Delação premiada em Atenas

20 jul 2017
17h56
atualizado às 17h57
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“... sua salvação [de Andócides] mais certa se reconhecesse culpado, com a garantia de imunidade, do que se recusasse a fazê-lo e acabasse enfrentando um processo” - Plutarco (Alcibíades - Vidas Paralelas).

Deus Hermes
Deus Hermes
Foto: Divulgação

Foi um caso célebre, tanto assim que Tucídides (História da Guerra do Peloponeso) e depois Plutarco (Vidas Ilustres – Alcibíades) deram espaço para o que se chamou a ‘mutilação dos Hermes’ (pequenas colunas quadriculares encimadas por uma cabeça do deus Hermes). Atenas, em 415 a.C.  no aprazível mês do targelion,  estava febril mobilizada para os preparativos da grande expedição náutica que visava tomar Siracusa, na Sicília, situada a mais de 700 km da Grécia.

O Pireu, o porto da cidade, era um formigueiro de marinheiros e soldados atarefados com os afazeres exigidos, entrando e saindo das trirremes levando armas e alimentos.

Eis que justamente nas vésperas da partida os habitantes ficaram chocados com o que viram ao despertar. Centenas e centenas de Hermes espalhados por todos demos haviam sido mutilados. Os governantes, arcontes e estratégos, logo autorizaram uma grande operação para prender os possíveis culpados. Agilizando as detenções prometeram altos prêmios pelas denúncias.

Para eles e para a maior parte dos cidadãos tudo pareceu resultado de uma conspiração oligárquica para fragilizar a democracia num momento crucial em que a marinha partia para uma incerta aventura.

Alcibíades (450-404 aC)
Alcibíades (450-404 aC)
Foto: Divulgação

Quase que de imediato os dedos acusatórios apontaram para Alcibíades, um talentoso líder militar, um jovem aventureiro fascinante discípulo de Sócrates ainda que de caráter duvidoso. Ele, negando tudo, propôs que o julgassem logo para dar partida às naus em rumo à Siracusa. A chama da guerra não poderia mais ser apagada. Que o tratassem como réu mais tarde. E assim foi feito.

Entre os magotes de presos estava o orador Andócides, da facção dos conservadores. Quando já alcançava um ano de cárcere, um parceiro de cadeia o convenceu a “colaborar com as autoridades”. Na sua exposição de motivos frente ao boulé (assembléia da cidade) alegou não só que era inocente como não tivera participação alguma naquele triste episódio. Aida assim ele se apresentava como testemunho em troca da suspensão da acusação. O que lhe foi garantida.

Sim, ele estivera presente na reunião da heteria (sociedade política geralmente secreta) na noite anterior à mutilação coletiva e lembrou perfeitamente como um tal de Eufileto atiçou seus parceiros naquela oportunidade a dar um exemplo de inconformidade antidemocrática.

Algum tempo mais tarde, já em liberdade, alegou que precisava salvar o seu pai e alguns outros parentes postos sob desconfiança. Os apontados por ele foram executados.

Alcebíades por seu lado, quando lá na Sicília, soube que queriam levá-lo ao tribunal, fiel ao seu temperamento volúvel e irresponsável simplesmente desertou. Bandeou-se para os espartanos, inimigos perpétuos de Atenas.

Andócides, o delator premiado, passados 15 anos, em 399, foi novamente convocado a dar um depoimento no tribunal e após isso nunca mais se soube dele.

Notas: a campanha da Sicília revelou-se o maior desastre militar de Atenas. Os sobreviventes capturados foram vendidos como escravos pelas autoridades de Siracusa.  Uma atualização da questão da mutilação dos Hermes foi detalhadamente narrada pelo italiano Luciano Cânfora (O mundo de Atenas, págs. 234 a 261).

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