%), criando uma diferença entre as duas siglas de 18 pontos percentuais. Ambos os partidos sub-representam trabalhadores (5,1% entre os democratas, 3,3% entre os republicanos), mas a grande polarização social no Capitólio opera pela via das credenciais educacionais: entre 1973 e 2023, republicanos com formação em universidades de elite caíram de 40% para 15%, enquanto democratas subiram de 30% para 40%.
A polarização de classe no caso brasileiro
No Brasil, após três décadas de reformas políticas (cotas raciais e de gênero, fim do financiamento empresarial nas campanhas, fim das coligações, cláusula de barreira progressiva), migrações partidárias intensas, aumento do número de siglas etc., seria esperável uma homogeneização progressiva do corpo parlamentar. Nessa perspectiva, partidos de esquerda, centro e direita tenderiam a recrutar perfis sociais cada vez mais semelhantes à medida em que se institucionalizassem. Contudo, ocorreu exatamente o oposto.
O estudo do INCT ReDem evidenciou que, diferentemente da divisão institucional francesa (setor público versus setor privado), da divisão ocupacional britânica (onde trabalhadores desapareceram de ambos os partidos) ou da divisão educacional americana (universidades de elite versus não elite), o Brasil segue linhas clássicas de classe: trabalho assalariado versus propriedade dos meios de produção.
Ao analisar as ocupações declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelos deputados em sete legislaturas, encontramos uma polarização estatisticamente extrema: a esquerda concentra trabalhadores manuais (+7,4 desvios-padrão) e exclui empresários (-7,1), enquanto a direita faz o oposto (+5,8 em empresários, -3,3 em trabalhadores).
Em termos estatísticos, um desvio-padrão mede a distância em relação à média. Enquanto os +7,4 desvios-padrão indicam forte sobre-representação de trabalhadores manuais, os −7,1 desvios-padrão revelam uma exclusão estatisticamente muito elevada de empresários no campo parlamentar de esquerda.
Essa segregação ocupacional totaliza 11 desvios-padrão entre os polos, uma distância extraordinariamente alta que indica recrutamento em universos sociais excludentes. Testes estatísticos demonstraram que a probabilidade de observar esse padrão por acaso é inferior a 0,1%. Ou seja, trata-se de uma estrutura sistemática de recrutamento baseada em origem social.
Essa polarização social no Legislativo resistiu à estabilização democrática pós-1988, aos impeachments de Collor e Dilma, aos oito anos de governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), aos 13 anos do PT no poder, à ascensão do bolsonarismo e à fragmentação partidária recorde. Nada disso alterou o padrão fundamental de recrutamento partidário por classe social.
A exclusão sistemática dos trabalhadores manuais
A sub-representação das classes trabalhadoras no Legislativo nacional é gritante no Brasil: em 2022, apenas 2% dos deputados brasileiros eram trabalhadores de origem, isso em um país onde esse grupo representa a maioria da população economicamente ativa. Empresários, embora também minoritários na sociedade, mantiveram presença estável (9-11%).
Mesmo o PT, historicamente comprometido com representação dos trabalhadores, viu essa categoria cair de 21,4% de seus eleitos em 1998 para 6,5% em 2014..
Modelos estatísticos que analisam simultaneamente ocupação, ideologia partidária e ano de eleição confirmaram que esses padrões estruturais persistem no tempo: partidos continuam recrutando em nichos sociais específicos, ajustando apenas a intensidade do fenômeno conforme os contextos eleitorais.
Como analisar a polarização extrema?
A pesquisa do INCT ReDem dialoga com o conceito de "homologia estrutural" do sociólogo francês Daniel Gaxie segundo o qual partidos representam grupos sociais mesmo sem sua presença física massiva no parlamento, desde que seus dirigentes ocupem posições correspondentes nas hierarquias sociais.
No Brasil, isso significa que mesmo com 2% de trabalhadores eleitos, partidos de esquerda podem representar interesses das classes populares porque seus quadros dirigentes (professores universitários, servidores públicos) ocupam o "polo dominado" das classes médias, por isso mais próximos culturalmente dos trabalhadores que do empresariado. Mas essa representação por "afinidade estrutural" é frágil, especialmente em decisões sobre salário mínimo, reforma trabalhista ou previdenciária.
A persistência desses padrões "classistas" na Câmara dos Deputados ao longo de três décadas sugere que estamos diante de estruturas sociais profundas que precedem e condicionam as dinâmicas político-institucionais.
Diferentemente do cenário de convergência social da classe política para um padrão mais uniforme, esperável após tantas mudanças políticas, o Brasil desenvolveu um sistema representativo que mantém e reproduz divisões de classe de forma quase mecânica.
A questão que permanece é se uma democracia pode ser efetiva quando os deputados eleitos vêm de mundos sociais tão diferentes e cada partido recruta apenas dentro do seu próprio universo social.
O autor é coordenador do Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem).
Mateus Albuquerque e Nilton Sainz não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.